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Facundo Cabral: daqui, de lá, de Deus Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
Sexta, 15 de Julho de 2011
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Não sou daqui nem de lá, cantava o cantor e compositor Facundo Cabral, argentino de La Plata, Província de Buenos Aires, nascido em 1937 e assassinado na Guatemala no último dia 9 de julho, data nacional de seu país. Calou-se a voz do trovador, que depois de uma difícil trajetória por uma infância e juventude pobres, uma viuvez trágica acontecida aos 40 anos, conquistou os corações de milhares e milhares de admiradores que hoje choram sua perda.

 

Facundo nasceu e morreu migrante e errante, nem daqui nem de lá, como cantava em seu maior sucesso musical “No soy de aqui, ni soy de allá”. Um dia antes de seu nascimento, o pai de Facundo abandonou a casa, esposa e sete filhos. O oitavo - Facundo - nasceu nas ruas de La Plata, pois após a partida do filho, o avô paterno expulsou nora e netos de sua propriedade. De La Plata mãe e filhos emigraram para a Terra do Fogo, extremo sul da Argentina.

 

A infância pobre e desprotegida levou Facundo à marginalidade e ao reformatório quando ainda jovem. O álcool onde afogava suas mágoas e dores o fez ser violento e considerado perigoso para a liberdade. Na prisão, um jesuíta o ensinou a ler e escrever, e o jovem inteligente e inquieto tomou contato com a literatura universal, terminando o curso primário e secundário em tempo recorde.

 

Foi um vagabundo errante e errático como ele, companheiro da rua, que o fez conhecer a religião, despertando sua espiritualidade sem pertença institucional alguma. Segundo ele mesmo, “comecei a cantar com a gente simples... E no dia 24 de fevereiro de 1954, um vagabundo me recitou o Sermão da Montanha e descobri que estava nascendo. Corri para escrever uma canção de ninar”.

 

Assim começou o amor pela música e a carreira musical, em um hotel de Mar del Plata. Mas foi em 1970 que gravou seu maior sucesso, “No soy de aqui ni soy de allá”, que o projetou internacionalmente e o fez ser traduzido em nove idiomas. Juntamente com o talento artístico, Facundo Cabral era alguém profundamente espiritualizado. Citava entre suas maiores influências Jesus de Nazaré, Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. E literariamente reconhecia paternidade em Borges e Walt Whitman.

 

Suas letras e canções são marcadas por uma observação comprometida e militante, inconformada e crítica. Tudo isso o fez ser persona non grata por parte da cruel ditadura argentina, que perdurou de 1976 a 1983. O talentoso cantor errante teve que exilar-se no México, continuando ali sua carreira musical, sempre itinerante, percorrendo lugares e países, levando sua música.

 

Regressou a Buenos Aires em 1984, dando shows multitudinários com enorme sucesso. No peito de Facundo, uma ferida sangrou até sua morte quando perdeu tragicamente a mulher e a filha em um acidente de avião. Novamente sem lar como quando nascera, Facundo passa a residir em quartos de hotel, enfatizando ainda mais a errância que o caracterizava.

 

Assim se descrevia quando completou 70 anos: “Foi mudo até os nove anos, analfabeto até os 14, enviuvou tragicamente aos 40 e conheceu seu pai aos 46. O mais pagão dos pregadores completa 70 anos e repassa sua vida em um quarto de hotel que escolheu como última morada.”

 

Facundo Cabral tinha 74 anos ao morrer assassinado no último dia 9 de julho, enquanto seu país celebrava a festa nacional. Havia dado grandes recitais na capital da Guatemala nos dias 5 e 7, aplaudido por centenas de fãs. Partia para a Nicarágua quando foi brutalmente assassinado por um grupo de homens armados de metralhadoras.

 

Apenas a morte imobilizou o inquieto peregrino e viajante que não era daqui nem de lá. A violência assassina das pobres cidades latino-americanas dirigiu-se contra ele e interrompeu seu canto. O mundo que amava sua música contempla estarrecido essa morte brutal que há muito vitima e fustiga os pobres, e que parece agora lançar-se também contra os artistas.

 

Facundo, que não era daqui nem de lá, agora é totalmente de Deus, do Deus que buscou sem cessar desde a infância desprotegida e pobre até a errância solitária e nostálgica da companheira e da filha que se foram antes da hora. Calou-se o cantor, mas não o canto. Este ficará para inspirar e mobilizar aqueles que como ele ainda acreditam que o sonho de Deus pode realizar-se neste mundo se não formos tão distraídos que sejamos incapazes de escutá-lo.

 

Maria Clara Bingemer, teóloga e professora da PUC-Rio, é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco), entre outros livros. (www.users.rdc.puc-rio.br/ágape)

Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br)

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