Brasileiro: profissão esperança

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Nosso povo teve uma amarga experiência nestes últimos cinqüenta anos. O brasileiro comum ficou reconhecido pelo nome de uma peça teatral, cujo título era Brasileiro: profissão esperança. Ao longo da história recente, fez jus à esta profissão, que soube abraçar de uma forma tão irrefletida quanto sincera.

 

Saído da 2ª. Grande Guerra redemocratizado, o brasileiro teve na eleição de Getúlio Vargas, em 1950, a carteira de trabalho assinada na profissão esperança de melhores dias, e viu tudo desmoronar com o suicídio do presidente em agosto de 1954.

 

Após isso, com Juscelino Kubitschek, teve seus cinco anos de trabalho contínuo com desenvolvimento febril (entre 1956 e 1960) na economia, na política com amplas liberdades democráticas, nas artes em geral e na música - e, em particular, na arquitetura da nova capital e no slogan que a caracterizou: foram cinqüenta anos em cinco!

 

Com Jânio, a decepção foi total, pois este se elegeu com a bandeira do desenvolvimento sem corrupção. Seria a vassoura que varreria a tudo e a todos. Sete meses depois, em agosto de 1961, renunciou pateticamente.

 

Esboçou-se, então, o golpe militar - sem êxito, pois a surpresa não permitiu sua preparação. Assim assumiu João Goulart, o Jango, primeiro no parlamentarismo depois no presidencialismo. No entanto, o caminho do golpe ali delineou-se e, até 1964, houve tempo suficiente para organizá-lo e planejá-lo com sucesso - e houve também a participação ativa do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon. Deposto o presidente eleito democraticamente, estabeleceu-se a ditadura militar.

 

O discurso das Forças Armadas, apesar de falso, era sedutor: desenvolvimento do país, reformas de base sem demagogia, combate à corrupção, ao analfabetismo (por meio do MOBRAL), à subversão. Por aí, a profissão esperança persiste.

 

Brasil, o país do futuro - e o futuro chegou! Ame-o ou deixe-o! Por bem ou por mal, na repressão feroz, na força bruta, na tortura e na morte. AI 5, abaixo os escrúpulos de consciência!

 

Vinte anos depois, em 1985, com o fracasso da ditadura militar, volta a democracia. A esperança agora é Tancredo Neves, o primeiro presidente civil pós-golpe. Foi eleito indiretamente, mas era civil.

 

E Tancredo nem toma posse. Quem assume é seu vice José Sarney, também civil, mas que sempre apoiou o golpe. Sarney lança o Plano Cruzado anti-inflação e o brasileiro profissão esperança vai para as ruas, aos super mercados e fiscaliza tudo para que o plano dê certo. O Plano Cruzado é utilizado politicamente nas eleições de 1986 e fracassa fragorosamente.

 

O profissão esperança está desempregado, mas por pouco tempo. O próximo presidente é jovem, rico e combate os marajás do funcionalismo público, que vai dar um tiro - um só - na inflação e tem "aquilo" roxo. Agora o Brasil tem que dar certo!

 

A esperança volta a ter vez, mas é breve, pois Collor é outro - mais um - enganador e é defenestrado. Em seu lugar, no ano de 1992, assume o vice - um mineiro pacato, Itamar Franco, bom de topete, que lança novo plano, o Plano Real.

 

O Plano parece que vai vingar, pois vai estabilizar a moeda e criar as bases para desenvolver o país. Seu substituto, Fernando Henrique Cardoso, assume a presidência por ser o "dono" do plano e fica 8 anos - comprou a reeleição para si - na lá, prometendo tirar o Estado das atividades que podem passar para a iniciativa privada e colocá-lo naquilo que é seu fim: a educação, a saúde, a segurança e o desenvolvimento. É o Consenso de Washington!

 

FHC vende quase tudo na bacia das almas e a saúde, educação a segurança continuam onde sempre estiveram - ou seja, vai de mal a pior. A moeda é estabilizada, mas o desenvolvimento é pífio e o resultado é mais uma década perdida.

 

Com tudo sendo feito de forma errada, contra o povo e o país, eis que se elege Lula, o operário que veio para mudar tudo. Estamos no novo século; o ano é 2003.

 

E Lula assume e não muda nada. Aliás, muda só uma coisa: ele mesmo.

 

Alia-se ao que há de mais retrógrado e corrupto no país e ainda se reelege por mais quatro anos. Àqueles que chamava de picaretas, une-se da forma mais cínica. Forma um novo centrão. A oposição é igual, só que com sua turma mais ou menos longe do poder.

 

Aquilo que os conservadores e as elites sempre afirmavam, neste momento, mostra-se real: "nós políticos somos todos iguais, somos farinha do mesmo saco". Nosso povo sempre condenou este conceito, pois seria descrer de tudo e de todos.

 

Agora, a esperança afastou-se do povo. Tornou-se invisível, sem odor e sem sabor, é inaudível e não tem graça.

 

O brasileiro: profissão esperança, depois de mais de 50 anos de trabalho árduo, aposentou-se.

 

A profissão esperança, por enquanto, deixou de existir, como ocorreu com o motorneiro, o leiteiro, o fotógrafo lambe-lambe, o acendedor de lampião. Deixa saudades.

 

 

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