Os indignados e a irrupção contestatória

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Um espectro ronda a Europa (e também a Ásia, a África e as Américas): o espectro da rebeldia juvenil contra os podres poderes que dominam o mundo. Da Primavera Árabe aos Indignados da Espanha, da Grécia ao Chile, de Londres a Jerusalém, de Nova York ao Rio de Janeiro, um pouco por toda parte, sopram os ventos de um movimento político cujo alcance e sentido ainda carecem de decifração.

 

Acampamentos tomam conta das praças. Marchas agitam o espaço livre das ruas. Mensagens atravessam com a rapidez do relâmpago o universo sem fronteira das redes virtuais. São “ocupações” - se denominam como tal – que funcionam como uma espécie de mostruário dos conflitos que dilaceram a sociedade contemporânea. Os patentes, os latentes, e os que ainda sequer foram nomeados.

 

O desejo de mudar monta barricadas que, embora pacíficas, incomodam pelo simples fato de existir. Nelas, como nas crateras dos vulcões quase ativos, borbulham as lavas do mal-estar geral. Vindo de toda a parte e não tendo centro em lugar algum, um tipo pouco comum de eletrização política espalha pontos luminosos pelos quatro cantos do mundo.

 

Em 1848, quando Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, cujas primeiras palavras são as que iniciam este artigo, o mundo da época, em quase tudo dessemelhante do atual, vivia também uma eletrização política pouco comum. Não existia, claro, internet, nem televisão, nem rádio. Apenas o impresso tosco e o contato direto veiculavam as ondas do descontentamento. Ainda assim, o turbilhão vertiginoso da contestação atravessou um sem número de países, principalmente na Europa: França, Prússia, Império Austro-Húngaro, Itália, Polônia, Romênia, Bélgica, Dinamarca, entre outros. Registram-se até ressonâncias longínquas na América, na Colômbia e no Brasil, com a Revolução Praieira.

 

O sobressalto foi geral, deixando marcas por toda a parte. O Papa, o Tzar e os imperadores de então ficaram assustadíssimos. Contra o mundo odioso das desigualdades e da opressão, a “Liga dos Justos” anunciava a “eclosão irrefreável do novo”: uma revolução grandiosa que iria mudar os destinos da humanidade. Propagada como a “Primavera dos Povos”, tal revolução não houve. O proletariado, para quem fora dirigido o manifesto de Marx, não se emancipou. Ainda assim, apesar da ausência de qualquer ruptura radical, o ano de 1848 passará para a história como sendo o período marcado pela concentração de acontecimentos que produziu mudanças definitivas nas feições da política subseqüente. Depois dele, nada voltou a ser como antes.

 

O século 20, nos anos 60, também vivenciou os abalos de um pandemônio semelhante. Mais uma vez, outra onda contestatória varreu a geografia do mundo. A Europa inteira, inclusive no Leste do chamado socialismo real, sofreu o seu impacto: França, Itália, Alemanha, Portugal, Espanha, Polônia, Tchecoslováquia. Nas três Américas, com destaque para o México, Estados Unidos, Argentina e Brasil, a juventude ocupou o espaço livre das ruas, carregando Guevara redivivo em canções e camisetas. Na África do Sul, excluída por racismo das Olimpíadas do México, Mandela tocava da prisão o primeiro violino da política. Na Ásia de Ho Chi Min, a guerra do Vietnã polarizava as atenções do mundo, onde o princípio esperança executava prodígios de resistência.

 

O epicentro do abalo geral foi na França. Sociedade sacudida de alto a baixo, economia paralisada por duas semanas. Os grevistas, mais de 10 milhões, aspiravam não apenas melhorias, mas questionavam o despotismo patronal e a autoridade do Estado. As “barricadas do desejo” ocuparam o centro histórico de Paris. Apesar da envergadura gigantesca, o movimento não conseguiu se traduzir em alterações imediatas na política. Além do pânico gerado entre as classes dominantes, o colapso geral das estruturas sociais sequer se constituiu como momentânea “dualidade” de poder. Como no enigma de 1848, a explosão de rebeldia, um imenso poder à margem do Poder, não resultou em ruptura revolucionária. Tudo aconteceu como se os contestadores, ao se dirigirem ao mundo da política, repetissem o crucificado do Gólgota: “nosso reino não é deste mundo”.

 

Henri Lefebvre, um marxista arguto, analisou a rebelião de maio ainda no calor da refrega e sacou conclusões de grande valia para a decifração do enigma. Segundo ele, estavam presentes na França da época todos os ingredientes de uma típica “situação revolucionária”, mas não haveria uma revolução. Por conta de características elencadas no tempo real, o quadro deveria evoluir como uma “situação revolucionária sem revolução”. Os desdobramentos subseqüentes, posteriores ao texto de Lefebvre, indicam que tampouco houve uma contra-revolução, o que valoriza ainda mais o conceito elaborado então pelo autor em pauta. A gigantesca onda contestatória que não desemboca em revolução, tampouco em contra-revolução, foi chamada de “irrupção”.

 

A irrupção espontâneo-contestatória é o movimento que revela o surgimento de novas contradições no solo cristalizado da política. Contradições nascidas por acréscimo, superpostas às antigas que foram atenuadas, dissimuladas, “reduzidas” no interior dos aparatos do poder, mas nunca resolvidas. Quando a oposição política, integrada no “aparato total”, deixa de expressar a dinâmica das demandas sociais; quando os chamados “corpos intermediários” se mostram momentaneamente absorvidos pela rotina que reproduz o “mesmo”, entre a política institucional e a sociedade civil, se abre um imenso vazio.

 

A onda contestatória brota em tais ocasiões para, exatamente, preencher tal vazio. Aspira (suprema pretensão) substituir, recompor, refazer a partir do zero as mediações sociais e políticas através das quais as demandas deveriam se elevar ao nível global. Ao constatar a ineficácia dos partidos e dos “corpos intermediários”, a contestação se volta contra o institucional em geral.  Ela vem do global e se dirige ao global. Não é despolitizada, mas expressa e aspira, quase sempre, outro tipo de política. Os agentes políticos tradicionais, inclusive os que operam por dentro das instituições o projeto revolucionário, trabalham na perspectiva da “acumulação de forças”, sempre de olho na “correlação” que possa interferir nos pontos fortes da política.

 

O sentido mais profundo da onda contestatória é inteiramente outro. É, antes de tudo, o da recusa à integração. Daí provém o tipo “nosso reino não é deste mundo” de seu original radicalismo. Tais movimentos ou são radicais ou não são nada. Nascem das profundezas, sob as raízes da vida social organizada, de costas para o Estado e longe de suas instituições. Para usar uma expressão feliz de Lefebvre, são movimentos localizados “abaixo da base”.

 

A juventude, entendida menos como faixa etária e mais como um tipo determinado de relação com o mundo, é por excelência o agente social da irrupção contestatória. Hoje, além do jovem, que ainda não foi “reduzido” a um papel social no interior do sistema, há uma multidão de “recusados” pelo sistema. Os excluídos, os fulminados, os desempregados, os discriminados, os criminalizados, a multidão dos “sem-alguma coisa essencial”, por conta do modelo excludente, operam na mesma clava. Sem espaço ou canais de expressão, seu descontentamento explode no espontâneo, inimigo mortal de todos os poderes e instituições, pois remete ao imponderável.

 

A irrupção contestatória é um fenômeno urbano, habitado por aspirações grandiosas de reconstruir a sociedade de alto a baixo, através de um exercício democrático radical, constituinte e instituinte, onde todos os conflitos e interesses estariam, mais do que representados, presentes nas ruas e praças, lugares ainda não totalmente controlados.

 

O movimento dos indignados, que espalha ocupações nos quatro cantos do mundo, nasce do vazio criado pela crise institucional latente. Seu possível crescimento pode levar, em alguns casos, ao agravamento de tal crise, pondo em questão a hierarquia, os valores, os poderes carcomidos que sustentam a reprodução ampliada do modelo excludente. Estamos diante, tudo indica, de uma nova manifestação daquilo que foi nomeado por Henri Lefebvre como irrupção contestatória. Como no caso das manifestações anteriores, são movimentos políticos de larga envergadura, mas que se destinam a produzir um tipo original de interferência no processo da luta política.

 

Ao expressar de maneira fragmentária o mal-estar geral, tais movimentos tratam dos conflitos estruturais como manifestações pré-políticas, no estado bruto da fratura exposta. Um grande mostruário da crise, que não hierarquiza nem estabelece variáveis ordenadoras ou vetores de lutas. Por conta de sua própria natureza, são movimentos destituídos de positividade programática. Querem tudo para todos, já. Em tal característica reside, ao mesmo tempo, a grandeza e a pouca eficácia política imediata das chamadas irrupções. São movimentos políticos importantes, buscam interpelar o mundo da política, em alguns casos conseguem revolver camadas profundas da sociedade. Embora expressem uma recusa total aos poderes dominantes, não resultam de imediato em rupturas ou revoluções.

 

Foi assim em 1848. O turbilhão contestatório não resultou em revolução. Mas o empenho da “Liga dos Justos” não foi em vão. Foi assim em 1968. O abalo que assustou o mundo também não resultou em rupturas imediatas. Mas as “barricadas do desejo” deixaram marcas que persistem até hoje. Nos dois casos, o impulso produzido pela onda contestatória desencadeou processos constitutivos de novos “sujeitos” políticos e sociais. Depois de 48, partidos e sindicatos passaram a ocupar um lugar central no ordenamento de todas das lutas e movimentos sociais. Depois de 68, uma miríade de novas organizações, associativas, culturais e da luta por direitos passou a operar como determinantes do fato político. Nada mudou de imediato, mas tudo mudou no processo subseqüente.

 

O movimento dos indignados, contestação serena que transborda dos aparelhos especializados no exercício do poder, emite sinais ainda não decifrados. Para o bem ou para o mal, a morfologia da cena política haverá de sofrer o seu impacto. Os decanos da luta por mudança, os que falam em repolitizar a política, mais do que os que se ocupam da conservação do modelo dominante, devem olhar com atenção para estes sinais. Eles, por certo, não apontam saídas imediatas, mas ostentam elementos reveladores do estágio atual da crise. O slogan posto em curso pelo movimento, “99% contra 1%”, enfatiza a clivagem entre a minoria ensandecida que detém o poder e a maioria esmagadora que o sofre. Escancara, ao mesmo tempo, a necessidade da construção de nexos entre as diferentes culturas críticas do totalitarismo financeiro que coloca em risco o processo civilizatório. Logo, vale atualizar para os dias de hoje a consigna final do famoso manifesto de 1848: “Indignados do mundo, uni-vos!

 

Léo Lince é sociólogo.

Comentários   

0 #5 Revolução?Raymundo Araujo Filh 10-01-2012 11:36
Que me desculpe a Selma, mas atualmente não há Revolução alguma à vista. Nem mesmo o seu germe. No máximo aquela pequena e efêmera partícula que nunca morre mas, definitivamente, não constitui-se de uma Revolução, apenas uma centelha de intencionalidade, em muitos poucos corações.

Quero lembrar a todos que, enquanto o ufanismo grassava sem graça em torno de Jango, nos EUA e por aqui gestava-se o golpe em 64. Já escrevi aqui que o comunista Octávio Brandão, à custa do deu isolamento foi o único que escreveu alertas sobre isso, em 1961, 62 e 63. Aprender com a História é algo imprescindível.

É este o alerta que eu gostaria de fazer ao Leo Lince. As interpretações ufanistas (e por isso deslocadas do tempo e do espaço)sobre o que nós escrevemos, sãom parte de nosso texto, e não "interpretação livre do leitor".

Ufanismos apenas nos fazem, a nós mesmos, sentirmo-nos melhor. Só isso. É uma forma de passar o tempo. Há quem goste.
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0 #4 RE: Os indignados e a irrupção contestatóriaGilberto Maringoni 07-01-2012 01:36
Brilhante, como sempre, o texto do Léo faz uma varredura histórica, traçando nexos e pontos de contatos entre os indignados de diversas épocas. Parabéns!
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0 #3 Indignados em SínteseSelma Paiva 05-01-2012 21:58
Maravilhoso texto sobre esse movimento tanto quanto que venho acompanhando nesses meses!
Amei cada palavra tradutora dos meus sentimentos e agradeço a todas elas!
Por essas e outras é que é certo que nós estamos vivendo a REVOLUÇÃO!
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0 #2 RE: Os indignados e a irrupção contestatóriaclaudio campos 04-01-2012 20:50
PROF. LÉO LINCE ''Somos 99% controlados doentiamente por 1%(pag.20)..criaremos uma força imbativel,porque somos 99% da humanidade(p.40)'' A humanidade é constituida por 99% de humilhados e ofendidos e por 1% de arrogantes e inimigos.Por que deixar então essa diminuta minoria nos esmagar??(pg.137)...ESSA INFORMAÇÃO está no livro (www.stop.org.br..cientista brasileiro NORBERTO KEPPE...A LIBERTAÇÃO DOS POVOS..
O GRANDE PROBLEMA É ACORDAR O POVO PARA ESSA REALIDADE,,,VIVA O BRASIL
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0 #1 Maio de 68Raymundo Araujo Filh 24-12-2011 12:20
O otimnismo de Leo Lince não é compartilhado por mim, no que diz respeito às possibilidades disseminatórias destes atuais Movimentos da Europa e Wall Street, e ainda incluo as do Mundo Árabe. Ao menos para o que concorra para as verdadeiras mudanças que o mundo necessita.

Se levarmos em conta o que se sucedeu no mundo entre 1966 e 1972-73, mais ou menos, e no mundo todo, estas mobilizações parecem coisas pueris, e suas reivindicações prá lá de insuficientes e despolitizadas.

É uma indignação difusa e, por isso, sem adesão da massa.

Outro dia os Indignados estadunidenses foram para a frente do cais porto por lá, e os estivadores foram mandados para casa....e foram!Em vez de se juntarem aos manifestantes.

Por estes países, a sociedade majoritária continua de boca aberta, "esperando o trem", haja visto os recentes resultados eleitorais na Europa e o que poderá acontecer nos EUA: a Águia Obama, ou os Falcões. Muito pouco para chamarmos de mudança, e sem um grande movimento ao Voto Nulo, não por gravidade, mas ideológico.

No mundo Árabe, o que acontece majoritariamente, mas que a mídia corporativa não anuncia com destaque é a vitória da rapinagem econômica do imperialismo, em troca de convulsões sociais, onde os que são a favor da ocidentalização cultural e política de alguns países de lá (pois os tradicionais aliados dos EUA continuam na Santa paz das ruas), com a desculpa de combater o conservadorismo, irão transformar os países deles em uma Boolmingdale Árabe. O Mac Donald vai produzir Hamburguer de carne de camelos....e todos ficarão mais pobres e.....felizes!(tem gente que acredita, e outros fingem, que ser rico é enfadonho, que o bom é ser pobre!).

O máximo que estes movimentos poderiam possibilitar, se a esquerda mundial tivesse um mínimo de juízo, era uma composição dentro dos preceitos da não colaboração de classes, não participação da política institucional nos Partidos, Parlamentos ou governos executivos, SEJAM DE QUE ESPÉCIE FOR.

Fora isso, que seria o novo, teremos mais do mesmo, mas com outra roupagem.
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