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Escrito por Lucio Carvalho   
Sábado, 23 de Julho de 2011
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A festejada ascensão a novos patamares de consumo das camadas populares, fato reapontado a exaustão como o principal mérito e herança dos anos Lula, tem gerado novas repetições de um fenômeno aparentemente inextinguível na sociedade brasileira: a distinção econômica e o preconceito visceral contra a pobreza. Um tipo de iniciativa em especial, produzida no contexto do novo milagre econômico brasileiro, vem criando oportunidades ímpares para pessoas comuns vivenciarem na própria pele inconfundíveis experiências, digamos, de cunho quase antropológico. Trata-se dos sites coletivos de compras, fenômeno derivado desta ascensão e do comércio eletrônico, uma das mais crescentes fatias nas operações comerciais do Brasil recente.

 

Por definição, estas iniciativas (ClickOn, YouClube, Imperdível, Coquelux, Peixe Urbano etc.) são sites de descontos e oportunidades de consumo. São sites convidativos e simples, assim como o público a que se destina. Na tela de entrada, prepondera um design clean no qual um simples formulário sela o ingresso do internauta nos sistemas de compras, sem maiores dificuldades ou mesmo sem ser necessário entender toda a extensão de seu funcionamento. São serviços via de regra gratuitos e com possibilidades de imersão imediata no universo do consumo em promoção.

 

A partir daí, através do envio sistemático de e-mails, as ofertas veiculadas através dos sistemas de promoção e vendas passam a oportunizar condições excelentes e acesso, por preços módicos, a serviços e produtos de outro modo inacessíveis a grande parte das pessoas que compõem as classes C e D, hoje sabidamente o principal nicho de mercado na novíssima sociedade de serviços brasileira. Se essa oportunidade por si só pode ser tomada como o prato principal da iniciativa é preciso, todavia, dar a ver o seu acompanhamento. E torcer para que ele não venha logo na entrada.

 

No cardume dos consumidores, quem é VIP e quem é VUP?

 

Relatos de dissabores no atendimento aos consumidores que se utilizam de tais sistemas para adquirir serviços são incontáveis e, registre-se, a culpa exclusiva é daquelas empresas que optam livremente por aderir aos sistemas e depois promovem, sem o mínimo constrangimento, um atendimento diferenciado ao "cardume", em clara discriminação. Os dissabores vão de constrangimentos sutis a afrontas diretas ao direito do consumidor. Mas são situações que demonstram, essencialmente, o hiato que há entre ser consumidor e ser cidadão e o impasse que se estabelece na realização do sentimento de cidadania através do ato de consumir na e-sociedade contemporânea.

 

Assim como são colecionáveis os relatos de consumidores vigiados em restaurantes, preteridos em filas de espera e adiados sem prévio aviso nas mais diferentes espécies de estabelecimentos, no que se flagram humilhados e desprotegidos, também os clientes naturais destes lugares (ou espaços público-privados, como gostaria Habermas), pessoas com poder aquisitivo suficiente para prescindir destes recursos têm se encontrado diante de situações inusitadas. E aqui reside um dos fatos mais interessantes propiciados pela inovação trazida pelos sites de compras.

 

São aqueles clientes acostumados a receber um tratamento diferenciado (aqui no sentido qualitativamente positivo) e que, ao invés dos cupons impressos remotamente via internet, portam cartões de crédito especiais oferecidos muitas vezes de forma desonerada pelas instituições financeiras (trata-se, afinal, de pessoas com imenso lastro bancário e que precisam ser tratadas a pão-de-ló), que têm se colocado e exposto na nova "criteriologia" praticada pelos estabelecimentos comerciais. Isso acontece, de modo claro, ao entrar-se num restaurante e ser convocado a responder a crucial questão colocada pela gerência: "Vocês são do ...?".

 

Um reforço nas lições de História

 

A indelicadeza da pergunta que finaliza o último parágrafo não é senão uma variante da mesma indelicadeza com que a população pobre vem sendo tratada no Brasil desde sempre. Na época dos barões e dos quilombos (no passado, é claro) já era assim. Poucos países do globo parecem ter tanto apreço à idéia e ideologia da supremacia de uma elite, dos preferenciais, dos amigos do rei e dos VIPs como o Brasil. Não é preciso nem recorrer a um Roberto da Matta para perceber isso, basta sair por aí, numa livre e autogestionada imersão antropológica.

 

O que o fenômeno dos sites de compras traz consigo não é senão a emergência dos VUPs, ou very unimportant persons, enquanto potenciais pagantes e candidatos à cidadania no único modo pelo qual o termo parece ganhar significado sensível no tempo presente. O lamentável é que, no Brasil, historicamente ao pobre foi dito que ele deveria saber o seu lugar e a idéia parece ter criado raízes num tipo de inconsciente coletivo nacional.

 

As pessoas que estão sendo submetidas a tal tipo de exposição, na verdade estão apenas recebendo um reforço dessa lição, numa versão ‘e-moderna’ na qual os cardápios eletrônicos são convidativos e amistosos, mas as relações entre classes e suas representações mantêm intacta a ideologia do "você sabe com quem está falando/onde está pisando?" Mas enfim, o que esperar de um país onde ainda é preciso que se proponham dispositivos legais para que patrões e empregados domésticos possam compartilhar um mesmo elevador?

 

Lucio Carvalho é coordenador da revista digital Inclusive - inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br) e autor de Morphopolis (www.morphopolis.wordpress.com).

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