O exemplo da China

 

 

 

Comparando a evolução do Brasil e da China, pode-se dizer que hoje o Brasil se encontra na mesma fase da China nos anos 1980, quando começou a desenvolver sua indústria moderna. Naquela década, a China não possuía produtos exportáveis, nem agrícolas, nem minerais ou semimanufaturados. Tampouco possuía equipamentos industriais modernos com os quais pudesse desenvolver suas manufaturas.

 

Se hoje a participação da indústria na economia brasileira é de 14,8%, na China essa participação, em 1980, era pouco superior a 10%. Talvez as únicas vantagens da China, na época, em relação ao Brasil de hoje, tenham sido o pleno emprego e a inflação baixa. Associadas a um racionamento sobre número considerável de bens de consumo, essas vantagens permitiram à China uma taxa de poupança elevada. O que lhe propiciou, ao abrir a economia para diferentes tipos de propriedade, contar com dezenas de milhões de investimentos em pequenas empresas de tecnologias tradicionais.

 

Porém, para instalar um grande parque industrial e evitar redescobrir a roda, a China teve, então, que apelar para poupanças e tecnologias estrangeiras. Com esse objetivo, criou políticas específicas, mas articuladas. Elaborou um guia de atração de investimentos estrangeiros, favorecendo aqueles voltados para o adensamento de suas cadeias produtivas industriais, só aceitando os que introduzissem novas ou altas tecnologias, se associassem em joint venture com empresas estatais chinesas e tivessem toda a sua produção voltada para o mercado externo.

 

Paralelamente, a China estipulou uma política seletiva de importações, facilitando a entrada de máquinas, equipamentos e tecnologias que contribuíssem para a construção industrial, e colocando diferentes obstáculos para a entrada de importados que não tivessem participação nesse objetivo. Mesmo assim, durante todos os anos 1980, a China amargou déficits constantes em sua balança comercial. No entanto, seus governantes tinham consciência de que, sem amargar tal déficit, não teriam condições de importar as máquinas e equipamentos que podiam alavancar sua produção industrial.

 

Ao contrário da China daquela época, o Brasil tem vantagens incomparáveis. Embora a indústria brasileira tenha sido abalada pelos anos destrutivos do neoliberalismo, e tenha ficado relativamente defasada, ela produz uma gama considerável de semimanufaturados e manufaturados, e é capaz de produzir algumas das máquinas e tecnologias necessárias ao seu desenvolvimento. Além disso, o Brasil possui commodities minerais e agrícolas exportáveis em abundância. Isto pode contrabalançar os custos com as importações das máquinas, equipamentos e tecnologias necessários à sua industrialização, e até mesmo manter superávits comerciais.

 

Portanto, nós não precisamos amargar os déficits comerciais sofridos pela China durante uma década. Porém, não podemos nos desenvolver sem importar máquinas, equipamentos e tecnologias, e sem contar com investimentos estrangeiros diretos. Há uma série de máquinas de fabricar máquinas, cujas tecnologias não possuímos, e reinventá-las pode significar um custo bem mais alto do que importá-las. E, entre 2000 e 2010, o máximo que conseguimos foi uma taxa de investimento, em relação ao PIB, de apenas 17,4%. Com uma taxa dessas, o máximo que o Brasil conseguirá será manter um vôo sustentável de galinha.

 

Bem vistas as coisas, o que nos falta hoje, e não faltou à China daquela época, são políticas consistentes, tanto de seleção de importações, quanto de atração de investimentos diretos.

 

Por um lado, precisamos facilitar a entrada das máquinas, equipamentos e tecnologias que jogam papel estruturante no processo de industrialização. Por outro, precisamos coibir a especulação financeira promovida pelos investimentos estrangeiros de curto prazo, reduzir os juros, estabelecer uma política cambial que funcione como instrumento de industrialização, favorecer os investimentos diretos que adensem as cadeias produtivas estratégicas, restringir os investimentos em áreas secundárias e proibir investimentos em áreas sensíveis, como os que agridem ao meio ambiente.

 

É verdade que nos últimos quatro anos os investimentos estrangeiros diretos aumentaram, mas os dados a respeito são confusos. Por exemplo, alguns falam que 95% dos investimentos estrangeiros foram para produtos básicos de exportação, incluindo nesse rol os semimanufaturados e os investimentos para a produção de petróleo. Desdenham o fato de que, quando falamos em petróleo, temos que incluir necessariamente o parque industrial de alta tecnologia que esse setor demanda.

 

Investimentos em petróleo podem estar relacionados à construção de estaleiros e plantas de fabricação de sondas, brocas, tubos e outros equipamentos e componentes, sem os quais a moderna exploração e produção de petróleo não se realiza. Assim, sem ter uma noção apropriada de onde serão investidos os 10 bilhões de dólares emprestados pelo Banco de Desenvolvimento da China à Petrobras, não tem sentido criticar os chineses por terem fornecido esse crédito.

 

Na verdade, neste caso, como em outros, parece estar funcionando uma central de desinformação sobre o que realmente está ocorrendo em relação aos investimentos no Brasil, culpando-se os chineses sobre a falta de direcionamento de tais investimentos para os setores que realmente são chaves para o desenvolvimento industrial brasileiro.

 

Basta notar que boa parte das informações sobre os investimentos chineses omite que eles também estão voltados para a implantação de parques de máquinas de construção pesada, equipamentos de petróleo e de transportes, siderúrgicas e várias outros setores industriais.

 

Desse modo, as propostas recorrentes para enfrentar o que chamam de ameaça chinesa parecem não levar em conta tais investimentos, nem a realidade de ambos os países. Por exemplo, algumas sugerem que o Brasil deva exigir que a China abra o seu mercado para produtos manufaturados brasileiros. Fingem ignorar que o acesso ao mercado chinês, como a qualquer outro mercado, depende da competitividade dos produtos, em termos de qualidade e preços, e não de medidas administrativas de Pequim.

 

A experiência da própria China é elucidativa. Ela só conseguiu ingressar no mercado internacional de produtos manufaturados quando sua indústria passou a ofertar, no início dos anos 2000, não só preços mais baratos, mas também qualidade internacional. E só iniciou sua verdadeira corrida de investimentos no exterior a partir de 2004, quando seus excedentes de capitais começaram a alcançar níveis que pressionavam em demasia as taxas internas de investimento, as matérias primas, os transportes e a inflação.

 

As empresas brasileiras só poderão se beneficiar das oportunidades do crescimento do mercado chinês quando tiverem capitais e tecnologias que as capacitem a disputar tal mercado. O que significa concorrer não apenas com as empresas chinesas, mas também com as corporações transnacionais presentes no mercado doméstico chinês, a exemplo do que fazem as brasileiras Embraco e WEG, além dos calçadistas gaúchos.

 

Se o Brasil pretende enfrentar uma pretensa ameaça chinesa, ele terá que estabelecer regras claras para que os investimentos chineses (e também das demais nacionalidades) elevem o conteúdo nacional dos seus produtos, instalem processos industriais nas áreas de recursos naturais, direcionem sua atenção para as áreas consideradas prioritárias pelos brasileiros e estabeleçam parcerias que envolvam transferências de tecnologias.

 

Finalmente, se o Brasil quer captar créditos e investimentos chineses para reformar sua infra-estrutura sucateada e tecnologicamente defasada, o governo e as empresas brasileiras, estatais e privadas, precisam ter projetos. Quem trabalha na ponte Brasil-China já está cansado de ver empresários e autoridades irem à China com “boas idéias”, como se idéias fossem projetos, e voltar falando mal dos chineses por não darem a devida atenção a tais “projetos”.

 

Em outras palavras, basta seguir o exemplo dos próprios chineses para colocar as relações do Brasil com a China, e também com os demais países, num patamar que seja claramente benéfico à industrialização do Brasil.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #1 Tragédia ou Farsa?Raymundo Araujo Filh 31-08-2011 10:50
Alguns me perguntam porque tenho me dedicado a comentar criticamente os artigos do Wladimir Pomar.

Tenho respondido que é um exercício paciente, muito mais originado de deixarmos um contraponto escrito sobre cada justificativa a esta política que considero o continuismo da entrega do país e subserviência, não exatamenmte aos EUA (pelo visto o capital está a procura de um novo país para ser potência e sede de suas corporações).

Ah! Evidentemente que serve para aqueles a quem chamo de Ex Esquerda Corporation S.A. continuarem me achando um boçal. Mas, partindo de quem parte, é um elogio.

Estes comentários servem para irmos mostrando que as teses defendidas pelo Pomar e seus hortigrangeiros entreguistas, são produtos do abandono de preceitos clássicos que mostraram ao mundo "como é que a coisa funciona".

Refiro-me a Luta de Classes, que não foi "inventada", mas descoberta. Refiro-me à necessidade de usufruto do país e suas riquezas pela gente comum do Povo, e sem que todos precisem se tornar militantes políticos (sentido estrito), mas sim cidadãos comuns com mecanismos de participação na gestão pública, sem os famosos intermnediários corporativos, sejam de esquerda ou de direita.

Assim, como um macaco que pula de galho em galho, já notando que suas teses vão sendo abandonadas por DiLLma, em continuidade do governo Lulla, ficando exposta a desindustrialização do país e a nossa transformação em um país para estrangeiros (avento a possibilidade do Brasil ter sido escolhido para sede do capitalismo mundial, em algumas décadas), Wladimir Pomar nos brinda com uma tese que beira o ridúiculo de tão pueril.

Primeiramente pois um futuro não se aponta apenas com dados econométricos e quantitativos. Sem uma perspectiva histórica muito bem colocada, não se cherga a lugar algum, em segurança.

A China, diferente do Brasil, tem um projeto de país gestado por CHINESES (e sequer faço aqui, algum juízo de valor a este fato), com forte sentimento de desenvolvimento regional. Aliás um forte sentimento anti americano, mas não anti imperialista, presente em sua cultura.

Resolveram abrir-se para as corporações capitalistas para COMPETIREM com ela, e não para exportarem matéria prima. Fazem "de um tudo" para fabricarem eletros eletrõnicos para distrair a patuléia, com verdadeiras fraudes, como é TUDO que compramos hoje em dia, com a certeza apenas da pouca durabilidade do produto.

Em contrapartida, desenvolveram forte setor de teconologias de ponta, concorrente com os melhoresw do primeiro mundo, com seus trens balas, usinas completas, aviões de pequeno e médio porte, equipamentos industriais, que nos vendem em troca de matéria prima que temos em abundância.

E sabemos também que a China optou por um modelo que proporciona um aumento vertiginoso das diferenças entre o setor rural e urbano (é a maior taxa mundial deste abismo), sendo melhor ser mendigo em Beijing do que camponês no interior. o resultado disso é a modernização urbana de cerca de 300 Milhões de chineses em um universo de 1, 5 Bi de habitantes (Rock'n Roll, só em Beijing...).

Fora o que, nada temos parecido com algum Poder popular por lá instalado, mas sim uma autocracia partidária de dar medo, com toda a exploração pertinente a classe trabalhadora e restirições de pensamento e organização pertinentes.

Assim, que me desculpe o Wladimir, mas o Brasil no máximo será o contraponto do mundo capitalista a esta interveniência chinesa, no mundo dos negócios capitalistas, onde deu com uma mão, uma tábua de salvação ao capitalismo, mas em troca domina dia a dia o mundo do capital, ainda por cima sendo detentor de US$1,5 Tri em papéis da dívida pública estadunidense, cobráveis a qualquer momento. E assim mesmo para esta assunção do Brasil a uma condição de China Ocidental, levaríamos todo este século, ou ao menos meio século para lograrmos algum êxito, poisn a China não irá cair de madura....

Assim, WP joga para as calendas qualquer mudança na frente de combate, justamente por não propor nenhum combate, mas apenas uma adaptação ao mundo vigente. E assim mesmo, coisa prá daqui há 50 anos...e disputando os mesmos mercados que a China conquistou primeiro!

Só se esquece, o Wladimir, que um dos grandes ensinamentos sheakespearianos (que me desculpem os que odeiam a intelectualidade popular do mestre dramaturgo ingês, exposta cientificamente por Marx-Engels), nos mostrando que "A história não se repete, senão com o Farsa" (ou Tragédia, acrescento eu).

Que Wladimir faça a sua torcida pela Farsa ou pela Tragédia. Eu vou continuar rejeitando a mediocridade como única forma de legarmos aos que ainda virão, além das disputas do mundo capitalista.

P.S. - Um ponto a favor do Wladimir Pomar: Lá na China, se olharmos para Leste, na direção do profundo Oceano Pacífico, podemos chamar o Brasil de "a Terra do Sol Nascente". Já é alguma coisa, para ir enganando os trouxas. E quem sabe, para fazermos uma espécie de bcorrente mística, poderíamos orientar o nosso Povo, a olhar para Leste e dizer "China, o país do Sol POENTE". Quem sabe ajuda o Brasil a se tornar a China? Ou pelo menos as elites imporem uma Trágica Farsa?
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