Irã: próxima estação dos Estados Unidos?

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Componente da tríade chamada de Eixo do Mal pelos Estados Unidos há alguns anos, o Irã tornou-se recentemente o alvo preferencial de um possível empreendimento bélico norte-americano, após a Coréia do Norte ter assinado, no dia 13 de fevereiro, um acordo multilateral relativo à política nuclear.

 

Por meio desse, envolveram-se Coréia do Sul, Japão, Rússia e Estados Unidos, de forma que a Coréia do Norte desativaria a sua principal usina nuclear em troca do fornecimento de petróleo. À medida que torne inoperantes as demais instalações, o volume aumentará. Deste modo, o espectro de uma agressão atômica no Leste asiático dissipa-se temporariamente.

 

Quanto ao Irã, após três intensas semanas de negociações entre fevereiro e março, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao lado da Alemanha, assentiram em suspender a exportação de material bélico para o país e congelaram várias contas bancárias de altos funcionários e de instituições governamentais, supostamente vinculados ao programa nuclear. Isso pode, no curto prazo, prejudicar as importações iranianas e, no médio prazo, os projetos de infra-estrutura do setor petrolífero.   

 

O texto instou o Irã a encerrar o enriquecimento de urânio e o processamento de combustível nuclear até meados de maio, sob pena de novas sanções. Teerã, ao tomar conhecimento da minuta, minimizaria o teor da eventual prescrição, ao afirmar que o Conselho de Segurança estaria desprovido de legitimidade na comunidade internacional e, portanto, a medida estaria desprovida de legalidade.

 

Além do mais, o governo iraniano limita-se a declarar que o seu programa volta-se para a geração de energia, por meio do uso civil dos reatores atômicos, não para uma possível fabricação de armas de destruição em massa, conforme acredita Washington, por fissão nuclear. Destarte, em tese, haveria duas vertentes: uma civil, de conhecimento da Agencia Internacional de Energia Atômica (AIEA), e outra, de feitio bélico, supervisionada pelas forças armadas e pela Guarda Revolucionária.

 

Apesar do abatimento externo por causa de duas guerras, reverberado também internamente por causa dos resultados desfavoráveis ao Partido Republicano nas eleições de novembro do ano passado, o governo Bush parece não abdicar do emprego da força para enquadrar eventualmente um terceiro país, sem consulta à sociedade internacional. Adicione-se que, desta vez, é possível que a Grã-Bretanha, sua tradicional aliada, não participe, dado o desgaste político do primeiro-ministro Tony Blair.

 

Nesse sentido, os Estados Unidos listam instalações estratégicas do Irã, a fim de eliminá-las por meio de ataques aéreos maciços – a partir de fotografias via satélite, as forças armadas norte-americanas estimam 400 pontos, no mínimo, a serem bombardeados, vários dos quais subterrâneos.

 

Ao mesmo tempo, grupos iranianos opositores são contatados, de maneira reservada, para ações conjuntas. Dentre eles, destacam-se os seguintes povos: os azeris, os balúchis e os curdos. Um dos objetivos é o fomento de rivalidades étnicas, com o fito de desestabilizar administrativamente certas áreas do país.  

 

No fundo, o objetivo maior do Executivo estadunidense é mais a substituição de regime do que a contenção do programa nuclear iraniano, considerado como uma derivação do posicionamento político da elite daquele país, bastante influenciada pela religião.

Além do mais, os Estados Unidos enfatizam os laços de Teerã com o Hezbollah, participante do sistema eleitoral libanês a datar de 1992. Todavia, o Departamento de Estado lista o grupo como terrorista desde 1997, tendo por base constituinte obras do Aiatolá Khomeini e por modelo político a Revolução Iraniana de 1979. Acrescente-se que o governo norte-americano registra a presença da entidade no Iraque, ainda que com atuação modesta, a partir de 2003, quando do início da Segunda Guerra do Golfo.

 

O mais preocupante em uma hipotética confrontação entre Estados Unidos e Irã é a possível utilização de armas nucleares, mesmo limitadamente, o que desencadearia, entre países periféricos, uma corrida por armas de destruição em massa para, oficialmente, se autoprotegerem.

 

De modo concomitante, o emprego armamentário desproporcional desacreditaria todos os esforços empregados por organismos internacionais específicos como a AIEA, merecedora de um Prêmio Nobel em 2005, e a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) em inspeções e supervisão de países membros. 

 

As forças armadas estadunidenses cogitam a utilização de uma variante da bomba nuclear B-61, com urânio empobrecido talvez, de sorte que se reduzissem os graus de radiação, sem perda do poder de destruição. A vantagem do seu uso é que diversos tipos de bombardeiros podem lançá-la.

 

Ademais, a pregação antinuclear dos Estados Unidos com referência ao Irã, por causa da experiência de associar a ditadura de Saddam Hussein com armas de destruição em massa e com terrorismo internacional, tem sua credibilidade posta, parcialmente, em xeque.

 

Por outro lado, é possível que, mesmo diante de um anúncio iraniano de interrupção do enriquecimento de urânio, parte da comunidade internacional, em especial os aliados mais próximos dos Estados Unidos, ouça com descrédito tal declaração, de sorte que a tensão continuaria e se estenderia ao plano econômico, por ser o Irã responsável pela produção de mais de quatro milhões de barris de petróleo por dia.  

 

Do ponto de vista geopolítico, o Irã poderia dificultar temporariamente a circulação dos petroleiros no estreito de Ormuz, compartilhado com Omã e Emirados Árabes Unidos. Sobressalto maior poderia ser o apoio aberto à resistência iraquiana, com o envio mesmo de efetivos militares. 

 

Nesse sentido, um dos encaminhamentos imediatos para a superação do impasse poderia ser a constituição de um concerto de países similar ao utilizado no caso da Coréia do Norte. Isolar o Irã, no momento, fortaleceria o radicalismo político interno, o que complicaria ainda mais a estabilidade de uma região já bastante conturbada.

 

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB (Universidade de Brasília).

 

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