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Breve visão do Iraque Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Quarta, 04 de Janeiro de 2012
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Depois de quase 10 anos, a guerra que o presidente Bush declarou concluída em 2003, por fim, chegou ao fim, com a partida das tropas americanas.

O Secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, considerou-a um grande sucesso. O presidente Obama foi mais reticente, declarando que a História decidiria se valeu a pena. Muito diferente da apreciação que ele fez em 2002, quando senador: “Uma guerra estúpida. Uma guerra imprudente. Uma guerra baseada não na razão, mas nas paixões; não nos princípios, mas na política”.

Bem, como todos sabem, o Obama de 2002 era outro. O OBAMA, modelo 2011, e mais uma grande variedade de políticos, jornalistas, militares e intelectuais americanos sustentam que, bem ou mal, a guerra trouxe uma grande vantagem para o Iraque: a democracia.

Devem os iraquianos esquecer seus mortos – entre 150 mil e 1 milhão; seus 2 milhões e 200 mil cidadãos desalojados, espalhados pelo país, mais os 2 milhões refugiados na Síria e na Jordânia; a infra-estrutura do Iraque, seriamente danificada, exigindo bilhões para sua reconstrução.

Por sua vez, o povo americano deve esquecer seus 4.586 soldados mortos, os 32.226 seriamente feridos, os 400 mil que voltaram com graves problemas psicológicos (esse número também inclui os combatentes no Afeganistão).

Tudo isso é secundário, pois o valor mais importante, segundo Panetta e similares, é que, graças aos invasores americanos, o Iraque é hoje uma nação democrática.

Democrática?

Nem bem os americanos partiram, o primeiro-ministro Maliki, membro da maioria xiita, tratou de se livrar do seu mais incômodo rival: o vice-presidente Hashemi. Emitiu uma ordem de prisão, acusando-o de ser mentor de um grupo de milicianos dedicados a atentados contra as instituições e membros do governo.

Hashemi, que é sunita e pertence ao partido Iraqya, fugiu para o território semi-autônomo dos curdos. Claro, desmentiu as acusações e contra-atacou, alegando que Maliki estaria iniciando um processo de afastamento de todos os sunitas do seu governo, com objetivos de se tornar um ditador, no estilo de Saddam Hussein. Afirmou também que jamais voltaria a Bagdá para ser julgado, pois não confiava nos juízes locais, presumivelmente nas mãos de Maliki. Aceitaria um julgamento no Curdistão, com juízes imparciais.

Maliki negou; seria admitir que seus juízes não fossem independentes. Ao mesmo tempo, iniciou manobras para afastar o ministro das Finanças, o sunita Essawy, tido pelos embaixadores estrangeiros como o político mais honesto e competente do país.

Maliki quis forçar a entrega da feitura do orçamento, função de Essawy, a um dos seus partidários. Mas, não deu certo. Essawy recusou-se a aceitar. Nem assim, Maliki desistiu. Mobilizou mais um aliado para acusar o ministro sunita de ligações com a Al Qaeda.

Não pegou. Anos atrás, o general Odierno, então comandante das forças de ocupação, já mandara investigar Essawy, concluindo por sua inocência. Na verdade, o ministro ameaçado tem crédito junto ao povo por ter, durante o ataque e destruição pelos americanos da cidade de Faluja, ocupada por milicianos rebeldes, ficado até o fim, atendendo a combatentes iraquianos feridos.

Diante das perseguições de Maliki, o partido Iraqya decidiu sair do governo e exigir novas eleições. E livres.

A situação se agravou quando o bloco do referendo Moqtada Al-Sadr, que foi o mais ardente inimigo das forças de ocupação, tendo combatido-as nas ruas, também passou para a oposição, abandonando sua linha de apoio pontual a medidas do governo. E mais: requereu a dissolução do Congresso e que fossem marcadas novas eleições.

Apesar de, com a saída do Iraqya e do bloco de Al-Sadr, o governo ter perdido a maioria, Maliki não pretende deixar o poder, pois tem sob seu controle tanto o Ministério do Interior e, portanto, a Polícia, quanto as Forças Armadas.

A estas alturas, começou a se temer por uma nova guerra civil entre xiitas e sunitas. Um obstáculo seria a incerta participação do bloco de Al Sadr, que conta com centenas, talvez milhares de milicianos armados. Sendo xiitas, dificilmente se aliariam a sunitas contra o também xiita Maliki. Mas também não o apoiariam. Ultimamente integraram seu governo circunstancialmente. Historicamente, Al Sadr foi sempre seu adversário.
Maliki tem a força, mas não tem a maioria congressual e, portanto, a legalidade, a seu lado.

Durante a ocupação, deu-se muito bem com os americanos, foi um prestimoso aliado, mas manteve íntegros seus laços de amizade com o governo também xiita do Irã.

Agora que os americanos partiram, Maliki se voltou para o Irã e pediu sua intervenção para pacificar os ânimos.

Se os iranianos o atenderem poderão surgir focos de atrito com os EUA.
É possível também que nem os bons ofícios de Teerã consigam convencer Al Sadr e os sunitas a não engatilharem as armas.

Uma alternativa seria Maliki desistir e aceitar novas eleições. Mas um homem que tem sido descrito como um novo Saddam Hussein não parece ser propenso a tal ato. Especialmente porque ele tem o exército e a polícia nas mãos, que, nos regimes de força, são quem mais pesa na balança.

Diante de tudo isso, cabe agora perguntar a Leon Panetta, tão seguro de si, e a Obama, que tem dúvidas: Valeu a pena?

 

Luiz Eça é jornalista.

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