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“Roubado é mais gostoso”: Itaquera e a Copa dos Bons Amigos Imprimir E-mail
Escrito por Wellington Fontes Menezes   
Sexta, 11 de Novembro de 2011
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1. A farra com o erário

 

O espetáculo perdulário da promoção da Copa do Mundo no Brasil beira a completa barbárie. Na última quinta-feira, 20 de outubro, uma verdadeira carreata do oportunismo político ocupou o terreno baldio ao lado da Estação Itaquera do metrô. Como se fosse para bater uma “pelada”, a rapaziada se animou tanto que inclusive estava presente o ex-craque do futebol nacional, o neocorintiano Ronaldo Nazário, que é o atual fenômeno dos bastidores da publicidade esportiva e contratos obscuros. Talvez faltasse um colorido mais popular à confraternização, umas cervejinhas, além da carne de felino para queimar no carvão. Sem uma batucada mais estridente, o principal motivo da Copa em São Paulo já tinha sido acertado bem antecipadamente: se não deu pagode, dará muito lucro aos seus organizadores.

 

A várzea é aqui. A caravana foi politiqueiramente grande: a cúpula dirigente do Corinthians acompanhada do tucano governador Alckmin, do “apartidário” prefeito Gilberto Kassab, representantes do Ministério dos Esportes, órgão mergulhado em denúncias de corrupção, além das mãos das parceiras siamesas, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Fédération Internationale de Football Association (FIFA). Muitos “companheiros” vieram ao bairro de Itaquera para representar a oficialização do teatro a respeito da abertura da Copa em São Paulo. Sem maiores cerimônias, o circo do terreno baldio se fez presente: gargalhadas de rapina, abraços, afagos, elogios acéfalos, ufanismo patético e cerca de um bilhão de reais do dinheiro público nas mãos da tal “iniciativa privada”.

 

Ironicamente, bem do lado da estação Itaquera, num terreno mais abaixo, estão alojadas temporariamente as instalações de um circo. Sim, literalmente um circo, o “Circo Moscou”, mas sem as invejáveis atrações governamentais presentes acima, no terreno baldio da prefeitura doado para a construtora Odebrecht fabricar o tal estádio. No capitalismo parasitário dos bons amigos, doação de dinheiro público tem o singelo rótulo de “investimento”. E quem paga a conta de tanta rapina, amizade?

 

Futebol é apenas um esporte, independentemente das paixões envolvendo sua cultura. Todavia, os interesses coletivos básicos da população não deveriam estar acima dos interesses político-econômicos privados? Redondo e cristalino engano! Importante salientar e pontuar a disparidade dos projetos de megaeventos de verniz turístico-eleitoreiro. Há poucos metros do futuro estádio da Odebrecht onde foi feito a celebração da farra com o erário, há uma ocupação localizada nas terras que margeiam um córrego localizado na saída do Metrô Itaquera. Um pontual exemplo da carência estrutural que vive o bairro e esta observação merece maior desdobramento.

 

2. Itaquera sem mistificação

 

Sua população é de cerca de 530 mil habitantes, formada por classes C e D, dados da subprefeitura de Itaquera, que compreende Cidade Líder, Itaquera, José Bonifácio e Parque do Carmo. Itaquera não tem a “gente diferenciada” da esterilizada Higienópolis e este bairro da zona leste se limita apenas a ser mais um bairro-dormitório de classe trabalhadora como muitos outros da periferia paulistana. Entre os aeroportos de Cumbica, em Guarulhos, e Afonso Penna, em Curitiba, não leva mais do que quarenta e cinco minutos de vôo. Comparativamente, a distância de Itaquera até a região central da cidade de São Paulo é realizada em tediosas e exaustivas viagens que levam no mínimo uma hora de relógio (isto é, sem chuvas torrenciais), seja no trânsito engarrafado, seja no metrô superlotado. E quando chove, áreas de alagamento e bolsões de pobreza endêmica expõem a condição de carência crônica do bairro.

 

O terminal de ônibus é localizado nas imediações do metrô batizado oficialmente de “Estação Corinthians-Itaquera”, na verdade um complexo de transporte contendo metrôs, trens e ônibus e táxis. Após banir uma onda de camelôs que ocupava a estação, a administração do metrô loteou a área em pequenas lojas de alvenaria, o que aprofundou a canibalização comercial por pontos de vendas, degenerando qualquer suporte para se ter uma boa logística de transporte a todos aqueles que chegam de metrô e precisam pegar ônibus e vans, ou vice-versa.

 

Trocando em miúdos, com a concorrência do comércio local, o terminal de ônibus é uma preocupação secundária e os usuários são espremidos de forma humilhante e constrangedora entre as tendas comerciais e os ônibus e vans da SPTRANS, companhia da prefeitura que finge regular e fiscalizar o transporte público em São Paulo. Salvo os usuários que tem de utilizar pontos de ônibus que não têm cobertura, sendo um transtorno adicional em períodos de chuva. O sofrimento do usuário é garantido com passagens a três reais para girar a catraca do ônibus e dois reais e noventa centavos para girar a catraca do metrô.

 

Quem tiver o “bilhete único” consegue algum descontinho na empreitada. Os horários de pico são o verdadeiro Inferno de Dante para os usuários. Os gigantescos deslocamentos diários da população itaquerense até os locais de trabalho, localizados nas regiões centrais da cidade, formam um quadro macroscópico do descompasso pendular entre o mundo da vida privada e o mundo do trabalho.

 

Para completar a paisagem das imediações do futurístico estádio que representará São Paulo na Copa do Mundo, após anos de indiferença do Poder Público, muitas famílias em situação de precariedade vêm se aglomerando e inflando uma favela nas imediações do terreno presente nas saídas do metrô de Itaquera, na direção centro-bairro. Aliás, como se diz no jargão eufemístico do cínico politicamente correto neoliberal, entre um córrego transformado em esgoto a céu aberto, ratos, insetos e misérias infindáveis, muitas famílias em situação de precariedade vêm se consolidando numa “comunidade”.

 

Ademais, a região de Itaquera, entre outras carências, sofre com o déficit de hospitais públicos. O hospital de referência da região é o superlotado Santa Marcelina, sempre envolto em crises sucessivas no atendimento da imensa população que carece passar pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Refletindo a retórica governamental sobre meio ambiente, vale a pena comentar mais um pequeno e episódico detalhe de como o bairro de Itaquera é tratado pelo Poder Público. Após a desativação da antiga estação ferroviária de Itaquera, localizada no eixo central do bairro, no início do ano, uma praça foi instalada em seu lugar. Cabe ressaltar que neste caso o termo “praça” ou “parque” não passa de um sórdido eufemismo. Na realidade, se trata de uma área bisonhamente concretada, sem nenhuma preocupação paisagística, mal iluminada e com algumas pontuais e decorativas árvores solitárias. A tal “praça” ou “parque” é um lugar bizarro, precário e desalentador que mais se parece um cemitério de concreto para sedimentar lixo nuclear no coração de Itaquera.

 

Naturalmente, é perceptível o tratamento diferenciado pelo Poder Público paulista nas diversos bairros, de distintas economias locais, da cidade de São Paulo. A administração do prefeito Kassab vem se notabilizando em criar precários parques na cidade como os tais “parques lineares”, que vêm se espalhando pela zona leste. Em suma, uma verdadeira orquestração regida pela estupidez e o menosprezo pela população.

 

3. Futebol como retórica e o preço da Copa

 

A cidade de São Paulo não precisa de mais estádios de futebol. De fato, carece de investimentos em infra-estrutura e organização para comportar eventos desta natureza. A questão da moradia popular é gritante e urge uma real política urbanística de ocupação do espaço público numa metrópole como São Paulo. Antes da vã euforia dos bajuladores do imediatismo irresponsável, não existe nenhuma correlação entre criar um estádio e promover desenvolvimento local sustentado. Aliás, o que vem se sustentando por todo o país é uma série de estádios de futebol com orçamentos superfaturados em nome da Copa do Mundo. Quase todos sem a menor coesão com a realidade local.

 

Tal como os novos que nasceram velhos, verdadeiros “elefantes brancos”, erguidos pela África do Sul que sediou a Copa do Mundo de 2010, o estádio itaquerense da Odebrecht é um grande celeiro de desperdício bilionário de dinheiro público. Um exemplo de como o Poder Público relega os cidadãos a último plano e onde o poder econômico é a moeda de troca dos sórdidos interesses imediatistas, de várias estirpes: pessoais, políticos e econômicos.

 

Antes que um iludido torcedor do time do Parque São Jorge se exalte e reverbere toda sua artilharia psicanalítica típica, de que todos estão contra o seu “Timão”, é fundamental entender que o estádio oficialmente será da construtora e com administração compartilhada com o Sport Club Corinthians Paulista. De concreto mesmo é a doação de verbas públicas na construção de um estádio numa área sem infra-estrutura para um evento deste porte, exceto pela miragem publicitária do sucateado metrô. Somente com muito ufanismo e ilusão que o Poder Público poderá transformar o carente bairro de Itaquera, com propagandeada logística de “Primeiro Mundo”, num tempo hábil que possa abrigar os jogos razoavelmente em meados de 2014.

 

Para os que vivem no bairro, os sinais são claros que absolutamente nada de concreto é (ou será) feito na região. Como o capitalismo age como abutre na carne decomposta, o que se tem observado na prática é uma absurda corrida especulativa para construção de imóveis domiciliares. Prédios de apartamentos com áreas diminutas e com preços exorbitantes para o padrão de renda da população, além de um acentuado aumento dos aluguéis, o que possivelmente empurrará mais pessoas para o bairro e afastará outras de menor poder aquisitivo a regiões anexas a Itaquera. Resultado previsível: o que estava complicado tenderá a se agravar, com maior inchaço populacional na exígua infra-estrutura do bairro de Itaquera.

 

Vale como um salutar exemplo da fantástica máquina da corrupção e da demagogia política. Itaquera se transforma numa grande farsa dos bons amigos da Copa do Mundo. Na esteira da absoluta conivência com as mazelas e corrupção desenfreada dos contratos, o futebol e a população são de longe as menores preocupações dos seus organizadores. O importante é aproveitar ao máximo a “superboquinha” que o evento trará aos irrequietos dedos e tentáculos da corrupção endêmica no Brasil e do capital externo. Como é possível que Ricardo Teixeira, o imperador perpétuo de uma entidade como a CBF, passe impune em todas as acusações de corrupção e continue intacto como principal gerente da organização brasileira da Copa de 2014?

 

Seria mera coincidência o estreito e estranho laço entre o presidente do Corinthians, Andrés Sanches, chefe da delegação da Seleção Brasileira na Copa de 2010, e Ricardo Teixeira? Ou até com o técnico Mano Menezes, que saiu da direção do time do Parque São Jorge com apenas um título expressivo e subitamente virou técnico da Seleção Brasileira... Amizades tão frutíferas que o clube, sempre lembrado por “não ter estádio”, viu cair no colo do seu presidente Sanchez um estádio novinho em folha, sem tirar um tostão dos cofres corintianos. Mera coincidência futebolística?

 

Diante do espetáculo de cinismo e corrupção, o que qualquer habitante de Itaquera realmente pressente é uma velha máxima que muitos torcedores gostam de recitar, provocando seus adversários quando o juiz tem um papel bem conveniente para o clube numa partida de futebol: “Roubado é mais gostoso!”.

 

Wellington Fontes Menezes é mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus Marília; bacharel e licenciado em Física pela Universidade de São Paulo (USP); professor da Rede Pública do estado de São Paulo.


Blog: www.wfmenezes.blogspot.com

Twitter: http://twitter.com/wfmenezes

Contato: wfmenezes(0)uol.com.br e wfmenezes(0)marilia.unesp.br

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Última atualização em Segunda, 21 de Novembro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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