Afinal, quem é nosso inimigo?

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Tenho um medo que me pela da geração que se acha treinada em ler nas entrelinhas e pensa poder decifrar as intenções dos discursos oficiais. O mesmo em relação à geração de nacionalistas, como muitos dos militares do regime ditatorial, que confundiram os inimigos e tudo fizeram para destruir justamente aqueles que lutavam por um Brasil independente e soberano.

 

Percebo um crescente número de nacionalistas desse tipo preocupados com a ausência de compras chinesas de produtos industriais brasileiros. Eles acusam a China de ter transformado o Brasil em simples exportador de alimentos e matérias-primas. Eles também reclamam que, em passado recente, exportamos geradores para Três Gargantas, e agora estamos importando geradores da China. Afirmam que, ingenuamente, aceitamos instalar uma filial da Embraer na China, mas que os chineses clonaram o avião brasileiro e hoje competem com ele no mercado mundial.

 

Supondo que tudo isso seja verdadeiro, o que nos impediu de ser mais rápidos do que os chineses, industrializando o Brasil e elevando a competitividade de nossos produtos? Afinal, até os anos 1970, a indústria brasileira era mais adiantada e competitiva do que a chinesa, e de lá para cá, se tornou muito mais atrasada e menos competitiva. Culpa da China, ou das classes dominantes brasileiras e de seu espírito de colonizado?

 

O pior é que esses nacionalistas, numa leitura simplista, consideram que a China está em situação pior que o Brasil, não no passado, mas atualmente. Por que? Porque, segundo eles, mais de 80% da população brasileira está em áreas urbanas, 50% em metropolitanas, e nem chegamos aos 200 milhões de habitantes, enquanto menos de 50% da população chinesa, de 1,36 bilhão de habitantes, estariam nas áreas urbanas.

 

Conclusão: a renda rural média chinesa, sendo um terço da renda urbana média, tornaria inexorável a transferência de mais de 400 milhões de pessoas para as cidades chinesas, nos próximos 20 anos. Em conseqüência, a "favelização" das áreas urbanas se tornaria insuportável, tornando impensável o futuro demográfico chinês.

 

Essa análise é típica de quem não conhece a China, nem distingue a diferença entre os conceitos chinês e brasileiro de área urbana e área rural. No Brasil, vilas de 1500 habitantes são consideradas urbanas.

 

Na China, só são classificadas como urbanas aglomerações acima de 100 mil habitantes. Se considerarmos que povoados na China podem ter mais de 50 mil habitantes, enquanto aldeias podem chegar até esse número, é preciso ter cuidado para não falar bobagens a respeito.

 

Se tomarmos a população chinesa pelo conceito brasileiro de área urbana, incluindo aí as aglomerações acima de 20 mil habitantes, talvez a China seja mais urbanizada do que o Brasil. Mesmo porque, ao contrário do Brasil, a industrialização chinesa foi realizada com acentuada dispersão e, desde os anos 1960, incluiu aquilo que mais tarde foi chamado de indústrias de cantões e povoados, ou indústrias rurais.

 

Ou seja, a China criou e desenvolveu diferentes tipos de indústrias nessas áreas, que hoje envolvem mais de 22 milhões de unidades e 140 milhões de trabalhadores. Em outras palavras, a China vem, há muito, criando condições para evitar a favelização de suas cidades. O que não significa que ela não tenha problemas de desequilíbrios regionais, tanto econômicos, quanto de renda.

 

Resolver problemas herdados do passado feudal e semicolonial, numa população de mais de um bilhão de pessoas, não é missão que possa ser completada em 60 anos. As políticas de filho único, que não estão sendo relaxadas, como pensam alguns desavisados; de proteção dos lençóis freáticos; de desenvolvimento científico da agricultura, para garantir a segurança alimentar; de reflorestamento e proteção ambiental; e várias outras, fazem parte de um conjunto de estratégias que permitiu à China não apenas desenvolver sua economia, mas também retirar da linha da pobreza e elevar ao nível de classe média, nos últimos 30 anos, mais de 800 milhões de pessoas.

 

O mesmo tipo de bobagem que deveria ser evitado é comparar, num critério linear, os salários no Brasil e na China. Afirmar que o salário médio brasileiro é muito baixo, o que é verdade, mas que um brasileiro pobre ganha 12 vezes mais que o chinês pobre, significa desconhecer a diferença entre salário nominal e salário real, e as diferenças de poder de compra entre ambos. Os salários nominais chineses são baixos em relação aos padrões internacionais, mas seu poder de compra interno é elevado. Cem dólares na China compram muito mais produtos do que no Brasil.

 

Apesar desses deslizes na apreciação da situação interna da China, porém, o que mais espanta na análise de vários de nossos nacionalistas é sua visão de não diferir um til sequer do discurso norte-americano e europeu sobre o que chamam de projeto geopolítico e a geoeconômico chinês. Tal projeto estaria transformando a África, a Ásia e a América Latina em simples fornecedores de alimentos e matérias-primas. Em busca de minério de ferro e petróleo, a China teria “ocupado” economicamente o Gabão e Angola, e se expandido pelo extremo sul da América Latina, ameaçando transformar o Mercosul em pura retórica.

 

A China estaria, assim, repetindo a estratégia do capitalismo do final do século 19: tornar a periferia mundial em fonte de matérias-primas e alimentos. Sua proposta seria neocolonizadora, um risco de "conto do vigário". Os que se contrapõem a essa visão sobre a China seriam vendilhões da pátria, dispostos a entregar energia e alimentos para o neo-sonho imperial chinês. Em resumo, a China amarela passou a ser o inimigo principal para esses nacionalistas.

 

Isso embora todas as evidências apontem que são os Estados Unidos o pólo do sistema capitalista mundial e o inimigo principal de todos os povos. Embora sua hegemonia pareça estar em declínio, é o império norte-americano que ameaça todos os demais países com guerras. As classes dominantes da Big Apple supõem que as guerras podem não só manter sua economia em funcionamento, como evitar o colapso da indústria bélica e de sua cadeia produtiva, reduzir o número de desempregados e sustar a bancarrota de estados americanos, cuja receita depende da produção de armas.

 

São os Estados Unidos, chafurdados em dívidas, que dependem, para sua sobrevivência, das riquezas dos países mais pobres. Para sustentar suas políticas e práticas de déficits fiscais, insuficiência de recursos para infra-estrutura, saúde e programas sociais, e para a manutenção de sua máquina militar espalhada pelo mundo, o império norte-americano ingressou no mesmo tipo de política que levou o Império Romano a espalhar conflitos por toda a Europa e Oriente Médio, culpando os bárbaros da época por seu declínio.

 

É pena que alguns nacionalistas brasileiros não enxerguem essa realidade e tentem tirar o império norte-americano de foco, elevando os bárbaros amarelos a inimigos principais.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #3 Mais rigor, para convencerRodrigo Choinski 12-12-2011 00:50
Acho que faltam a alguns marxistas serem mais pesquisadores, mais metodológicos em suas análises.

Concordo que a caracterização da China provavelmente esteja extremamente distorcida, agora como combater isso?

Lenin diria pelo convencimento. Marx pelo estudo rigoroso e demonstração científica.

Contudo, ainda que esteja tudo correto no artigo apresentado por Pomar, salta aos olhos o seu caráter especulativo e abstrato. Afirmar que 100 dólares compra mais na China que no Brasil é jogar palavras ao vento. Compra quanto a mais? Quais as provas empíricas disto (já que estamos falando de convencimento - Lenin)? Essas lacunas tornam os argumentos vazios, meras abstrações, pois fica um diz-que-me-diz, aí vem outro autor e diz o contrário, e fica em suspenso a discussão.

E este é só um exemplo. Se queremos convencer a maioria da população, e trata-se disto, precisamos de um apoio massivo para promover as transformações, precisamos evitar a conversa abstrata, especulativa e, principalmente, lacunar.
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0 #2 Afinal,quem é nosso inimigo?valéria maurício 09-12-2011 00:21
Infelizmente,eu concordo com você.
A economia chinesa,está crescendo muito,mas,em relação ao número de habitantes e as condições de vida da maioria do povo chinês, terá que crescer ainda mais para ser um pais desenvolvido fisicamente e culturalmente,sem perder as tradições vindas dos antepassados e os apegos religiosos, filosóficos e advérbios passados de pais para filhos,há muitos anos.Apesar de ser um povo copista(copia e imita idéias alheias),a China como qualquer outro país em desenvolvimento,tem o direito de melhorar e tornar a vida dos chineses melhor,livre e mais humana.Nossos inimigos são;os grandes capitalistas;Estados Unidos e Europa que,estão acostumados a levar vantagem e impedem o desenvolvimento de outros países.
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0 #1 Pomar no atacado, Raymundinho no varejoRaymundo Araujo Filh 08-12-2011 16:46
CComo eu disse, não ando com tempo para comentar uma a um os artigos do WP, como me impus como missão política, por considerá-lo um dos maiores malabaristas e ilusionistas da política do Lullo-Petismo-DiLLmista-PMDBis ta e que tais.

Assim, este comentário corresponde aos dois últimos artigos de WP publicados aqui no Correio.

Ao ler os dois artigos, passei a esperar, ao menos, que WP tenha tentado contestar comentários e artigos meus recentes aqui no Correio, tantas são as coincidências nas contra argumentações, algumas falaciosas, outras sob grave distorção cognitiva do que escrevi.

A primeira delas consta no artigo "Para onde vai o capitalismo”, onde WP cola sem dar os créditos devidos algumas afirmações feitas em meu artigo “Crisis? What Crisis?, que gerou um bom debate aqui no Correio, na medida do possível nestes tempos de preguiça intelectual tão aparente em nosso meio político de esquerda, talvez por vergonha de uns, abandono da luta por outros e anestesia geral bem aplicada.

Esta afirmação consiste na “descoberta” de WP que as matrizes produtivas são transferidas do primeiro mundo para o terceiro (WP nos chama de estados nacionais, em um eufemismo ridículo e ultrapassado, senão conscientemente enganador).

Mas, WP resiste em admitir algo que é patente, ainda mais hoje, com o resultado do Pacto (anti) Social dos que se dizem representantes dos trabalhadores europeus (Pacto Trabalhista Inglês e de Moncloa espanhol, entre eles). Resiste em perceber que a grande burguesia transacional também leu e estudou Marx (infelizmente bem melhor que muitos dos que se dizem marxistas), no intuito de arranjarem antídotos para o que Marx vislumbrou e que a esquerda tornou tarefa precípua para a REVOLUÇÃO MUNDIAL, qual seja “a Revolução Proletária só terá perspectivas se for feita nos países mais industrializados e centrais do capitalismo”. Não foi outro o motivo desta visão colonizada de WP, o que causou o atrelamento do proletariado brasileiro aos interesses do proletariado europeu e estadunidense, na doce ilusão que estes seriam solidários com o terceiro mundo.

Não foram! Como afirmei no artigo, para desespero das vanguardas colonizadas à européia, o que vimos do pós guerra para cá, nada mais foi do que um processo de dócil aliciamento das forças proletárias da Europa com o tal Bem Estar Social, a custas da iniquidade social e salarial de seus pares do terceiro mundo, colocando por terra o que muitos entenderam como uma lei Inexorável, e não apenas como um chamamento, o tal “Operários do Mundo, Uni-vos”. Alguns se uniram mais que os outros...

Assim, os colonizados como WP, que raciocinam com bases atrasadas e estáticas de sua cultura marxista mecanicista, portanto não dialética, sem propostas senão a adesão ao capitalismo transacional (para que as contradições capitalistas se estabeleçam entre nós...), jogam para uma missão adequada a capatazes do capital, e não de revolucionários, que é de dizer aos trabalhadores brasileiros que se comportem e aguardem a Revolução na Europa e nos EUA-Canadá.

Para mim está claro que a nossa tarefa hoje é estimular a resistência autóctone de nossa gente a este capital transacional monopolizado por não mais do que 300 famílias e seus agentes políticos, seja que aparência tenham (de sarney a WP, passando por FHC e sua gente), sem esquecermos de avisar aos operários e trabalhadores da Europa e da ocupação de Wall Street que, chorar pelo corte da mesada dada às nossas custas e durante décadas, sem combater o capitalismo, apenas os irá expor a uma solução de migalhas que serão disputadas a tapa pelos “companheiros do norte”, que não lutam pelos “homeless” nos EUA e nem pelos imigrantes e seus descendentes, muito ao contrário.

Sobre este segundo artigo “Quem são os nossos inimigos?”, no que se refere à China, querer nos imputar que identificamos nos chineses e não nas nossas classes dominantes, os nossos principais inimigos é apenas, a meu ver, mais um golpe político destes que estamos acostumados. O que WP omite desavergonhadamente que, pior que nossas elites entreguistas são os seus companheiros de fortúnio político, aboletados nestes governos francamente entreguistas de Lulla e DiLLma, que se fazem financiar pela burguesia “enquanto a Revolução do primeiro mundo- a definitiva- não vem”.

Tô véio para estas histórias da carochinha. Mas gagá não fiquei.
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