Economia, e não Política Externa, será o centro da eleição de 2012 nos EUA

  

É possível que a campanha presidencial de 2012 repita a mesma preocupação do eleitorado em 2008: a economia. O presidente Barack Obama chega ao fim do primeiro semestre do presente ano sem conseguir uma recuperação expressiva no índice de emprego e sem encaminhar bem sua proposta orçamentária diante de um Congresso arredio à implementação para o próximo ano de uma modesta reforma do sistema de saúde, aprovada na legislatura atual.

 

A eliminação de Bin Laden acrescentou à popularidade de Obama bons índices, próximos de 10 pontos percentuais segundo alguns institutos de opinião, porém efêmeros, uma vez que as medidas contra o terror, embora bastante controversas, têm sido eficientes em solo americano.

 

Assim, a periculosidade do grupo do saudita já havia sido reduzida na visão da população estadunidense e não teria afetado de maneira significativa a percepção mais recente do eleitor.

O incômodo ao cidadão médio não provém da contenção ao terror, mas da ineficiência das medidas econômicas: a ele, interessa a manutenção – ou a recuperação – do emprego, em vista também do acompanhamento do plano de saúde; a capacidade de pagamento da hipoteca – normalmente, com 20 a 30 anos a duração; e a possibilidade de poupar a anualidade futura dos filhos para ingresso na universidade.

 

A perplexidade diante dos reajustes expressivos do galão de gasolina, o que o faz vislumbrar um possível espectro da inflação, assusta muito o norte-americano de classe média. Na última eleição, a perspectiva de vitória para os democratas consolidou-se tão-somente com a derrocada de Bush na condução da economia no final da campanha. Até então, os resultados adversos da política exterior prejudicavam o candidato republicano, mas não a ponto de lhe impedir o eventual êxito. O malogro na área externa não mobilizava preocupação excessiva, em decorrência, como mencionado, do asseguramento da segurança interna.

 

De início, as estatísticas relativas a 2012 são favoráveis à aspiração do Partido Democrata: em cada três candidaturas a um segundo mandato, duas delas obtiveram êxito. Basta relembrar apenas Bush Filho e Clinton. No entanto, Bush sênior, não obstante a altíssima popularidade advinda da vitória da I Guerra do Golfo em 1991, perderia para o relativamente desconhecido governador do Arkansas. O motivo: a economia

 

Ao manter as linhas-mestras na política externa e não efetivar medidas econômicas voltadas ao interesse nacional, isto é, para o cotidiano da população, mas sim ao interesse especial, ou seja, para as corporações, Obama confunde o eleitorado ao sinalizar a impossibilidade de mudanças significativas no processo eleitoral, ao menos no curto prazo.

 

Com isso, sua candidatura a um segundo termo torna-se útil a setores conservadores da sociedade – em escala diferente, isso ocorre com freqüência na América do Sul. Vide o caso brasileiro.

 

Na prática, porém, a pequena diferença faz com que os progressistas ainda insistam em votar no candidato menos reacionário, apesar das alianças amplas, situando-o mais na esfera conservadora que reformadora. 

 

A título de exemplo, os democratas arrecadaram com mais de meio milhão de doadores quase 90 milhões de dólares para o pleito do próximo ano, enquanto seus adversários republicanos, a metade. De maneira surpreendente, os donativos são na casa de poucas centenas de dólares

 

O conservadorismo da gestão não provém apenas da inação na economia, mas da liberdade de expressão. Se, no Brasil, há silêncio oficial sobre a apuração da história da recente ditadura militar ou desinteresse no tocante à liberação de documentação histórica, lá, quase sob a mesma invocação - segurança nacional – utiliza-se a legislação, apesar da validade da 1ª Emenda, para reprimir a dissidência política.

 

A questão do Wikileaks é sintomática: se a divulgação eventualmente pôs em perigo servidores públicos norte-americanos, o correto seria apurar de acordo com o devido processo legal; por outro lado, se a ação de outros funcionários desencontrou-se da legislação nacional – ou da de acordos internacionais – o governo teria a obrigação, no mínimo moral, de também encaminhar para investigação.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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