Pan do Rio: pandemônio (2)

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Nesta segunda parte do artigo, apresento uma síntese com cinco problemas da cobertura do Pan Rio 2007 realizada pela mídia burguesa. Embora se apresente como jornalismo, está mais próxima da promoção de eventos, da publicidade e da troca de interesses.

 

Primeiro, superestima o evento, dando-lhe uma importância que, de fato, não tem. Em 2003, mesmo com problemas numerosos e graves, Santo Domingo foi escolhida como sede e conseguiu realizar os jogos. O fato em si deveria bastar para que sediá-los fosse considerado algo normal - nenhuma façanha. Do ponto de vista esportivo, há pouca relevância internacional, como afirmaram José Trajano e Juca Kfouri em entrevista à Caros Amigos. Como a política, o esporte latino-americano só é notícia na mídia burguesa quando a própria e seus aliados têm interesses econômicos a defender.

 

Segundo, numa jogada com objetivos políticos e comerciais em curso há tempos, transforma um evento sediado numa cidade – Rio –, no “Pan do Brasil”, ao contrário das edições passadas (Pan de Winnipeg, Pan de Havana, Pan de São Paulo, etc.). Politicamente, ajuda a justificar o gasto astronômico de recursos da União. A contrapartida para o resto do Brasil foi ver de perto a perambulação da tocha. O nome fantasia serve também para atrair audiência, ajudando a convencer o público a ficar o maior tempo possível vidrado na televisão, não apenas torcendo para os atletas brasileiros, mas se sentindo parte da organização e do sucesso do “Pan do Brasil”.

 

Terceiro, omite o flagelo social causado pelo Pan. Pelo menos um operário da Vila Panamericana morreu atropelado. Só após um ruidoso protesto a prefeitura construiu uma passarela no local. Bancada pelo FAT, a vila virará um condomínio de luxo. Seria irônico, se não fosse trágico: dinheiro do Fundo do Amparo ao Trabalhador financia construção de imóveis de classe alta, enquanto o operário é morto tentando chegar ao trabalho. Os acidentes de trabalho em obras do Pan quase não foram noticiados.

 

Houve perseguição, segregação e remoção de comunidades pobres e de população em situação de rua. O Pan foi uma desculpa para a adoção de iniciativas que beneficiam empresas do setor imobiliário e prejudicam o povo. As conseqüências só não foram ainda piores porque moradores e movimentos sociais se uniram e protestaram. A Chacina do Pan coroou a política de “limpar” a cidade para os jogos.

 

Quarto, omite o gasto ilegal, trágico e irresponsável de dinheiro público. Segundo o deputado federal Chico Alencar (PSOL/RJ), um dos relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) lista, entre outros indícios, “pagamento direto a empresas subcontratadas, provável existência de duplicidade de orçamentação, superfaturamento nos custos das obras, erros na planilha de custos e cronograma de trabalho, execução de serviços sem prévia licitação, ausência de fiscalização no cumprimento do contrato, pagamento antecipado de serviços”.

 

Em maio, a Câmara Municipal do Rio aprovou pedido do vereador Eliomar Coelho (PSOL) para instalação de uma CPI do Pan. A notícia foi praticamente ignorada pela mídia burguesa, interessada no “sucesso” do evento. Vereadores da bancada de situação (PSDB e PFL) manobraram e adiaram a CPI para agosto, pois “a investigação (...) poderia prejudicar o andamento do Pan”.

 

Quinto, omite as críticas à própria cobertura midiática. Houve notas e matérias relatando alguns dos pontos levantados (a Folha de S. Paulo merece menção). Contudo, foram a exceção que confirma a regra e logo caíram no esquecimento, esmagadas pelo clima de euforia da cobertura. Em 13/7/07, dia da cerimônia de abertura do evento, manifestantes de diversos movimentos sociais e organizações protestaram contra o desperdício de verbas públicas no Pan. A mídia burguesa variou entre ignorar, minimizar e ridicularizar esta e outras iniciativas críticas em relação à maneira como o evento foi organizado e aos objetivos a que se prestou.

 

Leia também a primeira parte do artigo. 

 

 

Rafael Fortes é jornalista e historiador e edita o blogue A Lenda.

 

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