Incerteza global pressionará por novos cortes de benefícios sociais básicos

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A economia global experimentou nas últimas quatro semanas uma perigosa contaminação de duas situações de super-endividamentos – do Tesouro da Comunidade Econômica Européia para socorrer a Grécia e demais países europeus afetadas por crises financeiras nacionais e do Tesouro norte-americano, por conta das dissensões interpartidárias para ampliação dos limites da dívida pública dos Estados Unidos. Essas situações não são propriamente novas. Decorrem, de forma mais recente, da solução dada pelo governo Obama à crise financeira de 2008, cuja equação pela socialização das perdas – via Tesouro público e privatização dos benefícios, financeiros, sem apontar para um novo esquema de responsabilização público-privada pela crise financeira original - não enfrenta o problema de fundo.

 

Mas esse segundo round de incertezas levantadas pelo processo de super-endividamento dos Tesouros centrais tem conseqüências sérias para o futuro próximo da economia global, porque afeta duramente “o estado de confiança” do mundo dos negócios, no sentido de aprofundar pela lógica dos próprios mercados uma recessão global.

 

Diante desse quadro de expectativas pouco alvissareiras, é provável que a economia brasileira experimente repercussões imediatas e de médio prazo para duas de suas principais conexões externas: a exportação de “commodities” e o fluxo de capital estrangeiro que irriga o Balanço de Pagamentos. Ambos devem sofrer restrições, ainda que de imediato as “commodities” possam se valorizar ainda mais com a desvalorização do dólar.

 

Mas essa crise global, que aparentemente deve ocorrer até com maior densidade que a de 2008, não deve ser lida apenas pelo lado da dificuldade imediata de encontrar os empregos e o ganha pão da maioria da população. Isto porque os limites de nossa atual inserção externa, com ou sem recessão global, nos levariam no médio prazo ao impasse da insolvência externa. Antecipado o impasse, criou-se a oportunidade para repensar o desenvolvimento do país e também da economia global em novas bases. Isto, contudo, pode levar muito tempo.

 

De imediato, o Brasil precisa manter em atividade sua força de trabalho de 100 milhões de pessoas e os poucos mais de dois milhões de novos trabalhadores que afluirão à População Economicamente Ativa a cada ano nesta década; e ainda assegurar condições básicas de atendimento de necessidades humanas providas pela política social. Isto precisa ficar cada vez mais claro para o Governo Federal, porque o efeito imediato da crise financeira, segundo a lógica dos mercados, que ao fim e ao cabo a promoveu, é no sentido diametralmente oposto, qual seja, cortar empregos e restringir benefícios sociais básicos. 

 

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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