O ‘crack’ por vir: o fim do período “pós-crise”

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“os negócios surgem sempre excessivamente saudáveis na véspera de um crash”
Marx.

 

Com o desenrolar da crise global, especialmente os Estados Unidos e a Europa se deparam com uma crise fiscal sem precedentes na história, que poderíamos chamar de “estado de emergência fiscal”. O déficit no orçamento do governo estadunidense é o resultado de um longo período de gastos maiores do que a arrecadação, que, ainda mais com o desemprego crônico, traz uma queda no faturamento das empresas e do Estado. Nessa tendência, o medo da inadimplência de sua dívida astronômica também se torna crônico, já que a capacidade necessária para honrar seus compromissos fiscais no futuro é cada vez menos provável. Em suma, esse déficit orçamentário se divide em três partes:

 

1) Apesar das conversas sobre a “nova ordem mundial” e os “dividendos da paz” com o fim da guerra fria, além do escancaramento da crise em 2008, presenciamos a escala sem precedentes dos Estados capitalistas expandindo o complexo industrial-militar. Em 2008, chegou a alcançar US$ 1,46 trilhão no mundo, 4 % mais do que em 2007 e 45% mais do que 1999. Essa expansão do militarismo é atribuída à “guerra ao terror” disseminada pelo EUA. Em termos mundiais, os EUA lideram a lista de gastos militares, com um crescimento de 9,7% em 2008, chegando a US$ 607 bilhões.

 

2) Salvamento de bancos: financiado pelo Tesouro, os salvamentos estão na quantia de US$ 1,45 trilhão pelos pacotes Bush/Obama. Esse estado de emergência impõe a privatização de serviços públicos essenciais, parques nacionais, rodovias etc. O programa de resgate no governo Bush foi estimado em US$ 8,5 trilhões, para um salvamento saudável, excluindo a “ajuda” do governo Obama.

 

3) Juros sobre a dívida pública: as massas astronômicas do endividamento crescente dos EUA são historicamente progressivas. Nos últimos 30 anos, os Estados Unidos elevaram o teto de sua dívida 35 vezes. Segundo relatório sobre finanças públicas divulgado pelo Tesouro, a dívida atinge hoje US$ 14,580 trilhões e, para 2012,  se aponta para algo em torno de 16 trilhões, já que cresce cerca de 3,93 bilhões de dólares por dia. Esse processo de endividamento acontece em todos os países mais avançados, como Japão e Reino Unido, e envolve, inevitavelmente, novos desafios geopolíticos pela imbricação entre os financiadores dessas dívidas.  

 

Em meio a tudo isso, em meados de 2009, os apologistas do capital começaram a dizer que “o pior já passou”. O marco simbólico desse momento se dá pelo desempenho econômico da Goldmann Sachs. Após receber US$ 10 bilhões do Tesouro dos EUA em 2008, depois da quebra da concorrente Lehmann Brothers no dia 15 de setembro, a Goldmann Sachs informou ter lucrado US$ 3,4 bilhões entre abril e junho, 65% mais do que em igual período de 2008. Com esse resultado, a Bolsa de Valores de Nova York fechou em alta de 0,33%.

 

Depois desse marco, o mundo começou a ficar mais otimista com a crise e não poucos já enfatizam sua passagem para todo o sempre. No dia 24 de julho, a Dow Jones alcançou o maior nível em oito meses, passando de 9 mil pontos. Os lucros líquidos do setor bancário aumentam. Em Londres, o índice Financial Times teve alta de 1,46%, o DAX de Frankfurt ganhou 2,45%, a bolsa de Paris, o CAC-40, subiu 2,08%. Desse aumento das ações, até a gigante farmacêutica Roche teve ganhos de 3,2%, informando que irá expandir a produção do medicamento Tamiflu, utilizado no tratamento da gripe suína. Talvez o mais engraçado e filosófico comentário tenha sido o do diretor de vendas de produtos empresariais da Intel, Frank Johnson: “a realidade é que empresas são feitas de pessoas, por isso acredito que tudo é uma questão de atitude, da forma como escolhemos encarar a realidade. Otimismo gera otimismo” (Valor econômico, B3, 24 de julho).

 

No final de julho, até o presidente Barack Obama declarou que “podemos estar começando a ver o fim da recessão”. Passados alguns dias, esse mesmo espírito chegou ao Brasil. No dia 21 de julho, o Índice de Confiança do Empresário Industrial publica que, pela primeira vez no ano, o empresário está confiante na economia do país. Um economista da Confederação Nacional da Indústria disse: “acabou a percepção de crise, em princípio”. Outro da LCA Consultores continuou: “é normal no momento de saída de uma crise que os indicadores se mostrem contraditórios”. Este seria o início do período intitulado de “pós-crise” que, ao que tudo parece, durante o mês de agosto e setembro de 2011, rui como um castelo de cartas.

 

Neste início de agosto, as principais Bolsas do mundo caem devido à intensificação dos temores dos investidores com a desaceleração da economia global - puxada pela crise nos EUA - e com a crise do débito em curso na Europa, que agora ronda a Itália e a Espanha. A perda de confiança generalizada transtorna os mercados com o medo de que os gigantescos pacotes de salvamento da economia não tenham sido suficientes para retirar os países centrais do capitalismo de uma possível longa depressão. Mesmo com o “resgate da Grécia” e a elevação do teto da dívida nos Estados Unidos, o espectro da Depressão parece rondar o mundo, ainda mais com as expressivas resistências políticas em diferentes regiões. O que está ficando claro é que o período “pós-crise de 2008” foi apenas uma grande ilusão perto da dimensão gigantesca da crise global. Vivemos agora o temor de que a crise não tenha controle e nem possível “regulação”.   

           

Lembro que um comentário de Marx sobre o crack, em O Capital III, é interessantíssimo. Com o desdobramento da crise financeira, “o processo se complica tanto – com a emissão de meros papagaios, ou com negócios de mercadorias destinados apenas a fabricar letras – que pode subsistir a aparência tranqüila de negócio sólido e de retornos fáceis de dinheiro, quando há muito tempo esses retornos na realidade só se fazem mediante fraude contra prestamistas ou contra produtores. Por isso, sempre às vésperas do crack, os negócios aparentam quase solidez extrema... Os negócios vão muito bem, reina a maior prosperidade, e de repente surge a catástrofe”.

 

Um colapso se avizinha, a nova etapa da crise global, mas ainda sem alternativas sociais e organização internacional à disposição. São tempos interessantes em que as mobilizações populares existentes estão lutando no improviso, em condições extremamente complicadas.

 

Fernando Marcelino é analista internacional.

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Comentários   

0 #1 just some bad apples...felipe calabrez 09-08-2011 02:05
pois é. o problema é mesmo crônico. Se repete há cerca de 150 anos. Não faltam pesquisas teóricas que demonstram a inviabilidade de um sistema econômico que traveste seus fins de meios, e os propaga como meios por meio de ideologias. Não faltam fatos históricos que comprovam essas pesquisas teóricas. Não faltam jornalistas sábios e donos da verdade que propaguem aquelas ideologias. E pra ajudar, não faltam acadêmicos antenados com a mais nova novidade teórica que afirma não existirem estruturas nem lógicas sistêmicas e que, sem perceber, ajudam a matar a crítica. Pois então continuemos acreditando nas sábias palavras de Bush, que diz que não ha problemas no sistemas, But just some bad apples...
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