A dialética do negaceio

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O escritório de advocacia onde pontifica a atual esposa do governador Cabral, Adriana Ancelmo, é titular de contratos permanentes para a defesa de empresas concessionárias de serviços púbicos. Não se trata de denúncia nova ou de segredo revelado. Faz tempo que tal fato, outrora capitulado como inaceitável, chegou ao conhecimento público sem produzir grandes abalos. Todos sabem, mas, por enquanto, só os bueiros explodem.

 

Nos debates da última campanha eleitoral, interpelado sobre o tema pelo candidato do PSOL, Jefferson Moura, o governador contestou de maneira a revelar com clareza o seu estilo e caráter. Fingiu desconhecer a natureza da interpelação e, categórico, respondeu que a esposa fizera o Exame da OAB. Portanto, estava, sim, qualificada para advogar. Saiu pela tangente e ponto final. Ginga malandra de quem se acredita na posse plena do dom de iludir.

 

Apesar dos abalos provocados pelo ramalhete de escândalos desatado em Trancoso, o governador continua o mesmo. É o que se deduz da entrevista concedida ao sistema Globo, rádio CBN e jornal, na semana passada. Ele tirou licença, amargou luto, deve ter pesado cada palavra e, principalmente, a estratégia de saída para a encalacrada em que se encontra. O resultado da entrevista revela mais do mesmo. Recoloca o governador na sua rota de sempre: a espantosa dialética do negaceio.

 

Depois de afirmar, na entrevista, que “sempre procurei separar minha vida privada da vida pública”, ele declarou: “quero assumir o compromisso de rever minha conduta”. Lógica truncada, declarações contraditórias. Ao justificar o volume de obras públicas contratadas, algumas sem licitação, pela empreiteira do amigo, ele repetiu sem tirar nem por o que já estava na nota da empresa. Ou seja, ao tentar desmentir, reitera a mesma intimidade promíscua.

 

O ponto alto da entrevista, onde se localiza o objetivo para o qual ela foi armada, é a convocatória geral para o debate sobre a ética na política. Está lá, destacado no primeiro parágrafo da matéria impressa: “Sérgio Cabral defendeu ontem um amplo debate sobre ética e propôs a criação de um código de conduta para ele mesmo cumprir”. E, como laço do buquê, a célebre frase: “eu adoro direito comparado”. Sensacional. A primeira dama fez o exame da OAB e seu marido adora direito comparado. Logo, podemos dormir tranqüilos.

 

No desdobramento da conclamação, os melhores auxiliares do governo foram postos ao serviço da nova tarefa. “Vamos ver o que há em outros estados e no mundo”, determinou o governador. Com isso, os jornais dos dias seguintes foram abastecidos com os prolegômenos da portentosa tarefa. Ao invés de uma, já são duas as comissões a serem criadas, ambas com a composição indicada pelo governador: a CEAA, Comissão de Ética da Alta Administração; e a CEPE, Comissão de Ética Pública Estadual.  

 

E os bilhões de isenções fiscais para empresários amigos, destes que emprestam aviões que não são de carreira? E a facilitação de duvidosas licenças ambientais? E os contratos milionários, alguns sem licitações, fechados com amigos do peito, destes que fornecem boca livre e outros divertimentos? Tudo isso é página virada, lembranças desagradáveis de um passado que é preferível esquecer. Daqui prá frente, tudo vai ser diferente. A imprensa investigativa já redireciona o seu foco. A questão fundamental, agora, é vigiar e punir com rigor os burocratas que receberem brindes com valor acima de R$ 400,00.  

 

Oswald de Andrade, o homenageado deste ano na festa cultural de Parati, postulava a vitória do ócio contra o negócio no “Matriarcado de Pindorama”, o reino idílico da utopia ditosa. Em nossa desdita atual, o reino fatídico da máquina mercante, o governador Cabral propõe inverter os termos da consigna. Quer transformar em teoria a sua prática: o ócio a favor do negócio. O “direito” comparado será enquadrado no “feito” do cinismo incomparável, em mais uma vitória da dialética do negaceio.

 

Leia também o artigo anterior de Leo Lince:
A encalacrada do Cabral 

 

Léo Lince é sociólogo.

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