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A São Paulo demo-tucana é uma cidade triste e sucateada Imprimir E-mail
Escrito por Francisco Bicudo   
Quarta, 23 de Novembro de 2011
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Estamos chegando ao final de 2011 e as movimentações partidárias que envolvem a sucessão municipal paulistana do ano que vem começam a ganhar contornos de uma fotografia cada vez mais precisa e nítida. É momento bastante propício, portanto, para arregaçar as mangas, recuperar o fôlego, preparar argumentos, afinar os discursos e começar a disputar espaço político, com firme disposição para desconstruir democraticamente o "gerenciamento asséptico" demo-tucano (que tem lado, obviamente) e resgatar a cidade de São Paulo do abandono e do conservadorismo a que foi condenada durante a gestão Serra-Kassab (2005-2012). Ao final destes oito anos, o que se nota é uma megalópole à deriva, sisuda, abandonada à própria sorte, sem rumo, carente de sonhos e de utopias, resignada a enfrentar um cotidiano cinzento e sem graça.

 

Quando esteve à frente da administração municipal (2005-2006), José Serra só fez se preocupar em usar a Prefeitura como trampolim para alcançar primeiro o governo do estado (2007-2010), lançando-se em seguida ao sonho de consumo chamado Presidência da República (verdadeira obsessão...), tendo sido derrotado no ano passado, no segundo turno, por Dilma Rousseff. Por sua vez, Gilberto Kassab (assumiu em 2006 e foi reeleito em 2008) dedicou os últimos dois anos praticamente a apenas organizar seu partido, o PSD, aquele que "não é de direita, nem de esquerda, nem de centro" - é bastante oportunista, na verdade. Navega conforme os ventos dos interesses eleitoreiros e consagra um pragmatismo "imparcial" de dar vergonha.

 

Relegada a segundo plano por aqueles que deveriam dela cuidar, a cidade sofreu também com uma oposição pífia, principalmente por parte do PT, que há muito perdeu a disposição para o enfrentamento político de grande magnitude e de significados, impactos e repercussões na vida da cidade, contentando-se com a manutenção de suas áreas de influência, principalmente nas franjas de São Paulo, sem interesse mais evidente em ampliar o diálogo crítico com a sociedade.

 

Ainda mais lamentável: não são poucas as lideranças petistas que defendem trégua, acordo estratégico ou até mesmo tratamento privilegiado ao prefeito Kassab, poupando-o de críticas ou de contrapontos, pois afinal o dono do PSD faz parte agora da base aliada do governo federal e pode quem sabe ajudar a derrotar os tucanos em São Paulo. Rende-se o PT ao canto da sereia, sem disposição e clareza políticas (ou não...) para reconhecer que Kassab é Serra, ou seja, é mais do mesmo, é PSDB, é a direita, tucano que procura esconder o bico e a plumagem, mas que é tucano na alma - e nas iniciativas políticas. Os últimos seis anos não foram só de Kassab - foram também de Serra. Os dois são unha e carne, criador e criatura, padrinho e afilhado.

 

Por conta dessa combinação de administração conservadora, que não raro abandona a cidade, com oposição que abdica de atuar como tal, restou a inércia, que em inúmeras ocasiões tem se traduzido em obscurantismo quase medieval. Sem propostas que representem norte coletivo, sem referências, sem lideranças, sobra para São Paulo o esgarçamento do tecido social, o "cada um por si, o egoísmo desgovernado, o salve-se quem puder, a vontade dos mais fortes". A cidade anuncia-se cada vez menos receptiva e reconhecedora das diversidades, revelando-se assustadoramente - e de forma preocupante - um espaço criador e reprodutor de preconceitos, exclusões e intolerâncias.

 

Moradores de Higienópolis, área nobilíssima da cidade, se mobilizaram recentemente para impedir que em uma das principais avenidas do bairro fosse instalada uma estação de Metrô. Alegavam que a região seria invadida por "gente diferenciada", com o conseqüente "aumento da violência e do banditismo". Em Pinheiros, fez-se um abaixo-assinado para fechar um albergue que atende moradores de rua, porque são também "feios, pobres, ameaça inconteste a quem vive por perto, risco permanente de criminalidade". Aliás, ainda em Pinheiros, é estarrecedor notar, em locais tradicionais do bairro, como a rua Teodoro Sampaio e a avenida Doutor Arnaldo, e com freqüência cada vez maior, muros de casas e de outros estabelecimentos pixados com suásticas nazistas – além da Cardeal Arcoverde, onde houve o assassinato de um jovem punk por grupo fascista há pouco tempo.

 

Muitos dos que vivem em Moema, mais um tradicional reduto da classe média-alta paulistana, brigam ferrenhamente contra a instalação de uma ciclo-faixa, porque, como traduziu uma comerciante do bairro, as bicicletas atrapalham o estacionamento dos "carros importados das clientes milionárias que dirigem de salto alto" e que procuram o comércio da região.

 

São todos ecos de uma cidade que se pensa a partir de guetos, de privilégios, de umbigos.

 

E, quando tenta sair da inércia e mostrar serviço, a administração municipal revela toda a sua sanha truculenta e autoritária, reforçando tais práticas e discursos reacionários e fundamentalistas, corroborando e dando vazão para a intolerância dominante. A Pastoral do Povo da Rua vem denunciando sistematicamente e já há muito tempo as ações higienistas da prefeitura, que coloca objetos pontiagudos e cercas em áreas freqüentadas por moradores de rua, além de tentar retirá-los de pontes e das esquinas jogando neles jatos de água gelada.

 

As ocupações de prédios pelo Movimento dos Sem-Teto no Centro da cidade - edifícios abandonados, vazios, usados para especulação imobiliária e muitas vezes sem pagar Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) - são sempre tratadas como casos de polícia. E tome Tropa de Choque da Polícia Militar (também tucana) para rapidamente fazer cumprir ordens judiciais de reintegração de posse (emitidas com agilidade de dar inveja). A única preocupação é com a intocável propriedade privada - ainda que não cumpra sua função social, como inclusive determina a Constituição Federal.

 

Professores são tratados como inimigos e vêem a profissão afundar no descrédito, cada vez mais desvalorizada e vilipendiada, situação que vai se refletir nas avaliações a que são submetidos os estudantes paulistanos - os resultados são catastróficos. O sistema municipal de Saúde está sucateado - até porque os iluminados demo-tucanos não escondem suas preferências eternas pelo setor privado. Projeto aprovado há poucos dias pela Assembléia Legislativa, por iniciativa do governador Geraldo Alckmin, permite que o Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior da América Latina, passe a fazer oficial e legalmente distinção entre pacientes com convênios privados e aqueles atendidos pelo Sistema Único de Saúde, o SUS, com prioridade para os primeiros. Trata-se da chamada "Lei das Duas Portas". É iniciativa de âmbito estadual, mas que não difere das ações municipais. O modus operandi é o mesmo.

 

Quando o assunto é transporte público, é nítida a prioridade para veículos particulares, em uma cidade aonde já circulam sete milhões de automóveis. A recente ampliação das pistas da Marginal do Tietê é apenas um exemplo dessa visão reducionista e insustentável, que considera mais os carros que as pessoas. Quem depende de ônibus para circular pela cidade entende bem do que estou falando.

 

Outra evidência representativa - e lamentável - do jeito demo-tucano-serrista-kassabista de administrar a cidade pode ser percebida no loteamento e na militarização das subprefeituras. Das 31 atualmente instaladas na cidade, 28 são comandadas por policiais militares aposentados. Com isso, Kassab reforça a disposição para a repressão aos excluídos e a demonização dos movimentos sociais, já que as subprefeituras têm sido fundamentais, por exemplo, no trato truculento com o comércio informal, com os camelôs, levando ainda a perseguição higienista aos moradores de rua, antes concentrada na região central, aos mais diferentes e distantes bairros da cidade. A ordem é combater "a desordem urbana".

 

Depois de oito anos de omissões e desmandos demo-tucanos, São Paulo precisa urgentemente se redescobrir - e se reinventar. Não para reforçar aquela tese tão antiga quanto tola que defende a "locomotiva da nação", e que só faz enraizar comportamentos arrogantes e excludentes.

 

O resgate que precisa acontecer é o das idéias, das criatividades, das pulsações, da alma de uma cidade que deve refundar seu espaço público de convivências, de inclusões e de respeito profundo às diferenças. É preciso formular um projeto coeso de radicalização da democracia, que enxergue os mais diferentes segmentos da população, vislumbre as distintas regiões da cidade e articule as várias áreas de atuação (Saúde, Educação, Moradia, Transporte, Meio Ambiente, Urbanismo...), pensando certamente no conjunto da cidade, mas sem negar prioridades estratégicas para as periferias e os mais pobres, aqueles que de fato são mais carentes de políticas públicas e da presença do Estado. É uma questão de opção política.

 

É preciso buscar uma São Paulo mais acolhedora, mais generosa e mais solidária - e portanto menos sisuda e resignada. Para tanto, será fundamental garantir, em 2012, antes e durante a campanha municipal, que a discussão política de fundo e de fôlego prevaleça sobre as artimanhas maquiadoras do marketing eleitoreiro. Em qual São Paulo desejamos viver nos próximos anos? Essa é a questão que está colocada.

 

O desafio é gigantesco. E começa já. Este jornalista assume o compromisso de, nos limites modestíssimos de seu alcance, ajudar a fomentar esse fundamental debate. Em busca de uma outra São Paulo, voltaremos (algumas vezes) ao tema.

 

Francisco Bicudo é jornalista e professor de Comunicação Social.

Blog: http://oblogdochico.blogspot.com/2011/11/sao-paulo-demo-tucana-e-uma-cidade.html

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