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Refazer a beleza do Cosmos no útero das águas Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Barros   
Qui, 26 de Julho de 2007
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Julho se aproxima do seu final, mas muitas pessoas ainda aproveitam os últimos dias de férias. Em várias regiões do Brasil, compensam a pouca umidade do ar por uma busca das águas. Estâncias hidrominerais ou térmicas como São Lourenço, Caxambu, Poços de Caldas e Caldas Novas se enchem de turistas. No Centro-oeste, muitos correm às praias alvas e tranqüilas do misterioso Araguaia e outros acampam às margens do primeiro rio que encontram. Para a maioria, esta busca das águas é apenas opção de férias. Entretanto, a eterna fascinação do ser humano pela água insinua que, por trás desta corrida às fontes, haja a necessidade fundamental de cada pessoa colocar-se em sintonia com o Cosmos, em um mergulho místico no encantamento que as águas proporcionam.

 

As pessoas têm gostos diferentes. Para descansar, há quem adore o clima de montanha, como há quem prefira o vento do mar. Uns descansam na solidão e outros não dispensam uma roda de amigos. Entretanto, todas as pessoas, de quaisquer raças e culturas, se sentem bem ao ouvir o ruído de uma cascata ou o borbulhar de uma torrente de água. Parece que o barulho da água soa aconchegante ao coração humano, porque recorda os ruídos que todo ser humano escuta quando está no ventre materno. As mais antigas tradições espirituais já diziam que as águas primordiais foram o útero da vida para todas as plantas e animais que habitam a Terra.

 

Sem dúvida, existe muito deste apego filial à mãe das águas, como gostam de chamar os índios da Amazônia, neste protesto organizado e geral que grupos, dos mais diferentes segmentos da população brasileira, levantam contra a decisão do governo de ferir o rio São Francisco e desviar violentamente o seu curso já tão agredido pelos desmatamentos e pela erosão.

 

A região semi-árida nordestina existe em todos os Estados do Nordeste e sua superfície chega a um milhão de km2. Como em todos os climas semi-áridos, chove pouco, mas o nível pluviométrico anual chega a 700 mm3, o que é uma taxa maior do que, por exemplo, a taxa de chuvas da Califórnia que nem por isso deixa de ser uma das regiões mais ricas dos Estados Unidos. O processo de desertificação do semi-árido nordestino tem como causas não a falta de chuvas ou de rios e sim o uso errado do solo, o desflorestamento perpetrado desde os tempos da conquista, as queimadas, a utilização de agrotóxicos, a pecuária extensiva e outros crimes ambientais da responsabilidade dos governos locais e estaduais.

 

No meio deste desacerto que penaliza a natureza e milhões de brasileiros, dos mais pobres do país, o rio São Francisco percorre cinco Estados do Nordeste, como uma veia transmissora de vida e uma via de comunhão e relacionamento entre as populações de diferentes locais e culturas. Por isso, o São Francisco sempre foi considerado "o rio da integração nacional". A população ribeirinha tem com ele uma relação de tanta familiaridade que gosta mesmo de chamá-lo "o velho Chico", apelido sábio que trata o rio como um ser pessoal e não apenas como manancial de recursos cuja potencialidade energética ou hidráulica existe para ser explorada.  Infelizmente, mesmo o atual governo federal, eleito a partir de promessas de mudanças estruturais, retoma a mesma visão economicista mesquinha e desumana de governantes anteriores.

 

Com a arrogância de quem tem o poder e não precisa dar satisfação a ninguém, o Ministro da Integração Nacional (lembrem-se de que este era o título do rio) inaugurou as obras de transposição do rio.

 

Em um de seus artigos, o jornalista Washington Novaes afirma que, há mais de dez anos, estuda este projeto e vê diversas contradições e perguntas sem respostas. A própria Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência já expressou críticas ao projeto. Ninguém mereceu do governo nenhuma explicação e o bispo Dom Luiz Cáppio que tinha recebido do próprio presidente da República a promessa de rever o assunto, foi simplesmente iludido. A transposição do rio faz parte do grande projeto de crescimento econômico que legaliza sementes transgênicas, compromete o país com a construção de mais uma usina nuclear e agride o rio Madeira com duas hidroelétricas faraônicas. Tudo em nome do modelo vigente de crescimento econômico que não poupa o ambiente e ignora as multidões pobres para servir aos poderosos do mundo.

 

Muito simbolicamente, as obras de transposição do rio estão sendo implantadas em terras que, antigamente, foram do povo Truká e hoje estão reivindicadas pelos descendentes indígenas que, reorganizados, estão retomando sua cultura própria e precisam daquelas terras para a comunidade viver. A Justiça deu ganho de causa ao governo e mandou desocupar a área, na qual índios, lavradores e militantes de entidades ecológicas acampavam. Isso não calará todo o movimento popular e ecológico brasileiro que sabe: a transposição do São Francisco não servirá ao povo mais pobre da região seca e sim ao agro-negócio e às indústrias locais. Para dar um exemplo: as indústrias de crustáceos, às margens do rio para produzir um quilo de camarão gastam 50 mil litros de água, quantidade necessária para abastecer, por um ano inteiro, várias famílias nordestinas.

 

Do seu leito de dor, o velho Chico vê tudo isso e espera. Sua idade geológica lhe ensina a paciência. Os homens passam, governo sobe e desce. O rio continua sua viagem rumo ao oceano. Suas águas parecem agora com as lágrimas da Mãe Terra, deserdada por seus filhos, mas elas saberão resgatar o tempo. E um tempo novo chegará.

 

 

Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e escritor.

 

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Última atualização em Qui, 26 de Julho de 2007
 

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