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Atentado ou armação? Especialistas dos EUA descartam responsabilidade iraniana Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Terça, 18 de Outubro de 2011
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Chefões da Quds Force, a linha de frente da Guarda Revolucionária, decidem assassinar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA. Autorizados pelas altas autoridades do governo, escolhem um vendedor de carros usados americano-iraniano para ser o agente. Ele contrata uma gangue de traficantes mexicanos para fazer o serviço por 1,5 milhão de dólares, informando ao representante da gangue quem está por trás da operação.

 

A seguir, depois de receber 100 mil dólares, enviados por um banco controlado pela Quds para ser entregue como entrada, o agente encontra-se com o representante do bando. Aí – surpresa! – o cara era um informante do DEA (departamento anti-narcóticos), agindo sob orientação do FBI. Trama desfeita, o agente é preso, enquanto os aiatolás arrancam fios de barba de raiva. The End.

Houve quem achasse esse caso puro 007. Eu acho que está mais para agente 86. O governo americano achou muito sério. Sem refletir, o presidente e seus acólitos apressaram-se a culpar o Irã. Obama falou em unir o mundo para isolar ainda mais o governo dos aiatolás. E brandindo seus raios de Júpiter Tonante, ele ameaçou com as mais duras punições, sem faltar a tradicional “todas as opções estão sobre a mesa”, herdada do governo Bush, que deixa entrever possíveis ações militares.

Assanhados, os políticos do “war party” (partido da guerra) declararam o fato uma declaração de guerra, que precisava ser respondida à altura. Mas, por ora, Obama contenta-se em levar o caso ao Tribunal Penal Internacional (do qual os EUA não fazem parte por temer processos contra seus soldados) e à ONU, em busca de novas e mais pesadas sanções econômicas.

Passado o entusiasmo, no dia seguinte, ele admitiu que, possivelmente, a alta cúpula iraniana não soubesse da trama, mas, de qualquer maneira, teria de ser responsabilizada, pois pelo menos a chefia da Quds Force estaria indubitavelmente por trás da conspiração.
Não é o que acham a maioria dos analistas, experts em Oriente Médio e Irã.

Patrick Coburn, correspondente no Oriente Médio do The Independent, diz : “O anúncio de que o Irã usou um vendedor de carros usados, com condenação por fraude em cheques, para contratar gangsters mexicanos para assassinar o embaixador saudita, vai contra tudo o que eu sei sobre o altamente sofisticado serviço de inteligência do Irã”.

Sobre esse vendedor de carros usados, o cidadão iraniano-americano Mansour Arbabsiar, o New York Times colheu diversos depoimentos de amigos e conhecidos. David Tonscha, ex-sócio numa loja de carros usados: “Ele não era organizado. Ele esquecia os nomes dos carros. Ou diria que (o carro) era um Grand Marquis 89, quando era de 82. E quando eu reclamava, ele respondia: ‘O que é que tem?’ Ele jamais guardaria um segredo. Se você pedisse para ele contar, ele contaria”. Tom Hossein, ex-companheiro de quarto na faculdade: “Ele usava meias que não combinavam... Estava sempre perdendo suas chaves e seu celular. Nunca teria sido capaz de executar um plano assim”.

Segundo apurou, ainda, o New York Times, Arbabsiar viveu 30 anos no Texas, onde casou duas vezes e meteu-se em negócios variados, sempre mal sucedidos, sendo conhecido por abusar da bebida e da maconha. Seu apelido, Jack, vinha do fato de ele ser um grande bebedor do bourbon Jack Daniels.  

Kenneth Katzman, do Serviço de Pesquisas do Congresso, também acha impossível a escolha de Arbabsiar: “O modus operandi iraniano é somente confiar missões delicadas aos seus próprios elementos ou substitutos de confiança total. A idéia de usar um vendedor de carros usados, que não é membro da Quds Force e mora nos EUA há tantos anos, não tem sentido”.

Quanto ao uso do cartel narcotraficante mexicano Zeta, que seria contratado para o atentado, diz Gary Sickles, do Instituto do Oriente Médio da Universidade Columbia: “É difícil acreditar que eles confiariam em uma facção criminosa não islâmica para executar a mais delicada de todas as missões. Seja o que você pensar das falhas do Irã, eles não são conhecidos por negligenciarem a maioria das regras da inteligência, ou seja, jamais discutiriam uma operação tão secreta numa linha telefônica internacional entre Irã e EUA. Eu os acompanhei há 30 anos e eles são muito mais cuidadosos”.

 

Ray Close, antigo chefe da estação da CIA na Arábia Saudita durante anos, fez uma pergunta difícil de responder: “Se você é um agente secreto iraniano, com instruções de matar o embaixador da Arábia Saudita, por que diabo consideraria necessário explicar a um suposto (mafioso) mexicano que o assassinato fora planejado e seria pago por uma organização do Irã?”

Bob Baer, antigo agente da CIA no Oriente Médio, declarou à CNN: “Há muito poucos grupos operacionalmente melhores do que a Quds Force do Irã. Eles sabem o que fazem. Os únicos elementos externos que eles usam são muito bem investigados”.

E Hillary Mann Leverett, ex-conselheira sobre o Irã no governo Bush, é definitiva: “O que estamos vendo não faz sentido em termos da estratégia da segurança nacional do Irã. Não traz benefícios, não traz vantagens agir desta maneira contra Adel Jubeir (o embaixador da Arábia Saudita). E vai contra toda a estratégia de segurança nacional deles”.

A própria oposição iraniana não dá crédito à conspiração desmascarada. Zibakalan, um dos seus líderes, diz: “A troco de que, eles (a Quds Force) poriam o Irã em perigo, dessa maneira? Não é lógico”.

“Quem está por trás disto – dentro ou fora do país - está determinado a criar uma frente internacional contra o Irã”, afirmou Saeed Laylaz, um analista político que foi preso nos protestos contra a eleição de Ahmadinejad. “Os EUA estão gradualmente seguindo um caminho de confronto com o Irã”.

Deixando de lado todos os furos na suposta conspiração, admitidos pela própria Arábia Saudita, acho que convém responder à primeira questão que se coloca diante de um crime: cui bono? Ou seja, a quem beneficiaria?

 

Seria ao Irã?

 

Não me parece. No momento, o governo Ahmadinejad preocupa-se em provar à comunidade internacional, aos países árabes e aos EUA que não são nem violentos, nem irresponsáveis.

 

Eles fizeram recentemente duas excelentes propostas aos EUA e aliados europeus para solucionar o contencioso atômico.

 

Primeiro, dispuseram-se a abrir totalmente suas instalações nucleares para vistorias da Agência de Energia Atômica da ONU.

Diante do estranho silêncio que receberam como resposta, propuseram-se a comprar no exterior todo urânio enriquecido necessário a seus objetivos pacíficos, comprometendo-se a imediatamente parar a produção desse material, caso sua proposta fosse aceita. Por enquanto, não foi.

 

Além disso, Teerã acabou libertando os jovens americanos que faziam turismo nas montanhas da fronteira Irã-Iraque.

 

Todas essas ações de boa vontade devem-se a dois fatores:

 

1) As sanções da ONU estão pesando na economia iraniana;

2) A campanha de guerra que ora se desenvolve em Israel.

 

O governo de Tel-aviv acha-se empenhado em assustar a população judaica com o fantasma das armas nucleares iranianas, para justificar o bombardeio que projetam das instalações do Irã.

 

Nesse contexto seria absurdo, esquizofrênico mesmo, que o governo de Teerã se lançasse a um atentado contra o embaixador da Arábia Saudita. Uma vez que, sendo descoberto, jogaria por terra tudo que Teerã tem feito ultimamente para mostrar bom-mocismo.

 

E por que atacar a Arábia Saudita? Certo que as relações entre o Irã e esse país andam meio estremecidas. Há feridas mal curadas devido à acusação de apoio iraniano às manifestações rebeldes dos xiitas do Bahrein, pais satélite da Arábia Saudita. Porém, o governo de Teerã procura superar esses problemas, pois tem todo o interesse em melhorar seu relacionamento com os países do Golfo, agora que os EUA foram duramente criticados pelo governo saudita por seu veto à independência da Palestina.

 

Preocupado com sua queda nas pesquisas e com a crise econômica, que ele não consegue enfrentar, tendo o Partido Republicano bloqueando as saídas, Barack Obama vê sua reeleição mais do que problemática. A conspiração do vendedor de carros usados caiu do céu. Nada como um bom conflito externo para o povo esquecer seus problemas e cerrar fileiras em torno do seu líder, o presidente. Não acredito que Obama esteja atrás desta bizarra história policial. Mas que a está aproveitando, isso está. Só espero que não se entusiasme muito e vá longe demais, acabando por ceder diante dos tambores de guerra que retumbam ao seu redor.

 

Obama é inocente, mas eu não juraria pela CIA. Ela tem antecedentes. Vide as falsas provas dos planos de Saddam Hussein para construir armas de destruição em massa, que detonaram a Guerra do Iraque.

Não vamos esquecer que o chefe atual da CIA é o general Petraeus, que no comando do exército americano no Afeganistão tentou de todas as maneiras provar que o Irã armava e treinava os talibãs, sem conseguir. Não seria absurdo que ele agora estivesse fazendo nova tentativa.

O Mossad também é outra possibilidade. Recentemente foi acusado de ter assassinado cientistas nucleares iranianos com objetivos óbvios. O governo de Teerã até apresentou na TV um dos assassinos que entregou o Mossad. Você diria que isso não quer dizer muita coisa, afinal o “waterboarding” não é de uso exclusivo do pessoal de Bush...

Acontece que Ehud Barak, ministro da Defesa israelense, ao ser inquirido pela revista alemã Der Spiegel sobre o envolvimento do seu governo no assassinato dos cientistas, apenas sorriu e disse: “Israel não responde”. A revista interpretou como uma resposta.
Não acho necessário explicar porque o Mossad teria interesse em fabricar uma armação, que comprometeria seriamente o Irã diante da comunidade internacional.

No entanto, tanto CIA quanto Mossad são meras especulações. Como também considero assim inculpar eventuais elementos radicais irresponsáveis da Guarda Revolucionária. Só acho estranho que eles desejassem investir contra a Arábia Saudita justamente agora quando o governo de Riad protesta contra o veto americano aos palestinos e ameaça sair da base aliada e tornar-se independente da política externa dos EUA.

A última hipótese que me parece possível é levantada por Hamid Serri, um expert em Irã da Universidade Internacional da Florida, citada pelo New York Times: ”Pode ter sido o trabalho de uma agência iraniana, não da área de inteligência, ou mesmo de uma organização terrorista interessada em criar um confronto que envolva os EUA, o Irã e a Arábia Saudita”. Serri lembra que, embora se falasse em 1,5 milhão de dólares, o dinheiro que entrou foram apenas 100 mil dólares, quantia acessível a qualquer das duas hipóteses por ele levantadas.

Lembro que o MEK, um movimento terrorista iraniano contra o governo, está em campanha para sair da lista do terrorismo do Departamento de Estado dos EUA. Seu principal argumento, repetido por políticos republicanos aliados, é que, como inimigo do Irã, o MEK seria muito útil aos EUA. Logo, quanto mais demonizado for o Irã, com mais simpatia o Departamento de Estado verá as demandas de inimigos dos aiatolás como o MEK.

É bom notar que, saindo da lista negra americana, o MEK terá direito de recolher contribuições dos ricos direitistas do país, gente que tem urticária quando ouve falar em Irã.

Poucos acreditam na veracidade do atentado montado por mãos desconhecidas. Nem, talvez, o próprio Obama. Mesmo assim, depois de tudo que andou falando, ele terá de ir em frente, pedir sanções e mais sanções que, provavelmente, serão derrubadas no Conselho de Segurança da ONU, pela China e a Rússia.

O pior para ele é que esta bizarra intriga internacional poderá reduzir sua credibilidade no exterior, especialmente no mundo islâmico.

O governo iraniano, que está tão desejoso de convencer o mundo de suas boas maneiras, bem que poderia ajudar a solucionar esse caso. Não custava nada fazer uma investigação interna rigorosa, se possível transparente, para verificar se alguns dos aloprados locais foram os culpados de tudo.

O agente 86 agradece.

 

Luiz Eça é jornalista.

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Última atualização em Sábado, 22 de Outubro de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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