Em terras zapatistas

 

Entre os meses de maio e junho de 2011 estive no México, no estado de Chiapas, com o intuito de conhecer as conquistas e lutas zapatistas. E, pode-se afirmar, com toda certeza, que o zapatismo é um dos fenômenos mais complexos e ricos dentro dos recortes das lutas socialistas empreendidas na nossa América latina.

 

O zapatismo, tendo à frente o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), apareceu no cenário mexicano e internacional em primeiro de janeiro de 1994, dia em que o tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos e o Canadá (Nafta) entrou em vigor. Neste dia, tomaram a cidade histórica de San Cristóbal de Las Casas. O governo mexicano reagiu e enviou o exército, o que gerou um pequeno conflito bélico. Diante do impasse, o EZLN e o governo mexicano, o “Mau Governo” nos dizeres zapatistas, fecharam um acordo de cessar fogo, com a mediação fundamental de Dom Samuel Ruiz, então bispo de San Cristóbal. Apesar dos descumprimentos dos Acordos por parte do “Mau Governo” os zapatistas puderam atuar na política mexicana.

 

Sob a liderança do subcomandante Marcos, líder político, intelectual e militar do zapatismo, conseguiram diversas vitórias políticas para os camponeses, índios e mestiços de todo o México. Não participam da política institucional, preferindo realizar o que chamam de “Outra Política”.

 

Recentemente Marcos e outros líderes zapatistas percorreram o México, realizando contatos com movimentos, grupos e partidos que também pretendem construir um novo e socialista México, fora da institucionalidade burguesa.

 

Inicialmente, o EZLN era um grupo guerrilheiro, de orientação marxista tradicional. Em Chiapas, recebem o apoio de índios e mestiços camponeses que estavam ameaçados, pelo tratado do Nafta, de perder o seu Éjido, forma de plantação em comum desenvolvida pelos índios. Assim, houve um encontro entre os anseios de empobrecidos índios e revolucionários marxistas, criando um tipo de socialismo indígena do século XXI.

 

Hoje eles possuem municípios autônomos em Chiapas, os chamados Caracóis. Deve-se esclarecer que os zapatistas não pretendem se fechar nestes municípios, mas sim construir um novo México. Assim, a influência do zapatismo estende-se por todo o México, seja nas lutas pelos direitos dos trabalhadores ou na construção de uma nova esquerda.

 

Visitei dois Caracóis. O primeiro, de nome Oventic, situa-se mais próximo de San Cristóbal, na beira da estrada de asfalto. Antes de chegar, uma placa na estrada já dizia que ali mandava o povo e que o governo obedecia. Chegando, encontrei um local parecido com um assentamento do MST, porém bastante cercado, com muita segurança. Tive de me identificar, inclusive mostrando passaporte. Deixaram-me adentrar, porém trocaram pouquíssimas palavras. Todas as pessoas estavam mascaradas e uma mulher, com lenço no rosto, acompanhou-me durante toda a minha estada. Conheci casas muito simples, porém com belos desenhos em forma de painéis, assim como conheci a escola, o hospital, a venda, a cooperativa de café e de artesanato. Todos mantidos por eles, já que recusam recursos do “Mau Governo”, ou seja, os governos institucionais.

  

No segundo Caracol, de nome Morelia, tive muitas dificuldades de chegar ao local. Tomei vans lotadas que caminhavam em estradas cheias de curvas, camionetes velhas, de pneus gastos e cheia de índios e mestiços na carroceria, numa enorme falta de segurança. Além de tudo, o exército estava nas estradas. Caminhei por estradas de terra, rodeadas de montanhas, onde possivelmente estavam os membros do EZLN. Neste segundo Caracol, bem mais rústico e rural, encontrei a mesma segurança para adentrar. Porém, pude conversar com a “Junta de Bom Governo” e conhecer mais um município autônomo, que faz suas plantações apenas de forma orgânica.

 

Por fim, analiso que foi uma vivência política inesquecível, que estou documentando para um livro. Apesar de toda a segurança que eles impõem, senti que era necessária no contexto atual mexicano, pois tanto o exército como os paramilitares atuam na região. E, como conclusão, analiso que os zapatistas podem tanto se fechar em seus Caracóis como conseguir levar sua proposta de “mudar o mundo”. Oxalá, vença esta segunda opção!

 

Leia mais: 

Entrevista com Alejandro Buenrostro: o México e os zapatistas de ontem e de hoje

 

Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo, doutor em educação e professor na UFMG.

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