Política industrial interessa aos trabalhadores?

 

 

Os trabalhadores estão preparando um Dia Nacional de Mobilização. Sua pauta compreende um novo modelo de desenvolvimento, que tenha a educação como eixo. Eles também reivindicam alimentação melhor e mais barata, com eixo na reforma agrária, combate ao trabalho escravo no campo e fortalecimento da agricultura familiar, para evitar que o país continue sendo apenas exportador de commodities. E demandam o fim do imposto sindical, mais e melhores empregos e trabalho decente.

 

Boas vindas aos trabalhadores! Na intensa e surda disputa de classes da sociedade brasileira, eles são atores fundamentais e, sem suas mobilizações e suas lutas, será impossível avançar nas reformas e nas políticas democráticas e populares, nos diversos terrenos em que tais reformas e políticas são discutidas. Ou seja, além dos governos, parlamentos, tribunais e outras instituições, é fundamental que as ruas também as discutam e se façam ouvir.

 

O que inclui a discussão em torno de uma nova política industrial, conforme reivindicada pelo presidente da CUT. Discussão que é chave para o desenvolvimento como um todo, já que não é possível atacar os problemas sociais relacionados com educação, saúde, moradia, saneamento, recuperação e proteção ambiental se não houver recursos suficientes para isso. E a industrialização demonstrou ser a única forma histórica com capacidade de gerar recursos em volume suficiente para tratar desse conjunto de problemas sociais.

 

Sem indústria forte e diversificada é ilusão supor que se pode superar a condição do Brasil como país que só possui commodities agrícolas para exportar. Ou achar que se possa delinear um desenvolvimento que garanta a soberania nacional e que possa, no processo de disputa com o capitalismo, tornar-se socialmente justo, ambientalmente sustentável e voltado aos interesses populares.

 

Os trabalhadores podem dar uma contribuição inestimável nessa discussão, porque sabem que não pode existir uma classe trabalhadora forte sem indústrias. A coluna vertebral da classe trabalhadora são os operários industriais. Além disso, não existe desenvolvimento sem a construção de uma base industrial poderosa, tecnologicamente avançada, de alta produtividade, cuja produção de riqueza permita uma distribuição ampla da renda.

 

É lógico que a distribuição da renda, no modo de produção capitalista, não ocorre automaticamente. Se depender dos donos dos meios de produção, em sua busca pelo lucro máximo, a parte da riqueza gerada distribuída aos trabalhadores, via salário e outras formas, será a mínima possível, inclusive apelando para formas de trabalho aparentadas com o escravismo. Portanto, para que essa distribuição iníqua não ocorra, os trabalhadores são levados a lutar, podendo ou não contar com o auxílio do Estado.

 

Portanto, na atual discussão sobre desenvolvimento será preciso distinguir, de início, a existência de dois processos, relativamente paralelos e articulados. Um é o processo de geração de riqueza, cuja locomotiva é o desenvolvimento industrial. Este necessita de políticas claras de construção de uma infra-estrutura moderna e de instalação de plantas de fabricação dos setores produtivos estratégicos. Outro é o processo de distribuição da riqueza, cujos ramos principais são a poupança para a reprodução ampliada do processo produtivo, os salários, a educação, a saúde e as demais demandas sociais.

 

Portanto, como na velha disputa sobre a precedência do ovo e da galinha, é o ovo da geração de riqueza ou do desenvolvimento econômico que precede e garante a distribuição da riqueza, ou da renda. É evidente que educação, saúde, moradia e outras condições sociais são fundamentais para a elevação do processo de geração de riqueza a níveis sempre crescentes. No entanto, sem a famosa acumulação primitiva da riqueza, a distribuição não passará de sonho.

 

Paralelamente, a discussão sobre o desenvolvimento também deveria incluir a questão do modo de realizá-la. Tal questão, em geral, aparece mascarada sob a retórica do social e ambientalmente justo, e de acordo com os interesses populares. Seria melhor que ela fosse discutida abertamente em torno da possibilidade ou não do modo capitalista de produção poder realizar ou não tal desenvolvimento, ou da necessidade de sua substituição por um modo socialista de produção.

 

Para início de conversa, em ambos os casos é muito difícil realizar um desenvolvimento social e ambientalmente justo e totalmente de acordo com os interesses populares. E gerar utopias a respeito pode ser trágico, como a história já demonstrou. Mas esse é um problema que demanda muito mais espaço do que seria plausível neste artigo. Portanto, voltaremos a ele no próximo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #4 RE: Política industrial interessa aos trabalhadores?Ricardo Valdameri 21-07-2011 18:37
Olá, Wagner!
Obrigado pela sua contribuição. Com certeza a quantidade de riqueza produzida deve ser levada em consideração para saber qual é a real capacidade que um Estado posui para proprocionar prosperidade para sua população. No entanto, mais importante do que saber o quanto é produzido e o número de pessoas que exíste em um país é saber se a riqueza que é produzida está retornando para os seus reais produtores - os trabalhadores. Nesse sentido, ao analisarmos os setores da sociedade que são mais beneficcidos pelo Estado, podemos saber quais as verdadeiras prioriaddes desse Estado. Quando vemos notícias de mega-fusões patrocinadas pelo Governo, por exemplo, ou quando vemos a quantia de dinheiro despendida com o pagamento de juros da dívida pública, vemos claramente que a prioridade do Estado brasileiro está longe de ser aqueles que realmente produzem as riquezas e geram os impostos e isso não tem nada a ver com a soma de riquezas e sim com o destino dado a ela.
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0 #3 RE: Política industrial interessa aos trabalhadores? Wagner 18-07-2011 18:08
@Ricardo Valdameri
Ricardo, é errado considerar que país rico é aquele com alto PIB, porque isto é ignorar o tamanho da população. Seria mais correto dizer que um país rico tem alta renda por habitante, ou seja, muito dinheiro para gastar com cada cidadão.

O PIB per capita, por exemplo, mostra isso. Por ele, vemos que México, Panamá, Venezuela, Chile, Argentina e Uruguai (para ficar só na América Latina) são mais ricos que o Brasil, tendo, assim, mais recursos para gastar com cada pessoa.
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0 #2 New Delfim NetoRaymundo Araujo Filh 15-07-2011 22:13
Quem diria! A Ex Esquerda Corporation S.A., através de um dos seus principais articulistas, insatisfeitos em trair a classe trabalhadora com aquela conversa mole da "menas e menos ruim", agora ataca ressuscitando o cadáver insepulto de "Monsieur Dix Pour Cent", como era conhecido Delfim Neto quando embaixador do Brasil em Paris (Ah, Paris! Linda, mas não é a nossa Juiz de Fora!).

É pré hegleliano o Wladimir Pomar, pois não sabe que é o TIPO de Desenvolvimento Industrial que vai determinar a Distribuição de Renda ou se ela vai haver ou não.

E, não vai haver nada além dos lucros da burguesia, em um país em que, e não só por culpa de Collor e FHC, mas também de Lulla e DiLLma (e seus apoiadores) 70% do que compramos em um Supermercado (50% dos gastos da "nova classe média de R$800, 00 por mês), são de apenas 10 conglomerados industriais, clientes do BNDES (com dinheiro do FAT) .

Remamos, remamos para ler, em 2011 a versão requentada do dito Delfiniano da Ditadura Militar "primeiro cresce o bolo, depois a distribuição de renda".

PUTZ!!!
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0 #1 RE: Política industrial interessa aos trabalhadores? Ricardo Valdameri 15-07-2011 16:11
E sabido de todos que o Brasil é o país mais rico da América Latina e que é a 8ª economia do mundo. Então, em um país rico como o nosso (com orçamento público de R$ 1 trilhão, por exemplo) o ovo da geração de riqueza já "se transformou" em várias galinhas, que botaram vários outros ovos de ouro. Não precisamos ficar esperando o cozinheiro preparar a omelete para então pedirmos o nosso pedaço. Essa omelete já é saboreada há muito tempo por uma minoria, o detalhe é que, para os trabalhadores, só resta lamber o prato...
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