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Estados Unidos: a autonomia crescente das forças armadas Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Sábado, 27 de Agosto de 2011
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Celebra-se normalmente Montesquieu por O Espírito das Leis. Em face da influência dela na constituição do Estado contemporâneo, relega-se – ou mesmo injustamente se esquece – outra obra de inexcedível importância: Considerações sobre as Causas da Grandeza dos Romanos e de sua Decadência. Nela, em sua parte final, o autor discorre sobre as causas da derrocada da civilização – mais do império - romana.  

 

Um dos motivos apontados relaciona-se com a progressiva transformação da atividade militar tanto qualitativa como quantitativa: outrora, o cidadão romano, provindo em sua maioria do campo, tinha por uma de suas obrigações a defesa da república. Sua sobrevivência vinculava-se a outras atividades. A passagem castrense era mais uma das ocupações da vida;

 

Posteriormente, o soldado da fortuna – o mercenário recrutado na vastidão imperial - comporia a maioria das forças armadas. No dia-a-dia, sua lealdade adstringia-se ao comandante ou à legião, no máximo, de onde extraía o sustento de modo permanente. A profissionalização do exército progressivamente fez de si um organismo próprio, desligado das necessidades da sociedade. À proporção que os efetivos aumentavam, sua dependência política de Roma diminuía.

 

Com o revigoramento dos estudos sobre a história romana no século XVIII, ativistas norte-atlânticos puderam debruçar-se sobre variada literatura e dela colher interessantes experiências, a fim de tecer suas próprias reflexões sobre a arte de governar.

 

Não há dúvida de que a maioria dos pais fundadores opunha-se à constituição de um grande exército permanente, por causa do exemplo da Roma Imperial. A ausência imediata de adversários de porte, uma vez feita a paz com a Inglaterra na década seguinte à proclamação da independência, sustentava a posição. Os cidadãos podiam através da guarda nacional guarnecer a ordem em tempos de paz.

 

A situação alterou-se somente a partir da II Guerra Mundial. Com o fim do conflito bipolar entre Estados Unidos e União Soviética, houve a esperança de que ela novamente se modificasse: sem opositores à altura, não havia razão para a manutenção de um aparato bélico tão portentoso. Contudo, o tempo logo dissiparia a expectativa.

 

Ao menos na retórica, os democratas preocupam-se mais com o crescimento excessivo das forças armadas. Durante suas campanhas presidenciais, Bill Clinton e Barack Obama expressaram-se a favor do remodelamento, ainda que por diferentes formas, com o objetivo de deslocar mais recursos para a área social. Entrementes, os dois logo abandonaram tal preocupação e adaptaram-se ao compasso cotidiano da Casa Branca.

 

Recentemente, Obama, entusiasmado com o êxito da operação de assassínio de bin Laden pelas forças especiais da Marinha, promoveu dois dos oficiais-generais de lá à adjuntoria do Comando Central, responsável principalmente pelo Oriente Médio, e à do Sul, cuja área de abrangência compreende a América Latina e o Caribe.  

 

Na virada do milênio, tropas de elite adquirem maior prestígio interno, o que significa aumento do número – em torno de 60 mil – e do orçamento – quase 10 bilhões de dólares por ano. Em tese, podem estar presentes em qualquer lugar do planeta, uma vez que são treinadas para permanecer ‘invisíveis’, salvo para efeitos mercadológicos, como foi o caso recente no Paquistão – em breve, é possível que a ação se transforme em filme de três dimensões.

 

Elas operam em estreita colaboração com a Agência de Espionagem Americana (CIA). Assim, seqüencia-se a operação: uma localiza o alvo, a fim de que as outras o capturem ou eliminem.  O objetivo é anular lideranças terroristas ou insurgentes. Seu emprego é de certo modo o reconhecimento da pouca efetividade de aviões não tripulados. Embora estes poupem vidas das tropas, ainda não são muito eficientes para determinadas operações.

 

Em 2011, a Casa Branca ampliou ao alto oficialato delas maior autonomia dentro de suas respectivas forças. Diante do fracasso dos contingentes ostensivos nas duas guerras asiáticas, ela aposta para o próximo ano na repercussão de operações espetaculares das forças de elite, as quais, sem influir de maneira decisiva nos combates, podem obter bons resultados no curto prazo, ou seja, no tempo do processo eleitoral.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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Última atualização em Quarta, 31 de Agosto de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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