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O terrorismo de estado dos EUA ameaça a humanidade e impede a paz Imprimir E-mail
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues   
Qui, 11 de Agosto de 2011
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A humanidade enfrenta a mais grave crise de civilização da sua história. Ela difere de outras, anteriores, por ser global, afetando a totalidade do planeta. É uma crise política, social, militar, financeira, econômica energética, ambiental, cultural.

 

O homem realizou nos últimos dois séculos conquistas prodigiosas. Se fossem colocadas a serviço da humanidade, permitiriam erradicar da Terra a fome, o analfabetismo, as guerras, abrindo portas a uma era de paz e prosperidade.

 

Mas não é o que acontece. Uma minoria insignificante controla e consome os recursos naturais existentes e a esmagadora maioria vive na pobreza ou na miséria.

 

O fim da era bipolar, após a desagregação da URSS, permitiu aos Estados Unidos adquirirem uma superioridade militar, política e econômica enorme, que passou a usar como instrumento de um projeto de dominação universal. As principais potências da União Européia, nomeadamente o Reino Unido, a Alemanha e a França, tornaram-se cúmplices dessa perigosa política.

 

O sistema de poder que tem o seu pólo em Washington, incapaz de encontrar solução para sua crise, inseparável da desigualdade social, da super-exploração do trabalho e do esgotamento gradual dos mecanismos de acumulação, concebeu e aplica uma estratégia imperial de agressão a povos do chamado Terceiro Mundo.

 

Em guerras ditas de baixa intensidade, promovidas pelos EUA e seus aliados, morreram nos últimos 60 anos mais de trinta milhões de pessoas. Algumas particularmente brutais, definidas como “preventivas”, visaram o saque dos recursos naturais dos povos agredidos. 

 

Reagan criou a expressão “o império do mal” para designar a URSS no final da guerra-fria. George Bush pai vulgarizou o conceito de “Estados canalhas” para satanizar países cujos governos não se submetiam às exigências imperiais. Entre eles incluiu o Irã, a Coréia do Norte, a Líbia e Cuba. 

 

Em setembro de 2001, após os atentados que destruíram o World Trade Center e demoliram uma ala do Pentágono, George W. Bush (o filho) utilizou o choque emocional provocado por esse trágico acontecimento para desenvolver uma estratégia que fez da “luta contra o terrorismo” a primeira prioridade da política estadunidense.

 

Uma gigantesca campanha midiática foi desencadeada, com o apoio do Congresso, para criar condições favoráveis à implantação da política defendida pela extrema-direita. Segundo Bush e os neocon, “a segurança dos EUA” exigia medidas excepcionais na política internacional e interna.

 

Os grandes jornais, as cadeias de televisão, as rádios, todos explorando a indignação popular e o medo, apoiaram iniciativas como o Patriot Act, que suspendeu direitos e garantias constitucionais, legalizando a prática de crimes e arbitrariedades. A irracionalidade contaminou o mundo intelectual e até em universidades tradicionais professores progressistas foram despedidos e houve proibição de livros de autores célebres.

 

A campanha adquiriu rapidamente um caráter de caça às bruxas, com perseguições maciças a muçulmanos. Uma onda de anti-islamismo varreu os EUA, com a cumplicidade da grande imprensa. O Congresso legalizou a tortura.

 

No terreno internacional, o povo do Afeganistão foi a primeira vítima da “cruzada contra o terrorismo”. Os EUA, a pretexto de que o governo do mullah Omar não lhe entregava Bin Laden -  declarado inimigo número 1 de Washington - invadiu, bombardeou e ocupou aquele país.

 

Seguiu-se o Iraque após uma campanha de desinformação de âmbito mundial. O governo de Bagdá foi acusado de acumular armas de extermínio massivo e de ameaçar, portanto, a segurança dos EUA e da Humanidade. A acusação era falsa, como se provou mais tarde, e os EUA não conseguiram obter o apoio do Conselho de Segurança. Mas, ignorando a posição da ONU, invadiram, vandalizaram e ocuparam o país. Inicialmente contaram somente com o apoio do Reino Unido.

 

Crimes monstruosos foram cometidos no Afeganistão e no Iraque pelas forças de ocupação. A tortura de prisioneiros no presídio de Abu Ghraib assumiu proporções de escândalo mundial. Ficou provado que o alto comando do exército e o próprio secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, tinham autorizaram esses atos de barbárie. Mas a Justiça norte-americana limitou-se a punir com penas leves meia dúzia de torcionários.

 

Simultaneamente, milhares de civis, acusados de “terroristas” - muitos nunca tinham sequer pegado numa arma - foram levados para a base de Guantánamo, em Cuba, e para cárceres da CIA instalados em países da Europa do leste.

 

As Nações Unidas não somente ignoraram tais atrocidades como acabaram dando o seu aval à instalação de governos títeres em Cabul e Bagdá e ao envio de tropas de muitos países. No caso do Afeganistão, a OTAN, violando o seu próprio estatuto, participa ativamente, com 40.000 soldados, da agressão às populações. Dezenas de milhares de mercenários estão envolvidos nessas guerras.

 

Em ambos os casos, Washington sustenta que essas guerras preventivas representam uma contribuição dos EUA para a defesa da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e da paz e foram inspiradas por princípios e valores éticos universais. O presidente Barack Obama, ao receber o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, defendeu ambas, num discurso farisaico, como serviço prestado à humanidade. Isso no momento em que decidira enviar mais 30.000 soldados para a fogueira afegã.

 

Os fatos são esses. Apresentando-se como líder da luta mundial contra o terrorismo, o sistema de poder dos EUA faz hoje do terrorismo de Estado um pilar da sua estratégia de dominação.

 

A criação de um exército permanente em África - o Africom – os bombardeios da Somália e do Iêmen, a participação na agressão ao povo da Líbia, inserem-se nessa política criminosa de desrespeito pela Carta da ONU.

 

Mas a ambição de poder absoluto de Washington é insaciável. O Irã, por não capitular perante as exigências do sistema de poder hegemonizado pelos EUA, há anos é alvo permanente da hostilidade dos EUA. Washington tem saudades do governo vassalo do xá Pahlevi e cobiça as enormes reservas de gás e petróleo iranianas.

 

A campanha de calúnias, apoiada pela mídia, repete incansavelmente que o Irã enriquece urânio para produzir armas atômicas. A Agência Internacional de Energia Atômica não conseguiu encontrar qualquer indício de que o país esteja utilizando suas instalações nucleares com fins militares. O presidente Ahmadinejad, aliás, de acordo com o Brasil e a Turquia, numa demonstração de boa fé, propôs-se a enriquecer o urânio no exterior. Mas essa proposta logo foi recusada por Washington e pelos aliados europeus.

 

Sobre as armas nucleares de Israel, obviamente, nenhuma palavra. Para os EUA, o Estado sionista e neofascista, responsável por monstruosos crimes contra os povos do Líbano e da Palestina, é uma democracia exemplar e o seu melhor aliado no Oriente Médio.

 

O agravamento das sanções que visam estrangular economicamente o Irã é acompanhado de declarações provocativas do presidente Obama e da secretaria de Estado Clinton, segundo as quais “todas as opções continuam em aberto”, incluindo a militar. Periodicamente, jornais influentes divulgam planos de hipotéticos bombardeios do Irã, ou pelos EUA ou por Israel, sem excluir o recurso a armas nucleares táticas. O objetivo é manter a tensão na guerra não declarada contra um país soberano.

 

Lamentavelmente, uma parcela importante do povo dos EUA assimila as calúnias anti-iranianas como verdades. A maioria dos estadunidenses desconhece a gravidade e complexidade da crise interna.

 

A recente elevação do teto da divida publica de mais de 14 trilhões de dólares para 16 bilhões - total superior ao PIB do país – é, porém, reveladora da fragilidade do gigante que impõe ao mundo uma política de terrorismo de Estado.

 

Entretanto, o discurso oficial, invocando os “pais da Pátria”, insiste em apresentar os EUA como o grande defensor da democracia e das liberdades, vocacionado para salvar a humanidade 

 

Sem o controle pelo grande capital da esmagadora maioria dos meios de comunicação social e dos audiovisuais pelo sistema de poder imperial, a manipulação da informação e a falsificação da História não seriam possíveis. Um instrumento importante nessa política é a exportação da contracultura dos EUA, país, registre-se, onde coexiste com a cultura autêntica.

 

A televisão, o cinema, a imprensa escrita e, hoje, sobretudo a Internet cumprem um papel fundamental como difusores dessa contracultura que nos países industrializados do Ocidente alterou profundamente nos últimos anos a vida cotidiana dos povos e a sua atitude perante a existência.

 

A construção do homem formatado principia na infância e exige uma ruptura com a utilização tradicional dos tempos livres. O convívio familiar e com os amigos é substituído por ocupações lúdicas frente à TV e ao computador, com prioridade para jogos violentos e filmes que difundem a contracultura com prioridade para os que fazem a apologia das Forças Armadas dos EUA.

 

A contracultura atua intensamente no terreno da música, da canção, das artes plásticas, da sexualidade. A contra-música que empolga hoje multidões juvenis é a de estranhos personagens que gritam e gesticulam, exibindo roupas exóticas, berrantes em gigantescos palcos luminosos, numa atmosfera ensurdecedora, em rebeldia abstrata contra o vácuo.

 

O jornalismo degradou-se. Transmite a imagem de uma falsa objetividade para ocultar que a mídia ao serviço da engrenagem do poder insiste, com poucas exceções, em justificar as guerras americanas como “cruzada anti-terrorista” em defesa da humanidade, porque os EUA, nação predestinada, batalhariam por um mundo de justiça e paz.

 

É justo assinalar que um número crescente de cidadãos americanos denuncia essa estratégia de poder, exigem o fim das guerras na Ásia e lutam em condições muito difíceis contra a estratégia criminosa do sistema de poder. 

 

Nestes dias em que se multiplicam as ameaças ao Irã, é minha convicção de que a solidariedade atuante com o seu povo se tornou um dever humanista para os intelectuais progressistas.

 

Visitei o Irã há cinco anos. Percorri o país de Chiraz ao Mar Cáspio. Escrevi sobre o que vi e senti. Tive a oportunidade de verificar que é falsa e caluniosa a imagem que os governos ocidentais difundem do país e da sua gente. Independentemente da minha discordância de aspectos da política interna iraniana, nomeadamente os referentes à situação da mulher, encontrei um povo educado, hospitaleiro, generoso, amante da paz, orgulhoso de uma cultura e civilização milenares que contribuíram decisivamente para o progresso da humanidade.

 

Para mim o Irã encarna muito mais valores eternos da condição humana do que a sociedade estadunidense, cada vez mais robotizada.

 

Miguel Urbano Rodrigues é escritor e jornalista português. Foi docente de História Contemporânea, deputado na Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa e membro do Parlamento Português.

 

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Última atualização em Quarta, 17 de Agosto de 2011
 

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