A tragédia e o seu ambiente

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Tragédia é tragédia. Diante dela, o primeiro impacto sobre o cidadão é o da dor indizível dos familiares das vítimas do desastre, o maior até agora registrado na história da nossa aviação. O desaparecimento abrupto de valiosas vidas humanas é uma explosão de sentimentos que se espalha para muito além das labaredas do sinistro. O quadro de comoção pública, tecido nas malhas da humana solidariedade, se expressa como dor coletiva diante da brutalidade do acontecimento.

 

Entre as muitas declarações recolhidas nos jornais, por sobre a mudez das autoridades maiores, uma chama particular atenção. É a de um ex-piloto da aviação civil, agora escritor, que afirmou: “a tragédia é um grito do sistema doente”. Faz sentido e suscita reflexões. As investigações, sempre demoradas, sobre as causas concretas do desastre são tarefas para especialistas. Sobre elas se depositam as esperanças de que providências específicas sejam tomadas, mas seu escopo é limitado: elas atuam sobre o “grito”.

 

Sobre a “doença do sistema”, o ambiente gerador deste e de outros desastres, não carece aguardar a conclusão das demoradas investigações para a tomada de posições, que são tarefas da cidadania. Os indícios do desacerto são por demais portentosos. A crise definida como “apagão aéreo” é apenas uma das muitas manifestações desta quadra terrível, marcada pela privatização e amesquinhamento do poder público.

 

A supremacia absoluta do poder público, indispensável ao ordenamento dos contraditórios interesses privados, é vista como um estorvo ao dinamismo dos negócios. Os que monopolizam os pontos fortes do poder privado capturaram o cerne do Estado e subordinam as estruturas deste aos seus desígnios imediatistas. Operam movidos pela busca do lucro farto e rápido, são fortes, muito organizados e estão nadando de braçada. A cada desacerto provocado pelo “espírito animal” da privataria, ao invés de se inibirem, postulam como saída mais privatizações. É a ideologia dominante.

 

As agências reguladoras, não apenas no setor aéreo, ao invés de regular são reguladas pelos poderosos interesses privados. As tarifas cobradas com finalidades específicas, não apenas no setor aéreo (vide o exemplo maior da CPMF), são contingenciadas para alimentar a roleta vertiginosa do cassino financeiro. Os famosos “gargalos” (setor energético, saúde, educação, segurança, estradas, portos e aeroportos) continuam empacados. E quando são aplicados em obras, os recursos seguem a mesma lógica da máquina mercante. As tabuletas do comércio brilham no chão de mármore dos aeroportos, na mesma medida em que falta dinheiro para o essencial: segurança das pistas, substituição dos equipamentos obsoletos, salário digno para os controladores. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

 

Os governantes, todos, fazem cara de paisagem e operam sobre o fato consumado. No fragor das tragédias, simulam providências. Não governam, são governados. Prisioneiros da ótica privada, eles se afastam da ética pública. Intermedeiam negócios e fazem fundos de campanha. O resultado é este que aí está. A cratera do Metrô, em São Paulo, e a explosão de Congonhas são os exemplos mais recentes da perversa parceria, público-privada, da tragédia e o seu ambiente.

 

 

Léo Lince é sociólogo.


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