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Vaias e explicações Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 18 de Julho de 2007
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Num país em que a oposição, de direita ou de ultra-esquerda, não tem bandeiras que mobilizem as grandes massas da população, vaias e palmas, na abertura de uma competição esportiva, podem ser um bom pretexto para montar uma armadilha, tornando-as o centro da discussão política. Se o PT e o governo quiserem evitar a arapuca, talvez o melhor seja reconhecerem que há uma camada da população descontente, e descobrirem o por quê.

 

No caso, tanto faz que as vaias tenham sido preparadas pela claque da prefeitura do Rio, ou por qualquer grupo oposicionista. Ou que elas tenham vindo de pessoas de outros estados que não o Rio. O fato é que elas ocorreram, sendo acompanhadas pela maior parte dos presentes no Maracanã.

 

A versão da mídia de que esse público era diversificado, em virtude dos ingressos mais baratos variarem entre dez e vinte reais, apenas lança uma cortina de fumaça. O povão, mesmo tendo melhorado de vida, só sacrifica vinte reais em jogo de time popular. A grande maioria, naquele evento, era constituída por pessoas de classe média, tanto do Rio quanto de outras cidades. Quem tem condição de pagar entrada acima de cinqüenta ou cem reais é funcionário público com cargo comissionado, micros e pequenos empresários bem sucedidos, funcionários e executivos bem remunerados de empresas privadas e uma gama variada de gente que pode ser assalariada, mas possui algum tipo de propriedade.

 

Era realmente um público diversificado, mas de um mesmo grupo social. Além disso, ausente de lá, mas pertencente ao mesmo agrupamento, e compartilhando com ele suas desventuras, há os setores das classes médias que já não têm como viver as mesmas condições. São os pequenos e médios lavradores que perderam suas propriedades e fonte de trabalho, para os bancos, ou para o agronegócio, ou para os grileiros; os funcionários públicos de baixa remuneração; os micros e pequenos empresários urbanos que foram levados à falência; e uma mistura grande de pessoas que possuíam alguma propriedade e estão ameaçadas de perdê-la ou já a perderam.

 

Há algum tempo, o governo e o PT vinham sendo alertados, não por inimigos, mas por amigos, de que as classes médias sentem-se desamparadas e espoliadas, e estão sendo empurradas para a oposição. Uma parte delas reclama que trabalha demais para pagar impostos e não é beneficiada pelos programas assistenciais. Outra parte afirma que o governo está arrancando o seu couro para dividir entre o sistema financeiro, de um lado, e os mais pobres, de outro. Todas se recusam a pagar a conta, que supõem ter que ser paga pelos mais ricos. E consideram que seus reclamos não são ouvidos.

 

Nessas condições, a representação momentânea das classes médias pode ter aproveitado a oportunidade única para, através das vaias, ser ouvida. Outras explicações são até possíveis. Mas será uma pena se o PT e o governo também não aproveitarem o acontecimento para refletirem sobre a possibilidade da versão acima ser a mais importante.

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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