Dilma tratora as cisternas?

 

A sociedade civil articulada trabalha há anos a construção de um milhão de cisternas para a população difusa do semi-árido. O P1MC (Programa 1 Milhão de Cisternas) já construiu cerca de 350 mil dessas cisternas.

 

O resultado desse trabalho de rendeira, ponto a ponto, cisterna a cisterna, junto com outras políticas públicas como a elevação do salário mínimo, Luz para Todos e Bolsa Família, fizeram com que desaparecesse do cenário nordestino as grandes migrações, os altíssimos índices de mortalidade infantil, as famigeradas Frentes de Emergência, os macabros saques de famintos e sedentos. Parece pouco, mas é uma conquista histórica.

 

Seriam impossíveis essas conquistas sem que uma legião de pessoas, articuladas em mais de 700 entidades, não dedicassem suas vidas para vencer essas tragédias. Com uma pedagogia paciente, envolvendo as comunidades beneficiadas, fazendo a reflexão sobre a convivência com o semi-árido, replicando tecnologias que passam a ser controladas pelas comunidades, a realidade mudou.

 

Dilma, quando entrou, disse que iria acelerar esse processo. Sempre ficou a dúvida de qual seria o método para essa aceleração. Anunciou a construção de 800 mil cisternas, como a universalização do Água para Todos. Até aí estava tudo ótimo.

 

Mas, repentinamente, a presidente anuncia que vai acelerar a implantação das cisternas através de um reservatório de plástico, comprados de uma empresa. A presidenta nem imagina o estrago que está fazendo. Se soubesse, não é possível que o fizesse.

 

Primeiro, as cisternas de plástico murcham com o sol, envelhecem rápido, o que as inviabiliza do ponto de vista técnico. Mas esse não é o problema fundamental. Nenhuma empresa tem interesse em fazer o trabalho pedagógico junto às comunidades. Para guardar a água da chuva é necessário um trabalho de reflexão sobre o semi-árido, como ele é, suas leis naturais de chuva e secas, sua biodiversidade específica, assim por diante.

 

O Estado brasileiro, desde o nível federal até ao municipal, nunca soube, não sabe, não há sinal que um dia saberá como fazer essa educação. Tanto é que a fome e a sede reinaram por séculos até que a sociedade civil inaugurasse essa nova metodologia, estabelecendo uma fenda histórica entre o que foi feito antes e o que está sendo feito agora. Dilma vai enterrar a metodologia com suas cisternas de plástico.

 

Se existe demora, o correto seria fortalecer a ASA (Articulação do Semi-Árido). Afinal, só o aditivo da Transposição, que está derretendo ao sol, é de 1,8 bilhões de reais, isto é, dinheiro suficiente para fazer  um milhão de cisternas.

 

Francamente, quem não ajuda que não atrapalhe. Se os governos não sabem fazer, que continuem apoiando aqueles que sabem. Já é uma contribuição excelente. Enterrar essas iniciativas, muito mais pedagógicas que obreiristas, é ressuscitar a velha indústria da seca, tão ao gosto dos coronéis de ontem e de sempre.

 

 

Roberto Malvezzi é assessor de movimentos sociais e membro da Comissão Pastoral da Terra.

Comentários   

0 #3 RE: Dilma tratora as cisternas?Tarcisog 08-12-2011 15:52
O problema é que cisternas não dão caixa 2. Por outro lado, se forem de plástico ou outra coisa qualquer, serão vendidas por empresas que, para ganharem o polpudo contrato, pagarão as propinas. Acorda gente!
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0 #2 O produtivismo, de novoNelson 16-11-2011 11:14
Segue o governo, que, assim como o de Lula elegemos para fazer diferente e melhor, agindo com a mente voltada para o produtivismo - a fazer tudo de forma acelerada para alcançar o desenvolvimento, que seria ardorosamente desejado pelo povo.
O mesmo produtivismo que tantos males causou à União Soviética - deixou um enorme rastro de destruição ambiental, por exemplo - e que era exacerbadamente criticado por muitos dos que encabeçaram o governo Lula e que estão à testa do governo Dilma.
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0 #1 Leite DerramadoRaymundo Araujo Filh 13-11-2011 11:03
Creio que o exercício que podemos fazer aqui no Correio e em outros locais para Reflexo Ação é tentarmos "andarmos na frente do Bonde, apontando caminhos e velocidades seguras, e não correndo atrás dele, e de língua de fora".

Lembro que, quando DiLLma anunciou estas 1 Milhão de cisternas, comentei um artigo, não sei se do próprio Gogó, que dava loas e boas às falas da presidente.

Ora! Ou emntendemos a natureza ideologicamente corrupta, sem compromissos populares e eticamente esquiva do que esta aí, inclusive com Lulla, ou vamos sempre estar a tentar recolher o Leite derramado, ou tentando ressuscitar a morta Inês.

Tudo o que a presidenta diLLma quria naquele momento era um Voto de Confiança a ela, sob forte críticas e falta de comando de seu (des)governo.

E teve! Mas, a meu ver, por parte de quem não poderia fazer isso, poois o exercício da Fé no próximo não passa por nos deixarmos ser enganados (e por conseguinte, quem nos escuta, lê ou milita ombro a ombro).

Generosidade e esperança (quem sabe, "a mais confortável forma de alienação?)para mim não é isso.

Generosidade é não deixarmos uma maioria ser enganada, engabelada e que suas necessidades básicas não sejam motivos de negociatas escusas, por uma minoria que esta presidenta representa. Ou alguém, além do Wladimir Pomar e Frei Beto ainda acredita em Fadas Madrinhas?

Ser duro, não representa não ser generoso, ou que tenhamos perdido a ternura. Amar a Todos igualmente, não significa que devamos dar crédito de confiança a quem não merece e, pior, "passou-se de lado".

Vovó amava a todos, mas me ensinou que, com algumas pessoas não devemos andar juntos e nem elogiar.
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