Estados Unidos: atualizar a política externa

 

O final de 2011 cimenta um ano negativo para os países norte-atlânticos, especialmente para os europeus, incapazes de superar os adversos efeitos de uma crise econômica originada, por sua vez, no outro lado do oceano em 2008.

 

No Velho Continente, Bruxelas, sede administrativa da União Européia, observa de maneira desalentadora e amarga o tombamento econômico, mesmo temporário, dos seus países-membros. De forma inexorável, a tribulação avança: de início, ela atingiu os pequenos como Portugal, Irlanda ou Grécia; em seguida, os médios como Itália e Espanha; agora, aguarda-se o sol-pôr ao menos de um dos dois grandes. No momento, a atenção volta-se para a França.

 

Nos Estados Unidos, a situação é menos ruinosa, porém não há ainda a perspectiva de superação do problema econômico no curto prazo. Agrava o problema norte-americano a condução inepta da política externa, por causa dos gastos desnecessários. A maior parte deles se relaciona com a sustentação indevida de dois conflitos de porte médio, nos quais há muito tempo a possibilidade de vitória não é mais seriamente contemplada.

 

Um encaminhamento proposto para recuperar a economia estadunidense é a diminuição dos gastos governamentais. Isso não é novo, mas o segmento a sofrer um eventual corte, sim: o militar, normalmente preservado das disputas bipartidárias no Congresso.

 

Uma forma de avaliar o fracassso da presença norte-americana na área médio-oriental é a inexistência de vínculos políticos com a ampla movimentação renovadora naquela região - a incorretamente chamada primavera árabe; na realidade, ela deveria ser alcunhada de muçulmana, haja vista sua abrangência geográfica e sua composição de povos.

 

Não obstante as reivindicações dos participantes por maior abertura, ou seja, por democratização, aproximarem-se da tradicional retórica diplomática de Washington, não se solicitou por eles o apoio do Departamento de Estado ou mesmo da Casa Branca para auxiliar na substituição dos autodeterminados governantes vitalícios. A posição do Partido Democrata de conectar o início da insatisfação popular na África do Norte e no Oriente Médio com um discurso do início de junho de 2009 do presidente Barack Obama no Egito não tem amparo.

 

Na realidade, os Estados Unidos somente intervêm a favor da troca de dirigentes, em decorrência da excessiva corrosão administrativa, porém não de regimes ou de práticas político-econômicas, conquanto ineficientes ou corruptos.

 

Com isso, desponta à sociedade americana a seguinte inquietação: diante de tanto desgaste nos últimos anos, seja castrense, seja diplomático, não seria o momento de alterar lá o norte da política externa, uma vez que não há modernidade na prática, aferroada ainda ao período da Guerra Fria?

 

A aspiração de obter de maneira simultânea recursos naturais contínuos e baratos, através do belicismo para viabilizar às corporações multinacionais o acesso a eles, e submissão política, independentemente do tipo de governo, parece esgotar-se e não há nenhuma proposição de compor outro binômio, que estivesse mais próximo dos anseios dos povos daquela região.

 

O duradouro apoio às ditaduras locais asfixia as tentativas internas de democratizar e fornece o estímulo, ainda que involuntário, para o robustecimento do extremismo político. No Iraque ou no Afeganistão, os integristas responsabilizam-se por dezenas de ataques por mês às forças armadas americanas ou à polícia. Não há previsão de mudança de tal quadro, se Washington mantiver a postura cotidiana.

 

O anúncio de retirada das tropas americanas do Iraque para o início de 2012 é um passo importante, após duas décadas de ataques. Todavia, a saída poderá ter seu valor reduzido, caso haja a manutenção de outro tipo de ação militar: a de bombardear locais suspeitos de terrorismo por meio de aviões não tripulados, sem, portanto, preocupar-se com a violação do espaço aéreo e, por conseguinte, da soberania, como ocorre no Paquistão e no Iêmen.

 

Sem o cancelamento disso, a maneira de tratamento da região por Washington continuará anacrônica, ao remontar não à época da Guerra Fria, mas à da virada do século XIX para o XX, quando britânicos e estadunidenses se valiam a todo o momento da diplomacia das canhoneiras – lamentavelmente atualizada com as investidas aéreas da Casa Branca.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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