Apesar dos Pesares

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Os primeiros cadernos de todos os jornais estão ocupados pela comoção coletiva provocada pela tragédia em Congonhas. Os editoriais, os artigos de opinião, as cartas dos leitores, as reportagens retrospectivas, a cobertura das repercussões, entre tantas dolorosas manifestações, fornecem uma idéia do impacto do acontecimento brutal na opinião pública. 

 

Todos acompanham e especulam, mas sabem que a última palavra sobre as causas concretas do desastre cabe aos especialistas. Além da vigilância sobre os rumos da investigação, o cidadão começa a deslocar sua atenção para uma outra, e mais relevante, dimensão do problema. São as chamadas “causas remotas”, aquelas que configuram o ambiente político que propiciou a tragédia. Sobre tais causas, em uma democracia digna deste nome, é ao cidadão que cabe a última palavra.

 

A explosão de Congonhas, além da dor dos familiares e do embaraço das autoridades, pode ter provocado um deslocamento no eixo da agenda política. Alguns indícios, recolhidos nos jornais, revelam que o abalo provocado pelo desastre trouxe para a superfície mais larga do debate público alguns temas antes reprimidos, pelo menos na grande imprensa.

 

Cito longamente o editorial da Folha de São Paulo, de 24 de julho: “O Tesouro tornou-se refém das políticas monetária e cambial implementadas pelo Banco Central. Os elevados rendimentos distribuídos aos detentores de títulos da dívida pública travaram a expansão dos gastos em infra-estrutura econômica e social, a despeito da carga tributária crescente”. E mais: “Os tributos arrecadados (...) foram usados para ampliar o saldo primário do setor público e garantir o pagamento das despesas com juros, não para aumentar a oferta de bens e serviços”. Vindo de onde vem, a crítica surpreende (é também autocrítica), mas seu foco é perfeito: questiona o cerne do modelo econômico dominante.

 

Na mesma linha, a prestigiosa coluna de Merval Pereira, no Globo de domingo, abriu espaços para declarações do economista Paulo Rabello de Castro.  Definido como liberal convicto, ele questiona o papel do mercado na solução da crise aérea. Mais uma vez, cito longamente: “Ao contrário da opinião predominante, Rabello discorda do caráter quase mágico atribuído ao ‘mercado’ como supridor de soluções rápidas e indolores para a crise aérea brasileira. Para ele, a seqüência de eventos que, entre 2005 e meados de 2006, determinou o definhamento dos serviços da Varig guarda absoluto nexo causal com os sinistros aéreos ocorridos agora”.  Assim como no caso do editorial da Folha, essa opinião representa uma espécie de meia trava ao triunfalismo da ideologia dominante.

 

A lógica do modelo econômico, que torra no cassino financeiro a parte do leão dos recursos públicos, nos conserva estrangulados por gargalos estruturais. Enquanto perdurar tal modelo, não há saída para tal impasse. A ideologia que endeusa o mercado e trata o poder público como um estorvo ao dinamismo dos negócios começa a desfiar sua fieira de horrores. A ganância do poder privado sem freios e o colapso do poder público são o verso e o reverso do desastre. E temas postos na pauta da cidadania pela explosão de Congonhas, apesar dos pesares.       

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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