Por quem os sinos (não) dobram?

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O Brasil padece sob o impacto do maior acidente aéreo da história do país, com pelo menos 200 vítimas fatais. A morte de todos nós é uma tragédia inevitável. Não tanto para quem parte, sim para quem fica. Se ao nascermos todos riem enquanto choramos, ao morrermos choram eles e nós sorrimos. É a certeza da fé.

 

Porém, doem os laços afetivos que nos ligam àqueles que se foram. Já não mais podemos vê-los, ouvi-los, abraçá-los, partilhar com eles dificuldades e alegrias da vida. Agora restam o silêncio, a lembrança, a saudade doída. A nossa mão se estende no vazio…

 

Há que tratar a morte com solene seriedade. Para quem sofre a perda do outro, não é um fenômeno descartável. Em princípio, nossa sensibilidade deveria reagir toda vez que, por alguém, os sinos dobram. Se considerarmos que apenas no século XX o ser humano eliminou, pela violência, 100 milhões de semelhantes, então se pode entender por que somos insensíveis à morte alheia. Blindamos a sensibilidade para nos preservar. Já é sofrido chorar a perda do parente e do amigo; por que admitir que a morte do estranho fira o nosso coração?

 

A morte, no entanto, exige solene reverência. O rito de passagem precisa, de algum modo, ser celebrado: a identificação do morto, o velório, o enterro ou a incineração, as condolências, a liturgia religiosa, o luto. Caso contrário, somos condenados ao drama das famílias de desaparecidos sob a ditadura – não mudam de endereço na expectativa de que, um dia, eles reapareçam. Pois não há arbítrio capaz de enterrar a esperança de um coração materno ou paterno.

 

Tchekhov, no conto “Angústia”, narra a triste solidão de um cocheiro que, tendo perdido o filho, não encontra nenhum ouvido disposto a escutá-lo. “Logo vai fazer uma semana que o filho morreu – diz o narrador – e ele ainda não conversou direito com ninguém... É preciso conversar com vagar, com calma... É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para buscar a roupa do defunto”.

 

Familiares e amigos dos passageiros e tripulantes do Airbus-A320 sentem-se como o cocheiro de Tchekhov em se tratando de nossas autoridades públicas. O cocheiro encontrou o consolo de, afinal, desabafar com a égua que lhe movia a carroça.

 

Mas nossas autoridades, à exceção do governador paulista e do prefeito da capital, excetuando escalões inferiores, não compareceram aos hotéis em que os familiares se hospedam em São Paulo, nem às celebrações litúrgicas, nem ao enterro de corpos identificados. Ainda que o fizessem, seria um consolo? Jamais. Porém, seria um gesto de grandeza cívica, de quem representa a nação e, em nome dela, sabe irmanar-se na dor, assim como não perde a oportunidade de irmanar-se na alegria.

 

E seria um gesto de que a tragédia do dia 17 de julho não se reduz a um mero acidente que exime os órgãos públicos de qualquer responsabilidade.

 

Quando o poder se coloca do lado das vítimas, ele aprende a mudar seu modo de proceder. E se humaniza.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Treze contos diabólicos e um angélico” (Planeta), entre outros livros.

 

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