Combate ao narcotráfico no México e o Movimento pela Paz e Dignidade

 

Não é a primeira vez que corpos decapitados por narcotraficantes, com sinais de torturas, são encontrados no México. No dia 9 de novembro, uma moderadora do grupo “Rasca-tripas”, que denuncia o narcotráfico pelas redes sociais de Nuevo Laredo, entrou para a lista da quarta morte na cidade. Nesse mesmo dia, autoridades mexicanas encontraram corpos de seis homens e duas mulheres no Estado de Durango.

 

Desde o começo de outubro, um grupo de hackers, chamado de Anonymous, lançou um vídeo pela Internet contra o cartel Los Zetas, denunciando o seqüestro de um integrante desse grupo no Estado de Vera Cruz, no sudoeste mexicano. Enquanto o grupo acusa o governo de não punir os culpados, o discurso oficial garante que o combate ao narcotráfico está a todo vapor. Desde o início da chamada Guerra às Drogas, implantada pelo atual presidente do México, Felipe Calderón, em 2006, até o final de 2011, estima-se que aproximadamente 50 mil pessoas morreram por conta da violência no país.

 

Em países como o México e o Brasil, o que estará por trás do combate ao crime organizado? Será que o modelo da punição e da repressão, supostamente praticado pelo governo mexicano apenas contra os narcotraficantes, é a melhor forma para se combater o narcotráfico?

 

As campanhas proibitivas, desde o início do século XX, sempre foram recheadas de um alto grau de preconceito, racismo e xenofobia. O povo mexicano foi relacionado à maconha, enquanto que o ópio foi ligado aos chineses e a cocaína aos negros. Os alvos dos ataques foram, e continuam sendo até os dias de hoje, os pobres e os rotulados de subversivos por contestarem a lógica consumista do sistema (hippies, ativistas sociais e políticos).

 

Nesse contexto, os EUA, que são os verdadeiros causadores do problema, investem maciçamente, há praticamente 40 anos, na militarização e no desrespeito à soberania de outros países, utilizando, como justificativa, o combate ao narcotráfico. Exemplos mais recentes são o plano Colômbia, lançado em 1999 e o mais atual plano Mérida, no México, iniciado em 2008, em que bilhões de dólares têm sido investidos em um suposto e ineficaz combate aos cartéis das drogas. É a já chamada “utopia proibicionista”, nesse sentido, que tem gerado o avanço indiscriminado da indústria bélica, que vende armas para ambos os lados (narcotráfico e forças de segurança).

 

No México, o Movimento pela Paz, Justiça e Dignidade (MPJD), liderado pelo escritor Javier Sicilia, tem colocado essas questões na linha de frente. Mitos como a eficácia do combate policial alardeada pelo atual presidente têm sido fortemente contestados, não só por esse movimento, mas pela entidade internacional Human Rights Watch que, em um relatório publicado recentemente, cujo nome é “Nem segurança, nem direitos: execuções, desaparições forçadas e torturas na ‘guerra contra o narcotráfico’ do México”, revelou um preocupante aumento da violação dos direitos humanos, praticamente todos não investigados, somado a uma não diminuição da violência do crime organizado.

 

Organizações Não Governamentais mexicanas, intelectuais, advogados, ativistas dos direitos humanos e cidadãos em geral (sustentados por aproximadamente 23 mil assinaturas), apresentaram, no mês de outubro, um processo criminal de “lesa humanidade”, diante do Tribunal Penal Internacional de Haia, contra o presidente Felipe Calderón. O processo se estende ainda ao exército e aos chefes de cartéis da droga. Em mais de 700 páginas, foram documentados algo em torno de 470 casos de “violações dos direitos humanos”, ocorridos desde 2006, de crimes de tortura, desaparecimentos, assassinatos, mutilações, abusos sexuais de mulheres e recrutamento de menores, tanto pelo exército como pelo narcotráfico.

 

Além de uma plataforma de reivindicações bem ampla, o MPJD organizou ainda a chamada Caravana do Sul, que buscou realizar uma conexão, talvez inédita, entre o norte e o sul do país, chegando mais precisamente aos estados de Guerrero, Oaxaca e Chiapas, esse último berço do levante zapatista no início de 1994. Familiares dos mortos e desaparecidos da “guerra suja”, implantada pelo governo, se encontraram com as comunidades indígenas e camponesas, que sempre foram vítimas da repressão paramilitar e governamental.

 

Até quando o interesse bélico, a violência, a aniquilação dos que incomodam politicamente e a violação dos direitos humanos serão encobertos por um falso combate ao narcotráfico? O governo mexicano, com o pretexto de vencer o crime organizado, acusa de narcotraficante e mata a quem lhe interessa politicamente.

 

Guga Dorea, Thomaz Ferreira Jensen, Andrea Paes Alberico, Marietta Sampaio, Plínio de Arruda Sampaio, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José Juliano de Carvalho Filho e João Xerri, do Grupo de São Paulo - um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim da Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ. Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Artigo publicado na edição de dezembro de 2011 do Boletim Rede.

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