A dívida dos Estados Unidos é um problema da China

 

 

O Partido Republicano anunciou a tragédia: quer dar o maior calote da história do capitalismo mundial. Parece sensacionalismo, mas qualquer observador, independente de sua matriz teórica, entende a proporção do perigo de não pagar uma dívida de 9 trilhões de dólares. Neste mesmo movimento de fatos que abalaram o otimismo do ano de 2011, está a tragédia que efetivamente aconteceu: um terrorista norueguês de ultra-direita, nacionalista e ex-militante de um partido legalizado em seu país cometeu um atentado contra seu próprio povo, em nome do perigo da mestiçagem.

 

Duas bombas para o dito mundo civilizado, que nem vieram dos outros mundos, mas daqueles mesmos que sempre condenaram calotes e terrorismos, ou seja, da direita que reivindicava para si o status de modernidade e superioridade moral.

 

O segundo semestre de 2011 anuncia as catástrofes sociais do ano de 2012. As bolsas de valores do mundo nem esperaram o calote futuro, já o fazem presente. Nestas duas semanas, a inabalada bolsa brasileira vem caindo e caindo, fora dos sonhados 72.000 mil pontos, está para baixo dos 60 mil.

Efetivamente, o que mudou da crise de 2008 e o que pode vir desta crise futura, anunciada em 2011?

 

Para entender esta crise futura provocada pelos Estados europeus e estadunidense é necessário olhar para as raízes da crise de 2008, mas também para o líder do mundo emergente: a China. Aqui se encontra o começo e os possíveis desenvolvimentos desta crise. Por mais que seja difícil para muitos aceitarem que o Imperialismo não é só feito de Estados Unidos, é necessário entender que a geoeconomia do capitalismo está em processo de mudança. Aqui temos uma hipótese: não é um sino-centro que se gesta, mas uma efetiva multipolarização, quebra do bloco unipolar liderado/imposto pelos Estados Unidos, forçando, assim, a volta do acirramento da disputa por mercados.

 

A China é um pouco mais da metade do PIB dos Estados Unidos em paridade de poder de compra, mas tem o terço da dívida americana. É da consciência comum: uma pessoa que tem um patrimônio alto, mas uma dívida que é mais de sua metade, possui mais ilusão do que efetiva riqueza, ou seja, os Estados Unidos são um país em quebra econômica e a China efetivamente está caminhando para polarizar com o líder do antigo dito primeiro mundo.

 

Mas aqui existe uma relação contraditória, mais que proeminência absoluta: o enriquecimento chinês é produzido com a falência estadunidense. Por isto existe uma polarização e o acirramento de uma disputa, mais do que um novo líder. Por que isto? A dívida estadunidense foi produzida por anos de crescimento econômico fictício, isto é, não houve produção efetiva de valor e excedente por parte dos Estados Unidos, mas criação de bolhas e mais bolhas, com dinheiro que não tinha correspondência com o lado “real da economia”. O que isto produz? Aumento de consumo e, portanto, de importação.

 

Desde o surgimento das duas bolhas de Bush, a do mercado imobiliário e a da “guerra contra o terror” em 2001, o Estados Unidos gastaram mais do que produziram. Assim, acumularam inúmeros saldos negativos em Balança Comercial (Exportação menos Importação): chegaram ao déficit histórico (IPEADATA, 2011) de 856,5 bilhões de dólares (Balança negativa) no quarto trimestre de 2006.

 

Foi neste momento que houve aperto no crédito imobiliário, a taxa de juros foi para 5,25% ao ano em junho de 2006 (conforme Ernani Teixeira e Gilberto Rodriguez, 2008), sendo que em maio de 2004 estava em 1% ao ano. O preço dos imóveis como resposta foi decrescendo em 2007, pois todo o mercado imobiliário – e a acumulação e produção de setor importante da economia dos Estados Unidos – dependia de juros baixos e do capital fictício do subprime.

 

Em 2007, a bolha imobiliária começa a estourar, levando à queda do déficit com a caída do consumo. Mas a dívida mantém-se crescendo pelo aumento da taxa de juros. A crise de 2008 demonstrou que a fantástica fábrica de dinheiro chamada subprime tinha seu limite. Os juros aumentaram e as pessoas endividadas deram o calote. Os bancos quebraram e o governo dos Estados Unidos se endividou ainda mais para salvá-los (os bancos).

 

Ainda assim, aqui desponta a China que se consolidava como um novo capital-imperialista com força para disputar mercados. Em 2008, os EUA importaram 1,342 trilhão de dólares de produtos. Só de produtos chineses, foram 252,8 bilhões, sendo 18 % de produtos industrializados; destes, 29% eram de produtos de alta tecnologia, diferentemente dos costumeiros “1,99”, já que a China se consolida como produtora de Ipad e DVD (COMTRADE, 2009). Com a retomada do crescimento e o arrefecimento da crise das hipotecas, os Estados Unidos voltaram a importar mais do que exportavam. Em 2010, o déficit volta a subir, de 391,9 bilhões para 471,9 bilhões de dólares no primeiro trimestre de 2011 (IPEADATA, 2011).

 

Agora está evidente a disputa por mercados. Durante a crise, algumas empresas quebraram e outras se fundiram, os investimentos feitos pelas translatinas, empresas transnacionais da América Latina (conforme CEPAL, 2011) cresceram e entraram para disputar também territórios. A JBS Friboi, empresa brasileira do setor de carnes, se tornou a maior do mundo no ramo, incorporando a Pilgrims, de capital estadunidense.

 

O que se evidenciou em 2010 é que os acordos multilaterais fracassaram. Em reunião do G20, os acordos e os cumprimentos foram mínimos e as trocas de farpas contra a chamada guerra cambial foram o tom das reuniões. Mas o que estava difuso neste jogo, e que tende a evidenciar-se, é a política por outras vias, a disputa bélica por territórios. Talvez estejam aí as rusgas entre Coréia do Sul e Coréia do Norte, e a Guerra Fria ensinou que é melhor exportar a guerra para os elos mais fracos da corrente do Imperialismo.

 

Os chineses detêm grande parte da dívida estadunidense, o que advém do crescimento abissal de sua produção, isto é, existe um excedente chinês que está acima da capacidade de absorção do capitalismo mundial. A dívida dos Estados Unidos reflete mais que governos aloprados, mas sim a crise também da China, que tem tanto excedente de dinheiro que busca investir em títulos fictícios de dólares que não têm correspondência de valor na economia real. Também porque a China vende mercadorias compradas com mais dinheiro fictício dos Estados Unidos.

 

Assim, a bolha dos mercados subprime explodiu, e foi engolida pelo governo estadunidense. Por outro lado, esta bolha produziu outra mais gigante, a do excedente chinês, que incha ainda mais a bolha americana, investindo os 1,6 trilhão de dólares em títulos da dívida dos EUA.

 

Mas os perigos do estouro destas bolhas são outros, os políticos e os militares, pois as dívidas precisam ser quitadas e para isto é necessário mais mercados para explorar. Por outro lado, os credores querem cobrar, e como farão isto? Aqui entra nossa pátria, as burguesias de todo o mundo culparão a nação inferior pela crise. Aqui está o nosso terrorista norueguês de direita para recomeçar esta história.

 

Bibliografia

 

Gilberto Rodrigues Borça Junio e Ernani Teixeira Torres. Analisando a Crise do Subprime. Revista do BNDES. Rio de Janeiro, v. 15, N. 30, p 129-159. Dezembro de 2008.

 

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Estudios Economico de América Latina y Caribe, 2011. 

 

Venâncio de Oliveira é economista.

Comentários   

0 #1 Caos financeiro mundialEdivaldo Nascimento 16-08-2011 17:18
“Enquanto os animais compartilham a carne, o animal humano disputa selvagemente a comida.” – SENSITIVISTA.

A especulação financeira mundial que está quebrando as bolsas e governos nada mais é, que, a própria fome voraz do leão bandido que não vai deixar de comer pouco pensando nos outros famintos.
Esse tipo de situação foi o que causou a revolução francesa, com sua monarquia soberba e inconseqüente. Foi o que causou também a revolução comunista e a revolta alemã que deu início a 2ª guerra.
Nada de novo no front em relação à espiritualidade religiosa que defende a unhas e tapas suas convicções egoístas, defendendo seus deuses em prol da mentira da democracia da corrupção para aniquilar povos, salvaguardando o seu luxo e riqueza. Isso na verdade é plutocracia.
Cadê a religião para condenar esta especulação financeira? Será que os religiosos não cobram ou não repudiam estes atos indecentes, imorais e até terroristas por também serem cúmplices, ou até agentes diretos desta devastação na economia mundial?
A espiritualidade do cão que manipula massas ignorantes em prol de seus líderes e não do povo, que está conduzindo o mundo para uma 3ª guerra, é a verdadeira besta do apocalipse final.
Se for para salvar a funcionalidade do sistema, não adianta a religião só atuar nas camadas inferiores da população com seus mandamentos sagrados, porque o nível de favelamento já está bastante insuportável, também é preciso atuar nas camadas superiores e nas suas concepções estabelecendo conceitos morais na utilização do capital para combater a miséria mundial. O capitalismo quebrou o comunismo, e agora está se autodestruindo.
Esse tipo de coisa fica bem claro nos mercados de artes, onde se colocam milhões em uma tela de algum pintor famoso, ou na bota velha que pertenceu a Charles Chaplin, na cueca usada de Bill Clinton – o tarado da estagiária, no violão velho que pertenceu a Elvis Presley, e assim por diante.
A ganância dos poderosos é tanta, que eles vão se isolar cada vez mais em condomínios fechados, vão se blindar se distanciando do povo mutilado, ou então, vai ser necessário construir muitas vilas penitenciárias.
Eu vi casos na época dos congelamentos de preço para deter a inflação, onde faltaram muitos produtos, que mostrava muito bem a natureza gananciosa de quem está no poder. Existiam indivíduos, para não dizer meliantes pois eram ricos, que se aproveitaram da falta de produtos para especular, cobrando ágios exorbitantes para fornecê-los, em que muitas vezes era de primeira necessidade como a carne. Outros pegavam financiamento rural pelo banco do Brasil a juros de 10% ao ano (eram de programas do governo para socorrer a agricultura familiar) para especular, emprestando o dinheiro para outros a juros de 240% ao ano, dinheiro este desviado do seu real propósito, e depois falavam que trabalhavam honestamente, por aí dá para perceber que não é preciso de uma arma para roubar, basta ter dinheiro para especular. E, muitos desses senhores vem com conversinha furada em seus discursos moralistas para salvar a Pátria, só se for a Pátria particular deles.
O canibalismo monetário sempre vai prevalecer se não neutralizarem a sua própria gula, controlando a mola propulsora da ganância: o lucro exacerbado, e se não modificarem os seus espíritos para dar a devida importância à sobrevivência da funcionalidade do sistema econômico mundial para salvação do planeta.
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