Estados Unidos: o oportunismo eleitoral dos democratas

 

Nas duas últimas décadas, é inegável a transformação negativa dos partidos políticos oficialmente socialistas ou social-democratas. Desnorteados com o desmoronamento do comunismo europeu, optaram eles por acatar, em vista da sobrevivência eleitoral no curto prazo, diretrizes dos vencedores, materializadas em prescrições neoliberais – curiosamente, centraram-se nas econômicas, não nas tradicionalmente políticas por meio das quais a liberdade tem sido mais valorizada desde o século XVIII.

 

Apesar da conversão ao ideário conservador, eles beneficiam-se perante o eleitorado progressista por conta da intensidade da alteração comportamental à direita. Em um final da campanha, ao avaliar duas candidaturas, não mais projetos, o eleitor, decepcionado ou mesmo desiludido, ratifica por comodidade o menos reacionário, por conta de uma recôndita esperança de que poderia haver uma mínima transformação social.

 

Os neoconvertidos ao liberalismo ainda conseguem confundir muitos cidadãos, ao afirmar que políticas sociais compensatórias seriam, no curto prazo, o início de um longuíssimo caminho para modificações mais profundas. De fato, melhoras ocorrem, mas são de curto efeito, limitadas ao consumo cotidiano, não se estendendo à educação, saúde, emprego ou infra-estrutura em torno do local de residência, por exemplo.

 

O comportamento não tem sido específico de um país ou de uma região, haja vista ocorrer na antiga esfera socialista no leste europeu, na área tradicionalmente socialdemocrata na Europa ocidental e no campo normalmente trabalhista na América do Sul, o que inclui de forma obrigatória o Brasil. Nos Estados Unidos, a sociedade acostumou-se a enxergar nos democratas o progressismo, com destaque a partir dos anos 60.  

 

Em 2012, Partido Democrata espera lograr entre os eleitores, em especial o indeciso ou o novo, apoio para a reeleição de Barack Obama. Deste modo, a idéia subjacente é mostrar-se aos possíveis votantes como uma administração menos distante dos anseios populares. Facilita seu projeto o comportamento do Partido Republicano, com candidatos à disputa cada vez mais à direita.

 

Assim, o resultado provisório na política externa é apresentar uma guerra em encerramento, a do Golfo, sem importar-se muito com a continuidade dos efeitos deletérios à população de lá; um presídio, o de Guantánamo, em desativação, mas com detidos em outros cárceres sem perspectiva de julgamento.

 

Por último, uma lei em vigor, a Patriota, o que proporciona a execução de medidas administrativas excepcionais, mas consideradas incorporadas ao dia-a-dia, em decorrência de seu indefinido prolongamento. Com isso, a sociedade adapta-se a um mandato em Washington menos transparente nos assuntos de segurança e de diplomacia.   

 

Na parte interna, os titulares do Executivo atuam de maneira similar há anos, sem importar o estandarte partidário. É a transformação de valores de governo em de Estado, o que significa a ausência de contestação entre a elite norte-americana. Em vista disso, partilhou-se a conta da crise de 2008 com toda sociedade, com poucas punições a seus responsáveis.

 

O resultado da sustentação do mesmo modelo econômico é a recuperação modesta do Produto Interno Bruto – em 2008, último ano do governo de George Bush, ele foi 14 trilhões e 291 bilhões de dólares; em 2009, 13 trilhões e 939 bilhões; e em 2010, 14 trilhões e 526 bilhões - http://www.bea.gov/national/xls/gdplev.xls .

 

A despeito da oportunidade histórica, Barack Obama preferiu a cautela, no caso conservadorismo, na escolha da equipe governamental, a datar de janeiro de 2009. Pinçou mesmo nomes da administração predecessora como na área da Defesa. A conseqüência até o momento não tem sido virtuosa.  

 

Por exemplo, na economia, ele indicou para a chefia da assessoria econômica Lawrence Summers, favorável à ampla desregulamentação quando titular da pasta da Fazenda durante parte (julho de 1999 a janeiro de 2001) da gestão Clinton.

 

Na Defesa, sustentou a permanência de um nome republicano histórico, o de Robert Gates, Diretor da CIA sob George Bush, Sr., e Secretário de Defesa, sob Bush Jr. A justificativa para sua continuidade no cargo teria decorrido de um perfil administrativo contido diante da belicosidade dos neoconservadores.

 

Isso teria sido necessário na transição de outra conduta militar: o encerramento da presença no Iraque e o reforço no Afeganistão. Dois anos e meio depois, uma e outra não se materializaram de forma eficiente. Gates deixou o cargo em julho, ao ser sucedido por Leon Panetta, até então diretor da CIA. 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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