Ainda os muros

   

A visão do muro que separa o México dos Estados Unidos permanece gravada na retina. Tão logo não desaparecerá. É como selecionar uma imagem para servir de tela permanente do computador.

 

O pior é que o muro permanece não só na retina, mas na realidade. Tão fácil este muro não vai cair. Assim como muitos outros muros vão continuar existindo. Alguns parecem ter a vocação da muralha da China. Vão se integrar à própria realidade, como se fizessem parte natural dela.

 

Então fica a questão, nada irrelevante: como conviver com os muros? Pois precisamos aprender a contorná-los, como o rio contorna a montanha.

  

Os muros não conseguem deter a vida, que não se limita a fronteiras abertas para o comércio e a livre circulação de pessoas. A vida tem outros valores. Quando obstaculizados, parecem crescer e se firmar de maneira surpreendente.

    

Não precisamos esperar que os muros desapareçam para despertar em nós energias novas e valores insuspeitados. A vocação humana continua nos desafiando para a convivência fraterna neste pequeno planeta que nos aponta para a infinitude do universo.

   

Um padre que há muito tempo trabalha nas proximidades da fronteira do México com os Estados Unidos passou a enxergar o muro de maneira diferente. Sem o muro, milhões de mexicanos, com certeza, passariam para o outro lado. Mas quem disse que não é possível ficar no México e fazer daquele país um lugar onde se pode viver com alegria e desenvolver as esplêndidas potencialidades deste país, tão abençoado por Deus, apesar de tão próximo aos Estados Unidos?!

    

Isto é, os muros podem inverter seu sinal e despertar para desafios salutares e providenciais, como o fortalecimento da identidade própria de cada país e a valorização de suas características humanas e culturais. Verdade é que não precisamos construir muros para isto. Mas, se foram construídos, vamos tirar deles o proveito que podem nos proporcionar.

   

Em Tijuana, o muro suscitou uma realidade comovente, patrocinada pelos padres e irmãs da Congregação de São Carlos. Foram fundados pelo bispo italiano D. João Batista Scalabrini, com a finalidade específica de acompanhar e apoiar os migrantes. Naquele tempo eram migrantes que demandavam aos milhares da Europa para o continente americano. Agora, esses padres e irmãs se dedicam a acompanhar as novas ondas migratórias, que inverteram as rotas antigas e demandam em direção à Europa e aos Estados Unidos.

    

Pois bem, eles intuíram que Tijuana era um ponto estratégico para a sua benemérita missão. Construíram duas casas de acolhida, uma para mulheres, assumida pelas Irmãs, e outra para homens, assumida pelos Padres. Diariamente, cada casa acolhe em média 120 migrantes, procedentes em sua maioria dos deportados, que os Estados Unidos se encarregam de despejar em território mexicano, centenas por dia.

     

O que impressiona é o contraste que os migrantes experimentam. Despejados com frieza, são acolhidos com muito respeito pelos padres e irmãs. Podem pousar à noite, recebem roupa limpa, fazem sua refeição, recebem pessoalmente seu travesseiro e o cobertor para se abrigarem nas camas que lhes são destinadas. São colocados em contato com suas famílias. Assim podem melhor redefinir seu rumo e buscar a saída para a sua situação.

    

Tentavam uma fantasia enganosa. Acabam descobrindo uma riqueza diferente, que podem encontrar dentro de si próprios. Não há muros que detenham a vocação humana para a sua realização pessoal e o relacionamento fraterno com todos.

 

Leia mais:

 

Muros que dividem

 

D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales-SP.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados