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Incêndio criminoso Imprimir E-mail
Escrito por Telma Monteiro   
Terça, 19 de Julho de 2011
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Os criminosos que atearam fogo nas divisas do nosso sítio, onde moramos há quinze anos, sabiam direitinho como nos colocar em risco e como o fogo se fecharia sobre nós vindo de duas frentes. Era sábado, as poucas pessoas da comunidade tinham ido à cidade e estávamos vulneráveis. A divisa oeste tem 1000 metros para uma estrada secundária de terra e a divisa sul tem 1500 metros para a propriedade vizinha, onde não tem edificações e não mora ninguém. Ao longo das duas divisas foi possível achar os pontos onde estiveram os focos, muito bem planejados, que deram origem ao incêndio. Da parte mais alta do sítio era possível divisar um horizonte de mais de 20 quilômetros de mata, em 360°, sem uma fumacinha sequer. Só ardia o perímetro de nossa propriedade. Estávamos experimentando o horror de sermos alvos de um atentado.  

 

Era para ser um dia glorioso. Às 8 horas da manhã, o céu estava muito azul e a mata resplandecia com o pouco orvalho da madrugada em tempos secos. Muitos passarinhos anunciavam mais um sábado agradável no interior dessa maravilhosa e biodiversa Mata Atlântica do alto Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo.

 

Nossa rotina foi a mesma. Tomamos nosso café da manhã na varanda de frente para o leste onde a mata sobe uma encosta. No lado sul, onde a varanda faz um L, a mata se debruça sobre nossa casa para onde vêm os jacus, os tucanos, os esquilos e os passarinhos dos mais diversos matizes em busca de comida nas folhas das helicônias vermelhas e amarelas. Bordeando a casa, uma grande cigarreira, agora quase totalmente seca no inverno, se esgalha sobre o telhado deixando cair as últimas folhinhas.

 

No lado oeste, atrás da casa, a mata brilhante continua, a uns cinco metros e se estende por mais de duzentos metros até a divisa com a estrada secundária lá no alto. No norte estão uma parte do jardim, a casa do caseiro e o passeio que vai dar no portão simples de madeira, discreto no meio da mata cheia de palmiteiros, saída para a estrada principal de terra. Bucólico, apenas uma casa no campo com mais de oitenta por cento de área de preservação.

 

O primeiro alerta veio ainda durante o café. Senti cheiro de cigarro e comentei com meu marido. Insisti. “Ninguém fuma aqui”, eu disse. Fui tomar banho e passados poucos minutos ouvi gritos e correria. Durval entrou correndo para me avisar que a mata estava pegando fogo e para eu ligar pedindo ajuda. Aqui no escritório, voltado para norte, de onde vejo o jardim através da porta balcão, pude ouvir o fogo crepitando na mata a menos de cem metros da casa. Vi as labaredas, a fumaça e minhas pernas fraquejaram.

 

Os computadores estavam ligados e fui direto para a tela do twitter onde comecei a postar meus pedidos de socorro. Liguei para 190 e implorei ajuda. “Minha casa é de madeira” eu gritava, “precisamos de ajuda” - e o fogo parecia cada vez mais intenso. As folhas calcinadas das árvores já entravam por todos os cantos tingindo tudo de negro. Um vento noroeste malvado começou a soprar com vigor.

 

Depois de postar os pedidos de socorro no twitter eu corri para ajudar os três homens no meio do inferno. Mais três rapazes chegaram e nosso desespero aumentou quando o fogo se aproximou da casa do caseiro e o vento tocava com vigor no sentido norte-sul, justamente na direção das casas. Enfrentar um incêndio na mata é um ato suicida. O fogo cerca, cresce, diminui e grita com tal intensidade e rapidez que é impossível controlar. A fumaça parece que vai romper nossos pulmões e o vento noroeste, com suas  rajadas repentinas, nos surpreende trazendo novas línguas de fogo.

 

 

Quando a primeira viatura da polícia militar chegou estávamos tentando impedir que o fogo avançasse na mata no setor oeste, toda a área no setor norte na divisa da estrada principal já havia ardido. Agora ele entrava na mata mais alta levado pelo vento. Os policiais correram para nos ajudar e com isso pudemos controlar em tempo esse fogo. As casas ficaram fora de perigo.

 

Mas toda a divisa sul do sítio (1500m), que está a cerca de 500 metros da nossa casa, ardia intensamente, junto ao linhão e à torre de transmissão da LT Itaberá-Tijuco Preto III de Eletrobrás Furnas, que vem de Itaipu. Nós sabíamos que havia fogo lá desde que começamos a combater o incêndio mais próximo das casas. A linha corta uma parte do sítio no sentido leste-oeste e duas torres ficam bem nas divisas. Essa é aquela mesma linha que teve problemas que resultaram no apagão de 2009.  

 

Todos nós corremos para a outra imensa linha de fogo que devorava tudo em volta. Os bombeiros finalmente chegaram. O fogo avançou para a mata que protege nossas nascentes e nesse ponto mais de cinco hectares foram engolidos pelo fogo. Nessa altura, ajudado pelo vento noroeste, o fogo tinha avançado para a área vizinha queimando tudo em volta da torre de transmissão e embaixo do linhão. Agora ele descia a nossa encosta completamente descontrolado em direção ao trecho do linhão dentro do sítio.

 

Depois de momentos de descanso quando os bombeiros achavam que o incêndio estava controlado ouvimos o crepitar novamente. Dessa vez o trabalho avançou até depois do anoitecer. Só depois das 20h o fogo parecia estar totalmente dominado. Foram 12 horas de combate. Eram quatro bombeiros, quatro policiais militares, sete jovens da comunidade e nós dois. No final todos estavam exaustos, desidratados, escoriados, intoxicados pela fumaça, mas salvos. O caminhão dos bombeiros teve problemas e infelizmente não pode usar a água que carregava. O combate ao incêndio foi no braço mesmo. Os policiais militares fizeram o Boletim de Ocorrência.

 

Antes que me esqueça: tentei chamar a emergência da subestação da Furnas que fica na cidade vizinha, Ibiúna, e a Telefonica disse que a empresa deu instruções para não passar o telefone. Tentei o escritório da Furnas de Mogi das Cruzes e ninguém atendeu. Liguei para o escritório do Rio de Janeiro e alguém disse que iria comunicar o caso. Ninguém da Furnas apareceu. Tenho solicitado sistematicamente para os responsáveis pelo escritório de Ibiúna da Furnas que é necessário manter uma brigada de salvamento para os casos de incêndio na mata próximos à linha. O fogo se intensifica brutalmente quando se aproxima da linha energizada e esse sempre foi nosso temor por aqui. Os acidentes com as linhas de transmissão são rotina e a Furnas adota o desligamento da energia como solução, mas não se equipa para o combate aos incêndios nas faixas de passagem cuja manutenção é de sua responsabilidade.  

 

 

 

Agradecemos sensibilizados aos que me ajudaram pelo Twitter e em especial aos heróis, policiais e civis, que arriscaram suas vidas para salvar nossa casa, a mata e o linhão de Furnas:

 

Posto de Bombeiro Itapecerica da Serra - Viatura AB 80

2° Sgt PM Dos Santos

Sd PM Araujo

Sd PM Covay

Estagiário Sd PM 2° CL Jones, 18° Pel; 2ª Cia – ESB

 

Viatura M25204 – 1° Pel. Juquitiba

Sd PM Borba

Sd PM Salvador

 

Viatura M25224

Sd PM Tashiro

Sd PM Simone

 

Comunidade do Bairro das Laranjeiras

Carlos de Morais

Martinho de Morais

Leonardo Bento da Silva

Leandro da Silva

Francylaine da Silva

Gisele Domingues

José Rodrigues

 

Telma Monteiro é ativista sócio-ambiental e pesquisadora na área de energia e infra-estrutura na Amazônia.  

Blog: http://telmadmonteiro.blogspot.com/2011/04/belo-monte-resposta-do-brasil-oea-e.html

Twitter: https://twitter.com/TelmaMonteiro 

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