A Europa e os desafios da esquerda

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É uma grande esperança que uma verdadeira esquerda esteja novamente se levantando na Europa. Entretanto, de forma geral, a esquerda européia passa por uma encruzilhada. As recentes mobilizações em países como Grécia, Espanha e Inglaterra estão dizendo em alto e bom som um “Basta!” às políticas de austeridade que tendem a destruir o Estado de Bem Estar Social construído a partir do pós-guerra - e, por ora, nada mais. Em última análise, tem-se muito a perder e não se sabe em que direção avançar. Tais mobilizações expressam uma autêntica raiva que não consegue se transformar num programa positivo de mudança sócio-política. É claro que estes movimentos estão dando uma contribuição decisiva na abertura de novos espaços de auto-organização, mas o que fazer quando o entusiasmo das multidões se esgotar está ainda completamente em aberto. O que agrava esta situação é ainda a repolitização da extrema-direita que, a cada manifestação popular, ganha novos adeptos. É um momento de novas polarizações.  

 

É certo que o modelo neoliberal está numa profunda crise. Coloca-se em questão uma nova seqüência política para além do neoliberalismo como horizonte de ação sob novas formas de organização social. Porém, ao mesmo tempo em que a luta institucional é na maioria das vezes rechaçada, ainda não se vê como ligar a política com o povo. Tudo se passa como se a política fosse feita apenas por profissionais que estão enormemente distantes das ruas. Quando os manifestantes iniciam o debate sobre o que fazer depois do mero protesto, o consenso continua sendo que não é necessário um novo partido ou alguma disputa real com o poder estatal. No caso grego e espanhol, em especial, o movimento tem como objetivo criar uma pressão sobre os partidos políticos sem querer sujar as mãos com as disputas que podem se perder na política institucional dominante. Existe um medo de dar o passo crucial da politização, do risco inerente em querer modificar as regras do jogo.

 

Este medo de politização das manifestações sociais vem em parte do estado deplorável em que a esquerda institucional se encontrava bem antes da situação atual. A esquerda tenta se reconstruir a partir de um estado de bancarrota política. Ela vinha perdendo toda capacidade de representação das lutas sociais ou de organização dos movimentos de emancipação numa progressiva desintegração ideológica. Aqueles que a encarnavam nominalmente eram apenas espectadores e, pela falta de audiência popular, exerciam meramente um papel de comentaristas impotentes diante de uma crise para a qual não propõem nenhuma resposta coletiva. Em suma, estamos num momento dramático na esquerda, que muitas vezes se auto-enclausura em reivindicações como “mais tolerância”, “mais direitos humanos”, “mais democracia”, continuando nos horizontes da social-democracia clássica, ao mesmo tempo em que as novas mobilizações abrem espaço para políticas combativas, mas ainda sem forma e conteúdo.

 

Enfim, a crise da esquerda não diz respeito apenas ao declínio dos movimentos marxistas em todo o mundo, mas à falta de uma estratégia numa escala de tempo extensa que consiga lidar com os enormes desafios que temos pela frente. Essa estratégia passa por uma nova concepção de partido, pela superação do horizonte democrático, pelo fortalecimento dos agentes extra-institucionais, novas formas de organização de base e, não menos importante, uma luta ideológica rumo à reconstrução do projeto de emancipação no século XXI. Estamos num período em que o velho está morrendo aceleradamente (numa mutação sem precedentes) em conjunto com as dificuldades das dores do parto do novo que, aparentemente, não está tendo fôlego para lidar com os desafios históricos contemporâneos.

 

De qualquer forma, são momentos interessantes, que dão um refresco num continente tomado por governos de direita. Entretanto, o que vale frisar é a situação extremamente contraditória e reativa. É normal ser contra o estado de coisas, mas não se tem muita idéia sobre o que se é a favor. Por mais que por vezes se fale de “revolução” para caracterizar estes movimentos, ela só poderá ter um sentido real quando estiver vinculada à política.      

 

Fernando Marcelino é analista internacional. E-mail : Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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