Halloween é o c...

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Alguns anos atrás, surgiram no Rio de Janeiro cartazes em muros, pilares de viadutos e outros locais bem visíveis de passagem do povo, onde se podia ler: “Halloween é o c...”, inclusive com a palavra chula à mostra. Apesar de não aprovar o uso de palavrão, compreendo a angústia do autor. Sobre o mesmo tema, lembro-me do amigo que, ao ver um cartaz na escola do filho convidando pais e alunos para a festa de Halloween, foi reclamar com a coordenadora que aquela não era uma tradição brasileira. Ela ficou pensativa e lhe disse: “O senhor tem razão, nós vamos corrigir!”. Ele saiu contente imaginando: “Vão criar, provavelmente, a festa do Saci-Pererê”. No dia seguinte, ao deixar o filho na escola, notou que o cartaz estava mudado. Tinham trocado “Halloween” por “Dia das bruxas”.

 

O prefeito do Rio lança o “Bus Rapid System”, os jovens vêem “Two and a half man” e o canal de televisão oferece o seu “pay per view”. Entretanto, estes anglicismos citados não representariam nenhuma ameaça se não estivessem presos a um gigantesco iceberg, do qual são uma pequena parte da ponta visível. Um exemplo mais palpável da subserviência cultural ocorre quando o BNDES empresta dinheiro a juros subsidiado a empresas estrangeiras. Ou quando o Brasil abre nossa cabotagem a navios de qualquer bandeira, enquanto os navios brasileiros, se quiserem fazer transporte de cabotagem na costa americana, por exemplo, não podem.

 

Outro amigo, recentemente, me disse: “Os Estados Unidos são o país mais azarado do mundo, pois, se chega na Terra um extraterrestre, alien, predador ou poltergeist, qualquer que seja a coisa ruim, só aparece lá”. Constatações deste estilo parecem irrelevantes, mas são reveladoras de como a sociedade americana se vê inserida no mundo. A cultura americana acata a visão “americanocêntrica”, onde, simbolicamente, os Estados Unidos são o centro do planeta e, em torno dele, gravitam os demais países. Não questiono o poderio econômico, tecnológico e militar dos Estados Unidos. Questiono somente a ordenação de valores por esta sociedade estabelecida, que querem nos impingir.

 

Creio que o momento exato em que o Brasil perde a possibilidade de crescer muito, quando poderia vencer o atraso de desenvolvimento, é aquele em que o povo abre mão da sua dignidade e deixa de se enxergar como um povo. Ele passa a se ver como uma cultura auxiliar da “grande cultura”, enfim, ele abdica do desejo de crescer soberanamente e se coloca como um povo subordinado. Esta efetiva dominação, que estou chamando, na falta de um nome mais apropriado, de dominação cultural, torna prescindível a militar.

 

Querem nos fazer crer que a globalização humilhante é a única existente, mas não foi esta exatamente a que fez a China crescer a taxas de 10% ao ano, durante muitos dos últimos anos. Globalização, significando maior interação comercial e cultural, desde que não se chegue à subordinação de um povo por outro, é muito bem-vinda. Insisto em dizer que a dominação cultural, que ocorre nas nossas cabeças, é que nos faz sair em desvantagem em qualquer competição. É conseqüência do “complexo de vira-latas”, tão bem identificado por Nelson Rodrigues e incutido por quem lucra muito com ele. É óbvio que, além dos agentes externos, a classe mais rica da nossa sociedade, com algumas exceções, viu nesta dependência um caminho mais seguro para a perpetuação da sua riqueza e, portanto, não tem apoiado o projeto nacional soberano. A meu ver, um erro de avaliação, além de um enorme desprezo pelo conjunto da sociedade.

 

A mídia do capital, aquela que influencia a grande massa brasileira, sempre foi disseminadora da subserviência cultural, do “complexo de vira-latas”. E, agora, com a recém aprovada arquitetura de comunicação de massa que permite a entrada do capital estrangeiro no setor, a dominação das mentes brasileiras tenderia a piorar. Mas, afirmam que tal permissão só vai tornar claros os acordos escusos já existentes. De qualquer forma, tenho receio de, no futuro, vir a sentir saudade das novelas atuais, apesar de não as assistir, pois podem ser substituídas por programas bem piores para efeito de dominação da sociedade brasileira.

 

Não somos “vira-latas”, pois, quando decidimos fazer, conseguimos, a exemplo do que Petrobras, Embrapa, Fiocruz e Embraer conseguiram. Este assunto dá margem a inúmeras outras considerações, no entanto, para poder dar um fecho momentâneo ao texto, lanço só uma proposta para crítica. À medida que o povo está com sua cabeça dominada; o bloqueio da mídia convencional às teses libertárias é total; os políticos, com exceções, estão vendidos para capitais nacionais e estrangeiros; a presidente, que não está vendida, está pressionada por todos os lados e precisaria ter, como contraponto, respaldo popular em várias questões; e este respaldo é muito difícil de ser conseguido graças ao citado bloqueio da mídia, entre outras coisas, só resta a tática da guerrilha, que consiste na busca da vitória em cada confronto menor.

 

Então, sugiro o começo desta tática da forma que julgo mais importante, ou seja, lutando pela reconstituição das proteções e privilégios para a empresa brasileira de capital nacional, cujo grande usufrutuário será a sociedade brasileira. Elas compram mais no país, contratam mais engenharia e desenvolvimentos tecnológicos aqui, empregam mais brasileiros e seus lucros, na grande maioria das vezes, ficam no Brasil. Aliás, passaríamos a agir como os países desenvolvidos agem em relação a suas próprias empresas.

  

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia.

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