topleft
topright
ISSN 1983-697X

Boletim Diário

Email:
Para assinar o boletim de
notícias preencha o
formulário abaixo:
Nome:

Brasil nas Ruas

Confira os artigos sobre manifestações e movimentos sociais no Brasil.

Arquivo - Artigos

Áudios

Correio da Cidadania, rádio Central 3 e Revista Vaidapé fazem “debate autônomo” sobre as eleições  

Leia mais...
Image

Plinio de Arruda

MEMÓRIA

Confira os textos em homenagem a Plinio


Leia Mais

Plinio em Imagens



Confira a vida de Plínio


Charge


Imagem




Artigos por data

 Nov   December 2016   Jan
SMTWTFS
   1  2  3
  4  5  6  7  8  910
11121314151617
18192021222324
25262728293031
Julianna Walker Willis Technology

Links RSS

Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania

Áudios - Arquivo

AumentarDiminuirVoltar ao original
Entrevista com Alejandro Buenrostro: o México e os zapatistas de ontem e de hoje Imprimir E-mail
Escrito por Guga Dorea   
Quarta, 20 de Julho de 2011
Recomendar

 

Tenho escrito, há algum tempo, sobre qual é a relevância de conhecer os zapatistas no Brasil, além de alguns textos referentes aos cem anos da Revolução Mexicana. Por conta disso, optei por fechar o ciclo realizando essa entrevista com o sociólogo mexicano Alejandro Buenrostro, criador do projeto Xojobil, centro de Informação e Documentação sobre os zapatistas, em Guarulhos, São Paulo.

 

Alejandro nasceu no dia 9 de maio de 1935, na Cidade do México, e em 1981 cursou sociologia no departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Iberoamericana, também na Cidade do México, além do mestrado nessa mesma área, tendo inclusive realizado alguns créditos na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Durante algo em torno de 30 anos conviveu diretamente com a cultura indígena, quando em 1989 optou por se mudar para o Brasil com sua esposa brasileira, a pedagoga brasileira Maria José, que trabalhava com ele desde 1975 naquele país.

 

Antes de ir para o México, Maria José foi protagonista de uma das propostas mais instigantes e inovadoras da educação brasileira, ao atuar como professora da chamada Escola Vocacional, uma experiência pedagógica, criada pela educadora Maria Nilde, entre as décadas de 60 e 70, que desenvolveu um método experimental de ensino público nos municípios de Americana e Batatais, entre outras regiões de São Paulo, procurando estimular o senso crítico e o desejo de aprender de seus alunos.

 

Em São Paulo, Maria José e Alejandro entraram em contato com o comitê de solidariedade às comunidades zapatistas e, no ano de 2002, organizaram e lançaram o livro “Chiapas, construindo a esperança”, pela editora Paz e Terra, junto com o professor de geografia agrária da Universidade de São Paulo (USP) Ariovaldo Umbelino de Oliveira. Já em 2003, voltaram ao México para trazer uma série de livros sobre os zapatistas e os movimentos camponeses e indígenas do México, além do contexto político, econômico, social e cultural de seu país de origem.

 

Alejandro publicou ainda, pela Editora Alfarrabio, fundada pelos editores André Larcen e Rogério Chaves, o livro “As Raízes do fenômeno Chiapas: o Já Basta da Resistência Zapatista”, que expressa a sua experiência de vida entre os indígenas. E com o apoio do próprio André, que desenvolveu todo o projeto do site, nasceu então o projeto Xojobil.

 

Vamos, então, à entrevista:

 

Só para começarmos, fale um pouco sobre a sua experiência com os indígenas mexicanos?

 

Sempre tive uma experiência muito humana e amiga com meus pais e professores. Por conta dessa influência, cresci com uma imensa vontade de ser missionário e ter contato com professores que haviam tido experiências com os indígenas. A minha idéia inicial foi ir a Serra Tarahumara para conhecer a realidade dos índios em condições precárias de vida.

 

No entanto, quando fiquei sabendo, em 1957, que poderia trabalhar com os indígenas do estado de Chiapas, sul do México, optei por mudar de trilha e, no ano de 1961, decidi mesmo conhecer Chiapas. Nesse período, já conhecia algumas populações marginas, que viviam nas proximidades da Cidade do México, além de já participar de grupos de catequismo em zonas indígenas.

 

Quando cheguei em Bacharon, queria aprender a língua indígena. Participei da ação pastoral dos jesuítas e descobri que estavam totalmente distantes do meu pensamento. Eles propunham integração dos indígenas no que era conhecido como nação mexicana, que o objetivo maior deles deveria ser o de aprender o espanhol.

 

Foi então que, através desse contato direto com a língua e a cultura indígena, presenciei de perto o que é o racismo e o desprezo contra essa população por parte dos mestiços, além de vivenciar as condições humanas precárias que viviam naquele período e que vivem até hoje. Saí de Chiapas em 1980 para depois, até 1998, realizar alguns trabalhos em outros estados do país. Nesse período, de 1994 a 1998, atuei no Instituto Michoacan de Educação, sempre inserido na problemática das comunidades indígenas e camponesas.

 

Desde 1994, quando os zapatistas declararam guerra ao governo mexicano, a minha esposa se dedicou a registrar informações sobre esse movimento, com o objetivo de esclarecer o contexto político e social da época. O livro “Chiapas: construindo a esperança” tem artigos selecionados por ela. Quando chegamos ao Brasil, surgiu a necessidade de informar o que são e o que querem os zapatistas. Chegamos em 1998 e o que encontrei sobre os zapatistas foram interpretações acadêmicas, sobretudo marxistas. Foi aí que criei, junto com o André, o projeto Xojobil.

.

Vamos falar agora sobre a História do México. A Revolução Mexicana completou cem anos no ano passado. Qual é seu legado nos dias de hoje?

 

A insurreição massiva dos indígenas e camponeses na Revolução Mexicana provocou a ruptura do passado colonial e porfirista (Porfírio Díaz). A entrada do capitalismo, apoiada pela revolução burguesa, no entanto, impediu a trajetória espontânea do movimento popular.

 

Enquanto isso, os indígenas e camponeses resistiram e reforçaram a sua própria cultura. De um lado, é possível dizer que eles chegaram a ser absorvidos pela modernização, oferecida pelo capitalismo emergente no México daquela época. Mas de outro, não presenciamos a aniquilação do que aparentemente ficou para trás. A junção passado-presente abriu brechas para os indígenas inventarem outra forma de ser e de pensar o mundo, que desencadeou nos dias de hoje no movimento zapatista.

 

Zapata e Villa lutaram pela terra e pelo respeito à organização indígena e camponesa, enfim, pela dignidade. A luta zapatista atual reconhece a organização indígena e seus valores culturais, além da capacidade dessa cultura para enfrentar os desafios da modernidade. Pensando nessa força popular, outro legado deixado pela revolução foi a reforma agrária, uma distribuição social que favoreceu os setores populares como um todo. Também tivemos o surgimento da educação e do serviço de saúde gratuitos, além da confirmação da separação da Igreja do Estado.

 

Histórica e culturalmente, a esquerda ortodoxa sempre se guiou pela necessidade de conquistar o poder e só a partir daí almejar a ruptura com o capitalismo. Zapata e Villa desejavam o poder e fracassaram?

 

Eu acredito que não pretendiam o poder. Eles estavam querendo que as comunidades tivessem a possibilidade de realizar seu modo de vida com justiça, liberdade e solidariedade, com a participação coletiva de todos. Na realidade, os revolucionários burgueses estavam entusiasmados com o capitalismo e pensavam que os indígenas e camponeses se tornariam um obstáculo. Por conta disso, não valorizavam a sua cultura, decidindo reprimi-los. Em todo esse contexto, o legado da Revolução Mexicana hoje é a força dessa cultura que, depois de cem anos, continua viva nos corações dos indígenas e camponeses.

 

O que significa não desejar o poder?

 

Para a cultura indígena, o poder está na comunidade, no consenso da assembléia comunitária. A realidade cultural dos zapatistas e dos indígenas mexicanos é totalmente distinta da cultura ocidental, que tem como prática de poder o domínio e não a prestação de serviço. A experiência indígena, desde o descobrimento da América, foi experimentar a dominação, a exploração, a injustiça, o engano e a falta de respeito à dignidade humana.

 

Por isso, sua posição é não aceitar os poderes político e econômico do Estado burguês. Sua preocupação é lutar pela autonomia e dignidade, pelo bem de todos. Na visão ocidental, isso só é possível com a conquista do poder. Para a tradição indígena, não é esse poder que vale, é ter a possibilidade de crescer e viver, em paz, com a participação coletiva de todos.

 

Dessa forma, os zapatistas não querem ser vanguarda. Por quê?

 

Os zapatistas se consideram e querem ser considerados como uma das inúmeras forças existentes no país. Não querem impor sua própria maneira de lutar e sim conhecer profundamente os modos de pensar e de agir de todos os movimentos sociais e políticos existentes no México e também em outros países. São iniciativas que preparam o terreno para que todas as forças tenham a oportunidade de escutar e ser escutadas, sempre tendo em mente transformações realmente democráticas.

 

Enfim, eles querem aprender coletivamente o caminho a seguir. No momento atual, é reconhecer nos zapatistas a preocupação de escutar a todos que resistem e lutam pelo respeito à natureza e por um mundo mais humano e livre. O lema dos zapatistas é justiça, democracia e dignidade.

 

O que era autonomia para os zapatistas na época da revolução?

 

Enquanto para os revolucionários burgueses e a sociedade mexicana, em geral, o progresso era entrar e se adequar ao movimento de modernização existente na Europa e nos Estados Unidos, os indígenas e, concretamente, os zapatistas buscavam promover os recursos humanos, naturais e culturais do México. Eles tinham a visão de um México profundo, capaz de realizar o crescimento autônomo de seus valores culturais.

 

Como funcionam os municípios autônomos hoje?

 

A tarefa dos governos autônomos é analisar problemas e encontrar caminhos a partir do diálogo e da cultura da paz. Não há democracia sem a participação de todos, sem responsabilidade política pelo bem comum. Os municípios autônomos propõem uma nova relação com o Estado, com as instituições e todos os setores da sociedade. Autonomia é poder tomar as próprias decisões, sempre com diálogo e respeito. Os municípios autônomos já são, por si só, a mudança. Exercem, na prática, a possibilidade de transformação e de resistência.

 

Para os indígenas e os zapatistas, não existe propriamente uma hierarquia. Eles reconhecem as pessoas que prestaram serviços para a comunidade e todos sabem a importância do consenso comunitário. Nos municípios autônomos, as pessoas que têm autoridade foram eleitas democraticamente, sabendo que todos podem chegar a ser autoridade para executar o que foi decidido nas assembléias.

 

O que são os Caracóis?

 

Os zapatistas têm uma visão de mundo que tem permitido a eles tecer alianças continentais e contar com uma base social que tem se expandido para além dos limites dos municípios autônomos. Em cada caracol (rede social) existe um determinado número de municípios autônomos, que se conectam entre si, sempre com a preocupação do crescimento de todos. A partir de experiências e iniciativas locais, o que prevalece é sempre a colaboração e o respeito mútuo.

 

Leia mais:

Em terras zapatistas

 

Entrevista realizada por Guga Dorea, sociólogo e jornalista, além de colaborador do projeto Xojobil e da revista Incluir.

Recomendar
Última atualização em Sábado, 23 de Julho de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.


Vídeos

Índios Munduruku: Tecendo a Resistência

Imagem

Documentário sobre as resistências indígenas às hidrelétricas do Tapajós
Leia mais...

A Ordem na Mídia

Eugênio Bucci: “precisamos de um marco regulatório democrático na comunicação”


Há uma falência nos modelos de negócios refletida nas relações trabalhistas, na concentração de propriedade, formação de monopólios e oligopólios e no aparelhamento por parte de igrejas e partidos. Entrevistamos Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP, que afirmou a necessidade de um marco regulatório democrático para fortalecer a democracia no Brasil.
Leia mais...


Brasil_de_fato
Adital
Image
Image
Banner_observatorio
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image

Diario Liberdade

Espaço Cult

Image
Image
Revista Forum
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates