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Os indignados e a irrupção contestatória Imprimir E-mail
Escrito por Leo Lince   
Sexta, 23 de Dezembro de 2011
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Um espectro ronda a Europa (e também a Ásia, a África e as Américas): o espectro da rebeldia juvenil contra os podres poderes que dominam o mundo. Da Primavera Árabe aos Indignados da Espanha, da Grécia ao Chile, de Londres a Jerusalém, de Nova York ao Rio de Janeiro, um pouco por toda parte, sopram os ventos de um movimento político cujo alcance e sentido ainda carecem de decifração.

 

Acampamentos tomam conta das praças. Marchas agitam o espaço livre das ruas. Mensagens atravessam com a rapidez do relâmpago o universo sem fronteira das redes virtuais. São “ocupações” - se denominam como tal – que funcionam como uma espécie de mostruário dos conflitos que dilaceram a sociedade contemporânea. Os patentes, os latentes, e os que ainda sequer foram nomeados.

 

O desejo de mudar monta barricadas que, embora pacíficas, incomodam pelo simples fato de existir. Nelas, como nas crateras dos vulcões quase ativos, borbulham as lavas do mal-estar geral. Vindo de toda a parte e não tendo centro em lugar algum, um tipo pouco comum de eletrização política espalha pontos luminosos pelos quatro cantos do mundo.

 

Em 1848, quando Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, cujas primeiras palavras são as que iniciam este artigo, o mundo da época, em quase tudo dessemelhante do atual, vivia também uma eletrização política pouco comum. Não existia, claro, internet, nem televisão, nem rádio. Apenas o impresso tosco e o contato direto veiculavam as ondas do descontentamento. Ainda assim, o turbilhão vertiginoso da contestação atravessou um sem número de países, principalmente na Europa: França, Prússia, Império Austro-Húngaro, Itália, Polônia, Romênia, Bélgica, Dinamarca, entre outros. Registram-se até ressonâncias longínquas na América, na Colômbia e no Brasil, com a Revolução Praieira.

 

O sobressalto foi geral, deixando marcas por toda a parte. O Papa, o Tzar e os imperadores de então ficaram assustadíssimos. Contra o mundo odioso das desigualdades e da opressão, a “Liga dos Justos” anunciava a “eclosão irrefreável do novo”: uma revolução grandiosa que iria mudar os destinos da humanidade. Propagada como a “Primavera dos Povos”, tal revolução não houve. O proletariado, para quem fora dirigido o manifesto de Marx, não se emancipou. Ainda assim, apesar da ausência de qualquer ruptura radical, o ano de 1848 passará para a história como sendo o período marcado pela concentração de acontecimentos que produziu mudanças definitivas nas feições da política subseqüente. Depois dele, nada voltou a ser como antes.

 

O século 20, nos anos 60, também vivenciou os abalos de um pandemônio semelhante. Mais uma vez, outra onda contestatória varreu a geografia do mundo. A Europa inteira, inclusive no Leste do chamado socialismo real, sofreu o seu impacto: França, Itália, Alemanha, Portugal, Espanha, Polônia, Tchecoslováquia. Nas três Américas, com destaque para o México, Estados Unidos, Argentina e Brasil, a juventude ocupou o espaço livre das ruas, carregando Guevara redivivo em canções e camisetas. Na África do Sul, excluída por racismo das Olimpíadas do México, Mandela tocava da prisão o primeiro violino da política. Na Ásia de Ho Chi Min, a guerra do Vietnã polarizava as atenções do mundo, onde o princípio esperança executava prodígios de resistência.

 

O epicentro do abalo geral foi na França. Sociedade sacudida de alto a baixo, economia paralisada por duas semanas. Os grevistas, mais de 10 milhões, aspiravam não apenas melhorias, mas questionavam o despotismo patronal e a autoridade do Estado. As “barricadas do desejo” ocuparam o centro histórico de Paris. Apesar da envergadura gigantesca, o movimento não conseguiu se traduzir em alterações imediatas na política. Além do pânico gerado entre as classes dominantes, o colapso geral das estruturas sociais sequer se constituiu como momentânea “dualidade” de poder. Como no enigma de 1848, a explosão de rebeldia, um imenso poder à margem do Poder, não resultou em ruptura revolucionária. Tudo aconteceu como se os contestadores, ao se dirigirem ao mundo da política, repetissem o crucificado do Gólgota: “nosso reino não é deste mundo”.

 

Henri Lefebvre, um marxista arguto, analisou a rebelião de maio ainda no calor da refrega e sacou conclusões de grande valia para a decifração do enigma. Segundo ele, estavam presentes na França da época todos os ingredientes de uma típica “situação revolucionária”, mas não haveria uma revolução. Por conta de características elencadas no tempo real, o quadro deveria evoluir como uma “situação revolucionária sem revolução”. Os desdobramentos subseqüentes, posteriores ao texto de Lefebvre, indicam que tampouco houve uma contra-revolução, o que valoriza ainda mais o conceito elaborado então pelo autor em pauta. A gigantesca onda contestatória que não desemboca em revolução, tampouco em contra-revolução, foi chamada de “irrupção”.

 

A irrupção espontâneo-contestatória é o movimento que revela o surgimento de novas contradições no solo cristalizado da política. Contradições nascidas por acréscimo, superpostas às antigas que foram atenuadas, dissimuladas, “reduzidas” no interior dos aparatos do poder, mas nunca resolvidas. Quando a oposição política, integrada no “aparato total”, deixa de expressar a dinâmica das demandas sociais; quando os chamados “corpos intermediários” se mostram momentaneamente absorvidos pela rotina que reproduz o “mesmo”, entre a política institucional e a sociedade civil, se abre um imenso vazio.

 

A onda contestatória brota em tais ocasiões para, exatamente, preencher tal vazio. Aspira (suprema pretensão) substituir, recompor, refazer a partir do zero as mediações sociais e políticas através das quais as demandas deveriam se elevar ao nível global. Ao constatar a ineficácia dos partidos e dos “corpos intermediários”, a contestação se volta contra o institucional em geral.  Ela vem do global e se dirige ao global. Não é despolitizada, mas expressa e aspira, quase sempre, outro tipo de política. Os agentes políticos tradicionais, inclusive os que operam por dentro das instituições o projeto revolucionário, trabalham na perspectiva da “acumulação de forças”, sempre de olho na “correlação” que possa interferir nos pontos fortes da política.

 

O sentido mais profundo da onda contestatória é inteiramente outro. É, antes de tudo, o da recusa à integração. Daí provém o tipo “nosso reino não é deste mundo” de seu original radicalismo. Tais movimentos ou são radicais ou não são nada. Nascem das profundezas, sob as raízes da vida social organizada, de costas para o Estado e longe de suas instituições. Para usar uma expressão feliz de Lefebvre, são movimentos localizados “abaixo da base”.

 

A juventude, entendida menos como faixa etária e mais como um tipo determinado de relação com o mundo, é por excelência o agente social da irrupção contestatória. Hoje, além do jovem, que ainda não foi “reduzido” a um papel social no interior do sistema, há uma multidão de “recusados” pelo sistema. Os excluídos, os fulminados, os desempregados, os discriminados, os criminalizados, a multidão dos “sem-alguma coisa essencial”, por conta do modelo excludente, operam na mesma clava. Sem espaço ou canais de expressão, seu descontentamento explode no espontâneo, inimigo mortal de todos os poderes e instituições, pois remete ao imponderável.

 

A irrupção contestatória é um fenômeno urbano, habitado por aspirações grandiosas de reconstruir a sociedade de alto a baixo, através de um exercício democrático radical, constituinte e instituinte, onde todos os conflitos e interesses estariam, mais do que representados, presentes nas ruas e praças, lugares ainda não totalmente controlados.

 

O movimento dos indignados, que espalha ocupações nos quatro cantos do mundo, nasce do vazio criado pela crise institucional latente. Seu possível crescimento pode levar, em alguns casos, ao agravamento de tal crise, pondo em questão a hierarquia, os valores, os poderes carcomidos que sustentam a reprodução ampliada do modelo excludente. Estamos diante, tudo indica, de uma nova manifestação daquilo que foi nomeado por Henri Lefebvre como irrupção contestatória. Como no caso das manifestações anteriores, são movimentos políticos de larga envergadura, mas que se destinam a produzir um tipo original de interferência no processo da luta política.

 

Ao expressar de maneira fragmentária o mal-estar geral, tais movimentos tratam dos conflitos estruturais como manifestações pré-políticas, no estado bruto da fratura exposta. Um grande mostruário da crise, que não hierarquiza nem estabelece variáveis ordenadoras ou vetores de lutas. Por conta de sua própria natureza, são movimentos destituídos de positividade programática. Querem tudo para todos, já. Em tal característica reside, ao mesmo tempo, a grandeza e a pouca eficácia política imediata das chamadas irrupções. São movimentos políticos importantes, buscam interpelar o mundo da política, em alguns casos conseguem revolver camadas profundas da sociedade. Embora expressem uma recusa total aos poderes dominantes, não resultam de imediato em rupturas ou revoluções.

 

Foi assim em 1848. O turbilhão contestatório não resultou em revolução. Mas o empenho da “Liga dos Justos” não foi em vão. Foi assim em 1968. O abalo que assustou o mundo também não resultou em rupturas imediatas. Mas as “barricadas do desejo” deixaram marcas que persistem até hoje. Nos dois casos, o impulso produzido pela onda contestatória desencadeou processos constitutivos de novos “sujeitos” políticos e sociais. Depois de 48, partidos e sindicatos passaram a ocupar um lugar central no ordenamento de todas das lutas e movimentos sociais. Depois de 68, uma miríade de novas organizações, associativas, culturais e da luta por direitos passou a operar como determinantes do fato político. Nada mudou de imediato, mas tudo mudou no processo subseqüente.

 

O movimento dos indignados, contestação serena que transborda dos aparelhos especializados no exercício do poder, emite sinais ainda não decifrados. Para o bem ou para o mal, a morfologia da cena política haverá de sofrer o seu impacto. Os decanos da luta por mudança, os que falam em repolitizar a política, mais do que os que se ocupam da conservação do modelo dominante, devem olhar com atenção para estes sinais. Eles, por certo, não apontam saídas imediatas, mas ostentam elementos reveladores do estágio atual da crise. O slogan posto em curso pelo movimento, “99% contra 1%”, enfatiza a clivagem entre a minoria ensandecida que detém o poder e a maioria esmagadora que o sofre. Escancara, ao mesmo tempo, a necessidade da construção de nexos entre as diferentes culturas críticas do totalitarismo financeiro que coloca em risco o processo civilizatório. Logo, vale atualizar para os dias de hoje a consigna final do famoso manifesto de 1848: “Indignados do mundo, uni-vos!

 

Léo Lince é sociólogo.

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Última atualização em Qui, 22 de Dezembro de 2011
 

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