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Entre o inesperado e o inusitado Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Segunda, 07 de Novembro de 2011
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As atuais realidades brasileira e internacional parecem tão inesperadas e inusitadas, principalmente se as compararmos com aquelas vividas há 20 ou 30 anos atrás, que interpretações desencontradas se tornaram de uso corrente.

 

Por exemplo, ainda hoje, apesar das experiências da China e do Vietnã, ainda há muitos socialistas que culpam a natureza supostamente antidemocrática do socialismo científico proposto por Marx e Engels pelo fracasso do socialismo soviético. A conclusão óbvia é que não leram Marx e Engels com atenção. Ou não examinaram o que realmente ocorreu com a experiência soviética. Ou ambas as coisas.

 

O socialismo científico de Marx e Engels referia-se a países desenvolvidos do ponto de vista capitalista, nos quais as contradições sociais estivessem no grau em que hoje estão ingressando os Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra e França. Não estava na previsão deles que a história se adiantaria e criaria condições para revoluções, dirigidas por comunistas e socialistas, em países de capitalismo muito pouco desenvolvido, originando situações inesperadas e inusitadas, que merecem uma análise mais profunda.

 

Outro exemplo é o daqueles socialistas que, embora achem que a superação do atraso, da exploração e da opressão não passe pela adoção estrita do modelo capitalista de produção, acreditam que tal superação pode ser resolvida por experiências socialistas supostamente já testadas com sucesso, como o cooperativismo. Neste, a posse dos meios de produção seria de todos, haveria democracia na gestão, através de assembléias, e os ganhos seriam distribuídos por critérios justos.

 

O cooperativismo é realmente uma invenção socialista, mas suas experiências de sucesso têm sido limitadas e, em geral, afogadas pela concorrência capitalista, tanto do ponto de vista econômico, quanto social, político e ideológico. A própria experiência cooperativista tem mostrado que, sem o apoio do poder público, e sem que ele se expanda para o conjunto da sociedade, sua existência estará sempre subordinada a fatores conjunturais de brechas no modelo capitalista de produção. Em geral, a preponderância capitalista costuma eliminar experiências cooperativistas com certa facilidade.

 

Em tais condições, o sucesso do cooperativismo depende da solução do problema político do conjunto de todo o poder de Estado. Pode-se dizer que taticamente, sob o capitalismo, o cooperativismo é uma boa escola de socialismo e deve ser promovido ao máximo. Mas, estrategicamente, para que se desenvolva por toda a sociedade, precisa ter o poder político orientado pelos interesses dos trabalhadores e não dos capitalistas.

 

É nesse contexto de predomínio ou domínio capitalista que se coloca a atual situação inesperada e inusitada, no Brasil e em outros países da América Latina, dos socialistas terem galgado o governo através de eleições com regras ditadas pelas próprias elites capitalistas. Embora Engels tenha vislumbrado essa situação, com base na experiência da antiga social-democracia alemã, ele morreu antes de poder examiná-la mais profundamente. De qualquer modo, foram necessários mais de 100 anos de lutas anti-coloniais e antiimperialistas para que experiência idêntica voltasse a repetir-se, num quadro internacional também totalmente diferente.

 

Portanto, da mesma forma que os socialistas e comunistas das revoluções russa, chinesa e outras ficaram confusos, dividindo-se entre os que acreditaram poder construir o socialismo sem passar pelas dores do desenvolvimento capitalista e os que achavam necessária uma aliança de longo prazo com a burguesia nacional para o desenvolvimento das forças produtivas, muitos socialistas brasileiros também estão confusos sobre essas possibilidades.

 

Alguns chegaram a romper com o PT porque supunham possível realizar reformas democráticas, populares e socialistas com a simples vitória eleitoral para o governo federal. Outros, pelo contrário, acham que Lula e Dilma estão tendo sucesso porque se aliaram ao sistema financeiro e ao latifúndio, o que lhes tem permitido governar com tranqüilidade.

 

Os que acham ser possível realizar reformas profundas, sem criar uma correlação de forças capaz de colocar a totalidade do aparato de Estado a serviço da maioria do povo, consideram verdadeira traição que os governos Lula e Dilma não tenham seguido aquele caminho. E tomam como demonstração dessa traição justamente as medidas que buscam desenvolver as forças produtivas através de empresas privadas.

 

Os que acham que, através das alianças com o latifúndio e o sistema financeiro, o PT estaria realizando transformações que sempre desejou, como o desenvolvimento com distribuição de renda, sentem-se realizados com a obtenção do equilíbrio da balança de pagamentos, propiciado pelas exportações do agronegócio, e com o fato de o sistema financeiro não estar utilizando seu poder para desarranjar a economia nacional e desequilibrar o governo.

 

Assim, entre o inesperado e o inusitado, as várias correntes socialistas procuram explicar e enfrentar uma situação que supunham impossível até poucos anos atrás. E, por inesperado e inusitado que possa parecer, talvez tenham que recorrer a Marx e a Engels, mesmo não gostando dessa idéia.

 

Afinal, quando o economista-chefe do banco suíço UBS descobre que somente estudando O Capital será possível entender os problemas atuais do modo de produção capitalista, isto sugere que os preconceitos socialistas contra o urso alemão não têm muita razão de ser.

 

Portanto, o abandono desses preconceitos permite justamente analisar e entender a situação concreta do capitalismo da atualidade, algo que tem interferência direta no contexto brasileiro e sul-americano. Depois, proporciona estabelecer estratégias que evitem o radicalismo estéril de um discurso que não leva em conta tal situação, mas não perca de vista o socialismo como necessidade criada pelo próprio desenvolvimento do capital.

 

Por fim, mas não o último, pode nos ajudar a praticar táticas de alianças com forças inimigas dos trabalhadores, na perspectiva de desenvolver as forças produtivas e a força social dos próprios trabalhadores, sem jamais perder de vista que tais inimigos não mudaram sua natureza, continuam predadores e, na primeira oportunidade, são capazes de apunhalar pelas costas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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Última atualização em Sexta, 11 de Novembro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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