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O setembro de 2011: o mais violento da história de Goiânia Imprimir E-mail
Escrito por Frei Marcos Sassatelli   
Sábado, 15 de Outubro de 2011
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O mês de setembro foi o mais violento da história de Goiânia, com 56 homicídios. Das vítimas, 71,42% (a média nacional é de 51,41%) com idade de até 30 anos: cinco (8,92%) com menos de 18 anos e 35 (62,5%) entre 18 e 30 anos. Adriana Ribeiro, titular da Delegacia de Homicídios, diz que não é possível apontar um motivo específico para esse aumento de homicídios em setembro. No entanto, ela cita como motivos - entre outros - as dívidas de drogas e as brigas por ponto de tráfico (Cf. O Popular, 01/10/11, p. 3).

        

Que tragédia! Por que tanta violência e tanto desrespeito para com a vida humana? Por que os jovens são as maiores vítimas dessa violência e desse desrespeito? Por que eles se envolvem com o mundo das drogas e, sobretudo, do crack? Quais as causas?

        

É verdade que o ser humano - por ser histórico (situado e datado) – é fruto do meio ambiente, mas é verdade também que ele faz o meio ambiente. Por isso, não quero negar a responsabilidade pessoal de quem comete atos de violência ou assassinatos (a não ser em casos patológicos), mas, a meu ver, as causas principais destes atos são de caráter estrutural e conjuntural.

 

O sistema capitalista neoliberal, no qual vivemos, é estrutural e conjunturalmente violento. A violência sistêmica é uma violência legalizada e institucionalizada. As pessoas que defendem e sustentam esta violência são consideradas, muitas vezes, pessoas “de bem” e até pessoas “religiosas”, que praticam “a caridade”. São os fariseus de hoje, que cumprem formalmente todas as leis, mas não praticam a justiça. Certamente Jesus de Nazaré diria a estas pessoas: “Raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que vai chegar? Façam coisas que provem que vocês se converteram”. “Se vocês são maus, como podem dizer coisas boas? Pois a boca fala aquilo de que o coração está cheio” (Mt 3, 7-8 e 12, 34).

 

Em outras palavras, o sistema capitalista neoliberal é um “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385), um “sistema nefasto”, porque considera “o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes” (Paulo VI, Populorum Progressio - PP, 26).

 

Podemos dizer que o sistema capitalista neoliberal é "o mal maior, o pecado acumulado, a raiz estragada, a árvore que produz esses frutos que nós conhecemos: a pobreza, a fome, a doença, a morte da grande maioria" (Bispos do Centro-Oeste; Marginalização de um Povo, 1973). Baseado na desigualdade social, ele oprime, marginaliza, exclui e assassina os pobres como material descartável. O importante não é a vida do povo, mas o deus-mercado e os interesses dos seus servidores e adoradores.

 

“Os elementos da violência estrutural são a ausência de infra-estrutura e planejamento urbano dos bairros periféricos, onde às vezes o Estado só se faz presente nas ações policiais; péssimas escolas com baixa qualidade de ensino, o que por si só impede a mobilidade social; hospitais e postos de saúde sem médicos, leitos e remédios, o que veda o acesso à saúde; oferecimento insuficiente de defensoria pública para quem não pode pagar um advogado, o que veda o acesso à Justiça etc. Quem vive e cresce dentro desse sistema de precariedade e exclusão, acaba tendo a percepção de que a sua vida vale menos. É essa precariedade das condições de vida que leva ao aumento de outro tipo de violência, a criminal”.

 

A relação entre o crime e a exclusão social (que na realidade, por ser permanente e estrutural, é um crime muito maior), ou seja, a relação entre a violência estrutural e a violência dita criminal, “constitui uma ameaça para as pretensões hegemônicas das elites econômicas que historicamente impedem a participação das outras parcelas da população na estrutura governamental e concentra a administração do Estado dentro do seu grupo social.

 

Assim, conseguem tirar dele ainda mais benefícios, vetando ao restante da população os privilégios que ela recebe do Estado e fragilizando a estrutura social daqueles que realmente dependem desses benefícios. O resultado é a precariedade dos serviços públicos destinados à população de baixa renda, que não pode pagar por eles.

 

Para evitar a associação da criminalidade com a violência estrutural, as elites usam como instrumento, através da mídia, que lhes pertence, a construção de um senso comum, uma visão de mundo onde a criminalidade é a violência em si, e não uma conseqüência de outro tipo de violência”.

 

Esse senso comum não considera a violência estrutural como causa da violência dita criminal, mas como simples incompetência dos governos responsáveis e, por conseguinte, como uma fatalidade.

 

- "Morreu na fila do Pronto Socorro? Chegou a hora dele, fazer o quê?".

 

- "O filho deixou a escola? É que ele não tinha inclinação para os estudos”.

 

- "Está desempregado? É acomodado, preguiçoso, não se especializa”.

 

- “Sofreu constrangimento ou abuso da autoridade policial? Ficou dando "sopa" 

   na rua até tarde da noite”.

 

Ao mesmo tempo, a mídia cobra com urgência ações mais “efetivas” contra a violência criminal e legitima o aumento da repressão policial contra aqueles que o Estado já havia excluído. “Os violentados se tornam os violentos”.

 

“A violência delinqüencial não é um fenômeno uniforme, monolítico, que se abate sobre a sociedade como algo que lhe é exterior. Pelo contrário: Ela é polifórmica, multifacetada, encontrando-se diluída na sociedade sob as mais diversas manifestações, que se interligam, se interagem, se realimentam e se fortalecem”.

        

Até hoje, nenhum governo “teve como prioridade a educação e o bem estar de todos os brasileiros porque nenhum deles foi eleito para isso. Suas prioridades são outras e as do grupo que o elegeu também. Quase todo candidato a cargos eletivos tem nos discursos sobre a segurança pública o seu ponto forte, porque sabe que rende muitos votos, mas seu compromisso é com a segurança do seu grupo e com a manutenção dos seus privilégios.

 

As áreas sociais e educacionais não estão entre eles” (Eduardo E. S. Prado. Violência Estrutural e Violência Criminal. Em: www.ideiaseensaios.com.br. Citando: Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. A concretização de políticas em direção à prevenção da violência estrutural, 2007).

        

Em nossa sociedade moderna, é urgente: denunciar, alto e bom som, as "situações de pecado" (DA, 95), as "estruturas de pecado" (DA, 92, 532) e as "estruturas de morte" (DA, 112); colaborar "com outros organismos ou instituições para organizar estruturas mais justas nos âmbitos nacionais e internacionais; criar novas estruturas que consolidem uma ordem social, econômica e política, na qual não haja iniqüidade e onde haja possibilidades para todos. Igualmente, requerem-se novas estruturas que promovam uma autêntica convivência humana (…)" (DA, 384).

        

Adriana Ribeiro, titular da Delegacia de Homicídios, reconhece que a nossa sociedade não tem uma estrutura apropriada para enfrentar o aumento de homicídios e afirma: “Tem de se tentar tirar os jovens das drogas, o que se dá através de políticas públicas” (O Popular, Ib.). Infelizmente, o que temos hoje de políticas públicas é um paliativo, é um faz-de-conta.

 

Quando será que o poder público - municipal, estadual e federal - cumprirá a Constituição Federal? Ela nos lembra que os direitos das crianças e dos adolescentes devem ser assegurados "com absoluta prioridade" e que as crianças e os adolescentes devem ser colocados a salvo "de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão" (Art. 227).

 

A Constituição Federal afirma que os estados e os municípios devem aplicar anualmente

“vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino” (Art. 212). Reparem: a Constituição Federal reza: “no mínimo”. Isso quer dizer que, se houver necessidade, o Estado pode e deve aplicar mais.

        

A Constituição Federal afirma também que o direito à educação, entre outros direitos, deve ser assegurado à criança e ao adolescente, “com absoluta prioridade” (Art. 227. Ora, se o direito à educação deve ser assegurado “com absoluta prioridade”, mesmo que faltem verbas para outras obras, nunca deveriam faltar para a educação. Em caso contrário, não se trataria de “absoluta prioridade”.  

 

Sempre a respeito da educação, a Constituição Federal diz ainda: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. 205).

 

Precisamos retomar a “Campanha Nacional Contra a Violência e Extermínio de Jovens”, lançada pelas Pastorais da Juventude da CNBB em 2009, e unidos gritar: “Chega de Violência e Extermínio de Jovens”.

 

Enfim, precisamos, com muita fé e esperança, abrir caminhos novos que

façam acontecer um projeto alternativo (popular) de sociedade e um outro mundo possível.

 

 

Frei Marcos Sassatelli, Frade Dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e membro da Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO, Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia e administrador paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra.

 

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