O último churrasco em Santiago

 

Meu último assado em Santiago foi em inícios de 1973. Os dias eram ainda longos e o verão não começara a encolher-se, mantendo a ilusão que as noites geladas do inverno continuariam para sempre escondidas por detrás das cordilheiras que cercam a cidade.

 

A flaca Cecilia preparava o tecito com ayulla e huevitos revueltos que servia após a reunião. Eu olhava os exemplares de El Rebelde que o Chino trouxera para vendermos, ali mesmo, na Vila Macul, na manhã do dia seguinte. Mário, ao meu lado, falou-me em voz ainda mais baixa do que a normal.

 

Compañero José Antonio, já comeste cabrito? Gostarias de comer um assado de cabrito, domingo? Meus companheiros de trabalho querem te conhecer.

 

Tínhamos grande respeito por Mário, devido a sua trajetória e idade. Entre nós, era o mais velho. Teria já quarenta anos. Era do campo, trabalhara na Concha y Tora, mudara-se para Santiago, onde dirigia, agora, pequena equipe na construção civil.

 

Como no! Jamais comi cabrito! Será um prazer. Levo o vinho, respondi, al tiro!

 

O convite era maná dos céus! A direita, financiada pelo imperialismo, sabotava sem dó a economia para exasperar a população com o desabastecimento. Se a carne sempre fora um quase luxo para a população, agora era verdadeira raridade. Jamais comera um assado, desde minha chegada em Santiago, em fins de 1970!

 

Após a venda dos jornais, paramos em uma botilleria, onde Mário iniciou sua já célebre operação. Confabulou com o botillero, dirigiu-se por entre os engradados de cerveja para a prateleira de vinhos do pequeno negócio. Selecionou algumas garrafas. Leu os rótulos, cheirou as rolhas, examinou o líquido contra a luz do sol. Saímos com quatro garrafas do excelente vinho chileno. Bastariam para os cinco comensais, já que Mário bebia apenas água.

 

Tomamos uma liebre, sentamos nos bancos de trás, pois íamos até o final da linha. Iniciamos longa viagem em direção à cordilheira, através de poblaciones ornadas com as bandeiras orgulhosas dos partidos de esquerda. Caminhos por meia hora em direção da residência do asador, em uma toma realizada poucos meses antes da vitória da União Patriótica.

 

Os companheiros encontravam-se na frente de uma meia-água, acocorados em redor do fogo coroado, para meu gáudio, por não um, mas dois cabritos!

 

Os três anfitriões, jovens, atarracados, de cabelos negríssimos e pele bronzeada, eram mapuches que trabalhavam como peões da construção. Nativos do centro-sul chileno e argentino, os mapuches resistiram com tenacidade à invasão castellana. A vitória de Allende fora o sinal para vasto movimento de recuperação de terras históricas ocupadas por latifundiários.

 

Ainda mais lacônicos do que Mário, os companheiros deixaram logo claro que eu, brasileiro, refugiado e universitário, estava ali para contar e eles para ouvir. Me interrogaram, sempre em voz baixa, sobre a ditadura, sobre o futebol, sobre a comida no Brasil, a política chilena, sobre o governo de Allende. Tudo regado com o tinto generoso.

 

As garrafas do excepcional vinho escolhido por Mário chegavam ao fim e eu permanecia com os olhos grudados nos cabritos, que seguiam sendo girados com paciência canina sobre o fogo.

 

Aproveitei pausa na conversa para avançar a faca sobre o cordeiro mais carnudo e pontificar, confiante: – Al combate, sin miedo!

 

O companheiro ao meu lado explicou, ao segurar meu braço: – Cabrito tem que ser comido quemadito, quemadito.

 

Uma vida mais tarde, desmaiando de fome, provei por primeira vez a carne deliciosa de cabrito, ainda que demasiadamente passada para o gosto de rio-grandense comedor de carne sangrenta. Ao final, diante das carcaças e das duas garrafas já derreadas de vinho popular apresentadas pelos anfitriões, perguntei onde era o banheiro.

 

– Alivia-te no más nos fundos, compadre – responderam-me.

 

Meio trôpego, procurei a proteção da parede de alvenaria semi-levantada do pequeno quintal, que permitia entrever as últimas moradias da vila em construção. Ao retornar, vi os dois couros de cachorros, estaqueados com habilidade, apoiados na parede da moradia.

 

Dias mais tarde, um colega do curso de História me explicou que, no passado, os mapuches aproveitavam as carnes dos perros cimarrones que proliferaram quando das vacarias espanholas, que retiravam os couros e abandonavam as carnes dos animais nos pampas. Informação que jamais pude confirmar.

 

Mário me chamava para me acompanhar, com os companheiros, até a parada. Na vila eram todos trabalhadores, mas não havia que facilitar com os cogoteros, me explicaram.

 

O céu cada vez mais avermelhado anunciava que o dia findava sem piedade.

 

Mário Maestri, 63, historiador, professor da UPF, viveu de 1970 a 1973, como estudante, em Santiago.

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