Jornal da Ditabranda desqualifica a Comissão da Verdade

 

 

A Folha de S. Paulo se tornou cautelosa com seus editoriais reacionários, depois que alguns deles tiveram o efeito de devastadores bumerangues - o da ditabranda, por exemplo, foi um dos piores tiros pela culatra que um jornal já deu.

 

Então, para ajudar seus antigos parceiros a se livrarem do merecido opróbrio, como já se livraram da merecida prisão, o Grupo Folha agora recorre a uma enrolação um tantinho mais sofisticada para desqualificar a Comissão da Verdade:

 

“...Não cabe a um organismo indicado pelo Executivo (...) estabelecer 'a Verdade', com 'V' maiúsculo, neste ou em qualquer assunto que seja.

 

...É irrealista supor que, no exíguo prazo de dois anos, uma comissão de 7 membros e 14 auxiliares, como estabelece o projeto, venha a levantar todos os casos de violação aos direitos humanos.

 

Em que medida (...) estariam contemplados representantes e defensores do próprio regime militar? Sua presença, não é exagerado supor, traria dificuldades e entraves ao trabalho da comissão. Sua ausência, por outro lado, abriria o flanco a acusações de parcialidade nas investigações.

 

A Comissão da Verdade cumpriria melhor seu papel, a rigor, se estabelecesse as condições mais amplas possíveis para o acesso dos cidadãos a documentos do período.

 

Investigações independentes, feitas por organizações, pesquisadores e jornalistas sem vínculos com o Estado, constituem no melhor mecanismo para se chegar mais próximo de um ideal nunca definitivo, a verdade histórica. Esta não é monopólio de nenhum colegiado oficial, por mais imparcial que seja”.

 

Racionália infame

 

Esta racionália infame parte do pressuposto de que haveria duas versões em pé de igualdade, a serem levadas imparcialmente em conta: a dos torturados e a dos torturadores. É a tese do DEM, partido que remonta à antiga Arena, avalista de atrocidades e genocídios.

 

No entanto, a civilização adota critérios bem diferentes. Começando pela ONU, que recomenda aos países saídos de ditaduras a apuração rigorosa dos crimes cometidos pelos déspotas e seus esbirros, a punição exemplar dos responsáveis, a indenização das vítimas e a criação de mecanismos institucionais que dificultem a recaída nas trevas.

 

O Brasil, a rigor, não fez nem metade da lição de casa. Concedeu reparações aos torturados, lesionados física e psicologicamente, estuprados, prejudicados em sua carreira e em todas as esferas de sua vida. Mesmo assim, sob uma enxurrada de ataques falaciosos das viúvas da ditadura, de seus discípulos e dos seus bobos úteis.

 

A apuração dos crimes só se deu em termos de reconhecimento e quantificação de direitos gerados para as vítimas ou seus herdeiros, por meio das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos.

 

Punido, nem o pior dos carrascos foi. Zero. Com a omissão do Executivo e do Legislativo. E com a cumplicidade da mais alta corte do país, que produziu em abril de 2010 uma das decisões mais escabrosas de sua História, fazendo lembrar os juristas franceses da República de Vichy, que colaboravam com os nazistas (vide o ótimo filme de Costa Gravas, Seção Especial de Justiça).

 

Os antídotos ao golpismo também foram descurados. Tanto que a caserna continua sendo até hoje uma espécie de quarto poder e apita mais do que os outros três em determinados assuntos - como o de passarmos ou não a limpo o festival de horrores dos anos de chumbo.

 

Seu veto à revogação da anistia que os verdugos concederam previamente a si próprios em 1979 garantiu a impunidade eterna das bestas-feras do arbítrio. E sua resistência ao resgate e exposição da verdade é que está levando aos contorcionismos ridículos e concessões absurdas que marcam a gestação da Comissão respectiva.

 

A saída da ditadura pela porta dos fundos em 1985, mediante conluio da oposição com situacionistas que abandonaram a canoa furada para se manterem no poder (Sarney à frente), impediu que houvesse uma verdadeira redemocratização do país e nos legou a situação anômala que nos faz motivo de pilhérias no mundo civilizado. Estamos sendo os últimos e os mais tímidos no acerto das contas do passado infame.

 

Última chance

 

A Comissão da Verdade, que em suas linhas mestras fui dos primeiros a defender, é a última chance de deixarmos estabelecido, como veredicto oficial do Estado brasileiro, o repúdio ao golpismo, à ditadura, ao estupro dos direitos humanos.

 

Caso contrário, os totalitários continuarão podendo alegar impunemente que em 1964 foi dado um contragolpe preventivo e que ambos os lados cometeram excessos equivalentes durante os anos de chumbo.

 

E nada vai impedir que se batizem ruas e praças com os nomes de sérgio paranhos fleury, emílio garrastazu médici e outros que tais (as minúsculas são intencionais).

 

É discutível que se consiga avançar muito, com mais de um quarto de século de atraso e depois da diligente destruição de arquivos por parte de quem tinha esqueletos no armário, no esclarecimento de episódios ainda obscuros.

 

Mas, apenas reunir o que já se apurou numa espécie de balanço final do período já dará aos democratas um trunfo poderoso nos embates políticos do presente e do futuro.

 

Pois, a esta altura, só nos resta tentarmos criar anticorpos para que nunca mais o Brasil mergulhe nas trevas tirania e da barbárie. Nem isto o jornal da ditabranda admite.


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político.

Blog: http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

 

Comentários   

0 #1 A Que Ponto ChegamosRaymundo Araujo Filh 01-10-2011 12:16
Celso Lungaretti não um "pipa voada" que escreve artigos a esmo, sem ter traçado uma estratégia, segundo o pouco que conheço dele pessoalmente e muito de atuação de escriba político.

Por isso, é preciso contextualizar este artigo dele, atacando A Folha de São Pulo, realmente um órgão de imprensa sofrível, tendencioso (mas com fachada de isento, e coisa e tal), até porque não é só A Folha de São Paulo e comentaristas como Ricardo Noblat que contestam esta panacéia mentirosa do governo que esta Comissão da verdade, para esconder a verdade integral.

Este ataque à esta comissão governista, dentro de um contexto claro de TOTAL submissão de DiLLma (assim como foi Lulla) aos militares remanescentes da ditadura, na da mais é do que a comprovação do que bvenho aqui (e allhures) escrevendo, denunciando que os governos petistas permitiram que conservadores de marca maior, se apropriassem de bandeiras justas, até pela obviedade que elas encerram, como são esta do acerto com o passado, a corrupção desenfrada (Lungaretti acha que combater a corrupção é coisa da direita, citando Paulo Francis, em uma desvirtuação, a meu ver, oportunista, do alerta a ser feito contra o uso indevido desta bandeira), entre outras.

Não acho pouco importante que A Folha e eméritos corruptos e entreguistas façam uso de bandeiras históricas e se aproveitem de projetos iníquos como este gestado e imposto pelo Clube Militar sobre a Comissão Governista da Verdade.

Mas, este aproveitamento sórdido por um jornal que apoiou a ditadura e a chamou recentemente de ditabranda, não faz migrar minha solidariedade a este governo gestado na AFL-CIO com Lulla, e gerenciado de fora prá dentro, com DiLLma.

Ao contrário, me faz combatê-lo ainda mais, com o "plus" de ser um instrumento promotor da Confusão programada, colocando na boca e na pena de gente que não tem compromisso algum com a verdade, os clamores pela sua investigação.

Mas, o artigo de ricardo Noblat, corrobora intensamente a entrevista da dep. Luíza Erundina (http://titaferreira.multiply.com/calendar/item/11993) sob o título Submissão Incondicional aos Militares. Note-se que a dep. Luíza erundina é do PSB, portanto da Base Aliada mas, como demonstra, não perdeu nem a dignidade e nem o senso do ridículo, appoiando esta comissão, como faz Celso Lungaretti, e pior, usando a Direitosa A Folha de São Paulo como escudo.

E, pior ainda, se oferecendo para fazer parte desta comissão, defendendo os bons princípios que ele achha que permeiam as intenções da presidente diLLma, a chamando inclusive de "minha companheira de organização", sem sequer levar em conta que uma atuação muito expoente, certamente o levaria a ser demitido pela presidente-companheira-de-orga nização, dona inconteste (não por mim) dos destinos desta que deveria ser uma Comissão Independente dos Poderes da república.

E não precisa chamar de "Manifestozinhos" o abaixo assinado emitido pelo Grupo Tortura Nunca Mais e de "fuga da luta" as razões da dep. Luíza Erundina, pois falta de respeito tem limites.

O Brasil é o país onde faz-se a granel a Política "Parece Que é Linho, Mas é LINHOLENE" - uma toalha de plástico vagabunda anunciada pela vedete dos anos 60 (agora certamente com mais de 60) a encantadora Neide Aparecida).
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