Ainda a USP e a Mídia – pequena nota

 

Em meio à onda midiática de choque nada favorável às manifestações estudantis na USP nas últimas semanas, artigo de Olavo de Carvalho na Folha de S. Paulo de domingo, 13 de novembro, passou um tanto despercebido. Afinal, as frentes de desmerecimento das reivindicações estudantis são tantas e tamanhas que a mídia, mesmo a mais progressista, talvez não tenha podido gastar tempo com um dos ícones mais escancarados do conservadorismo - que seria até pitoresco, não fosse a tragédia de ser assimilado por parcelas significativas da sociedade.

 

O filósofo critica a orientação da USP desde o suicídio de Getulio Vargas e respectivo “recrudescimento espetacular do getulismo na década seguinte”, com seu “discurso nacional-progressista”, ao lado de um “intervencionismo estatal crescente”; o marxismo explícito após a década de 60, “com a adesão maciça do estudantado à revolução continental orquestrada em Cuba”; a “estratégia gramsciana”, especialmente após a derrota das “guerrilhas”, com a “apologia das drogas e a legitimação da criminalidade como expressão do ‘grito dos oprimidos’"; e, após o fracasso do modelo soviético, com seus “movimentos esquerdistas” patrocinados por “bilionários globalistas”, “de modo que rapidamente o discurso agora chamado ‘politicamente correto’ se erige em opinião dominante, inibindo e marginalizando toda oposição conservadora ou religiosa, que se refugia em grupos minoritários cada vez mais desnorteados ou entre as camadas sociais mais pobres, desprovidas de canais de expressão”.


“O jovem radical ególatra, presunçoso e insolente, a quem todos os crimes são permitidos sob pretextos cada vez mais charmosos, tornou-se o modelo e juiz da conduta humana, a autoridade moral suprema a quem o próprio consenso da mídia e do establishment não ousa contrariar de frente”. Tudo segundo o filósofo.

O mencionado texto está em destaque na Folha de S. Paulo, no alto da página A3, do primeiro caderno, na famosa seção de Tendências e Debates. Na mesma edição em que o diário dizia que “58% dos alunos da USP apóiam a PM no campus” em manchete de primeiríssima página – afirmação considerada pra lá de polêmica, a se considerarem o recorte, metodologia e interpretação utilizados para a pesquisa, segundo foi evidenciado por vários alunos e por outros órgãos de imprensa.

No texto, Carvalho ainda reclama, ao final, das críticas puramente quantitativas que estariam sendo feitas aos movimentos estudantis, sem questionar a ideologia de fundo destes alunos jovens. “Ideologia de pessoas chiques, a ideologia de todo o establishment”. Entre as pessoas chiques estaria inclusive a própria Folha, citada em negrito no artigo de Carvalho.

 

Ainda que o jornal não tenha se preocupado nem um pouco em esconder a sua postura ostensivamente contrária aos estudantes nos dias anteriores (ver A USP, a Tropa de Choque da Polícia e a Tropa de Choque da Mídia), curioso ter publicado um texto que faz  uma crítica tão frontal e direta, no caso até mesmo nominal, e que beira o estereótipo – algo do qual correm os veículos que, ao menos nas aparências, querem manter a aura de modernidade e progressismo. Pode ter gostado de ser chamado de chique. E, afinal, criticado por um dos representantes do pensamento conservador cabal e assumido, veiculando, ademais, tal crítica em sua edição, cria uma chancela bem oportuna para prosseguir com seu conservadorismo mais sorrateiro, sem correr o risco de ser equiparado às mídias já mais desacreditadas como Veja e associadas.

 

Pode assim seguir em paz, com ares de progressismo, e sempre em um cômodo caminho do meio, aquele que parece agradar a todos.

 

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Comentários   

0 #1 RE: Ainda a USP e a Mídia – pequena notaAntonio Costa 24-11-2011 09:53
Valéria,

guardadas as proporções e contextos, o mesmo se deu na Greve da UNIR-Universidade Federal de Rondônia. Aqui na região o quadro ainda é bem pior, visto que os jornais/rádios e TVs são um verdadeiro latifúndio midiático dos coronéis de barranco, no moderno seringal a que chamamos Amazónia. Também nos sertões de cá, somos todos "arruaceiros manconhados", únicamente por defendermos o que resta da decência pública. Do lado de fora das lutas os partidos de "esquerda" assistem placidamente os embates se desenrrolarem, absortos que estão no jogo do bicho eleitoral. O deserto está por todo lado, predomina o que Ranciere chamou de pequena política.
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