Zara, marca da escravidão. “E daí?”


 

A grife espanhola Zara virou marca da escravidão em nosso país, após suas oficinas terceirizadas serem flagradas com o uso e abuso de trabalhadores em condições desumanas, submetidos a práticas coercitivas que remontam aos tempos do chicote e da senzala.

Surpreendida por equipes de fiscalização trabalhista, a multinacional aposta na impunidade, recusando-se até mesmo a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) no dia 30 de novembro. Aliás, compareceu na reunião após ser duplamente intimada, já que havia faltado à anterior.

Conforme o TAC, a Zara deveria investir R$ 20 milhões em ações de combate ao trabalho degradante, reduzir a absurda subcontratação dentro da cadeia produtiva e se responsabilizar pelas condições de trabalho nas confecções contratadas. Mas, segundo o diretor de “responsabilidade social” do grupo controlador da Zara, Félix Poza, não há nada que a multinacional possa fazer, pois as empresas picaretas que contrata para terceirizar o arrocho e a precarização, são “autônomas” e “apenas” prestam serviço sujo para esta e para outras marcas. Maior confissão de fé na impunidade, impossível, o que estampa que a tal “responsabilidade social” é mais uma das peças de ficção publicitária no guarda roupa de imoralidades da grife.

Vale lembrar que nos termos propostos pelo Ministério Público do Trabalho ainda estava definido que a Zara estaria proibida de contratar mão de obra de operários estrangeiros em situação irregular e que teria a obrigação do cumprimento integral da legislação trabalhista brasileira. Mesmo para o óbvio, a resposta foi negativa, uma vez mais.

O fato é que as equipes de fiscalização encontraram 51 pessoas (46 bolivianos) trabalhando para a Zara em condições análogas à escravidão no mês de junho na cidade de Americana, no interior paulista. Como a situação era a mais degradante possível, vamos resumir o escárnio a uma jornada média de 14 horas por dia, na qual recebiam o equivalente a R$ 0,20 por peça de roupa produzida para a grife. Nem bem havia se passado um mês, mais 14 bolivianos – todos trabalhando para a mesma Zara - foram encontrados em condições semelhantes, no centro da capital paulista.

Não é possível deixar esta multinacional se comportando como se estivesse na casa da mãe Joana. A postura mais do que negligente, de afronta à legislação social e trabalhista do país, bem como o comportamento irresponsável e criminoso em relação ao Estado e aos trabalhadores, merece punição. Exemplar e pra já. Do contrário, continuaremos tendo senhores como Félix Poza que, após sapatearam sobre a própria Constituição, dizem: “E daí?”

O governo e a Justiça com a palavra.

 

Cida Trajano é presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Vestuário.

Retirado do site da CUT

 

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