Colecionador de palavras

 

O colecionismo figura entre as manias humanas mais interessantes. Revela nossa capacidade de fazer recortes no universo e criar microcosmos temáticos. Nesses pequenos mundos, construídos com carinho e obsessão, o colecionador se torna especialista, pesquisador contumaz, “pastor” zeloso de um rebanho de coisas e símbolos.

 

Há os que colecionam selos, moedas, cartões telefônicos, cartões postais, canetas, cardápios, conchas, gravuras, gibis, caixas de fósforos, camisetas, chaveiros, girafinhas e outros animais em miniatura — pingüins, corujinhas, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, dinossauros, etc.

 

O colecionador típico está sempre atento, de olhos abertos, farejando oportunidades para alimentar sua paixão. Orgulha-se de ter comprado um chaveiro na África do Sul, de ter roubado um cardápio num restaurante da Itália, de ter recebido um cartão postal raríssimo da Tanzânia.

 

Não coleciono nada. Falta-me espírito de catalogador, nem meus livros estão organizados. Acumulam-se em adorável promiscuidade, sem etiquetas e pudores.

 

A palavra “colecionar” tem a ver com a palavra latina legere — ler, colher. O colecionador é leitor meticuloso, recolhe do todo múltiplo amostras especiais. E talvez por essa brecha etimológica eu possa me incluir entre os colecionadores de diferentes gostos.

 

Coleciono palavras, guardo as que me dizem algo peculiar. Na minha coleção está a palavra “escola”, que em sua história relaciona-se com a noção de tempo livre, tempo que liberta — skholê, em grego. Ir à escola é, ou deveria ser, ingressar no espaço da liberdade.

 

Déboussolé eu trouxe da França, indica aquele que está desorientado, desnorteado, não sabe o norte, não sabe onde fica o oriente, está “desbussolado”, sem bússola, perdido, desconcertado. Gosto desta palavra e a incluí em minha coleção como um alerta. A escola existe para que não haja déboussolées.

 

“Palpite”, mesmo o infeliz, é uma palavra atraente. Vem do verbo latino palpare, palpar com as mãos, tocar às cegas, mas também acariciar e afagar. A palpitação do toque e a pálpebra com seus movimentos repetidos têm a ver com o palpite. Palpitar é tocar repetidamente algo que se desconhece, tentando extrair algum indício do que ali está.

 

Guardei em minha coleção a preciosa palavra “pessoa”. Pessoa soa bem, e não à toa tem a ver com sonare, soar em latim, porque persona era a máscara de teatro pela qual passava a voz do ator, interpretando o personagem.

 

Há outras muitas palavras nesta minha coleção que, justamente por seu grande valor, não tem preço.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: www.perisse.com.br

 

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