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Bolívia: um debate democrático e plural Imprimir E-mail
Escrito por Atilio Borón   
Sábado, 17 de Dezembro de 2011
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No dia 14, o presidente Evo Morales abriu em Cochabamba o "Primeiro Encontro Plurinacional para Aprofundar a Mudança", que está transformando a sociedade boliviana.

 

O que a imprensa denominou de "Cúpula Social" reuniu mais de mil delegados de diversos movimentos sociais de todas as regiões do país que foram a um conclave cuja primeira fase durará três dias e nos quais dez comissões de trabalho examinarão temas e desafios a serem enfrentados na atual conjuntura.

 

O vice-presidente Alvaro García Linera, ministros e altos funcionários do governo nacional estiveram presentes nessas comissões, contribuindo com informações e, sobretudo, escutando as demandas, as colocações e propostas que deram a conhecer os movimentos. Estas primeiras conclusões serão apresentadas e discutidas novamente numa série de reuniões que acontecerão nas próximas semanas nos diferentes departamentos (províncias) da Bolívia em preparação a um segundo e definitivo período de sessões entre 10 e 12 de janeiro, no qual se definirão as principais diretivas para a agenda de transformações dos próximos anos.

 

Em seu discurso inaugural, Evo reafirmou a importância de uma discussão democrática e plural para consolidar o processo de mudanças iniciadas desde a sua chegada ao Palácio Quemado, em 2006. Diferentemente da maioria das intervenções de outros presidentes ou chefes de Estado em qualquer parte do mundo, Evo começou a fala destacando o que ele mesmo qualificou como erros cometidos pelo seu governo. Não começou falando dos acertos, mas sim do problema da falta de segurança, dos problemas de emprego, da corrupção presente em certos escalões inferiores da burocracia, da necessidade de melhorar o desempenho econômico.

 

Apenas depois se dedicou a enumerar os muitos êxitos do seu governo, com indicadores contundentes: quase dois milhões de crianças beneficiadas pelo bônus Juancito Pinto; oitocentos mil idosos recebendo uma importante ajuda monetária; o avanço nos programas de saúde e na educação pública; o fortalecimento das finanças do Estado graças ao cumprimento do mandato popular que exigia a nacionalização dos hidrocarbonetos; a duplicação do salário mínimo e a rápida transformação que fez com que a Bolívia deixasse de ser um Estado colonial mendigo (são suas as palavras) que vivia de empréstimos para pagar os seus servidores públicos, para se converter em um Estado plurinacional que, pela primeira vez na história, acumula reservas no valor de 12 bilhões de dólares, uma cifra impactante quando se tem em conta o tamanho da economia boliviana.

 

É claro que também falou de política: disse em um trecho do seu discurso que antes havia grupos e organizações que se mobilizavam para que os governos fizessem obras; agora, há minorias muito barulhentas que "se mobilizam para que o governo não as faça. Mas devemos fazê-las, respeitando a Mãe Terra: do contrário como poderemos viver sem indústrias, sem petróleo, sem gás, sem os minérios?".

 

Em uma época em que um organismo como o Banco Central Europeu tira e põe governantes na

Grécia, Itália e Portugal, Evo enfrenta o desafio de aprofundar a democracia, facilitando o diálogo horizontal entre governantes e governados, fazendo verdade a consigna zapatista de "mandar obedecendo". Esta tendência saudável para se fundir com o seu povo, para tonificar-se e ouvir as suas críticas e propostas é uma das principais razões de sua popularidade.

 

A direita não é uma opção de governo e a sua única chance é o golpe de Estado; a esquerda hiper-radicalizada, de sua parte, mostra um descompasso entre a estranha repercussão que a sua crítica feroz a Evo encontra na mídia hegemônica e a sua escassa representatividade nas massas. Pelo visto até agora, Evo continua sendo imbatível no terreno eleitoral, e se aprofundar sua agenda de mudanças será ainda mais.

 

Leia mais:

Brasil, via BNDES e Itamaraty, reforça caráter regressivo da integração latino-americana

 

 

Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires e ex-secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

Tradução: Cepat (Centro de Pesquisas e Apoio aos Trabalhadores).

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