Investimentos estrangeiros e desenvolvimento

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Reativam-se as notícias de aumento nas entradas de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) na economia brasileira. As projeções mais otimistas para o ano de 2011 apontam a possibilidade desses investimentos chegarem a mais de 70 bilhões de dólares. Seria o melhor dos mundos se tais investimentos fossem direcionados para a infra-estrutura e para a instalação de plantas industriais capazes de adensar as cadeias produtivas do país.

 

No entanto, há indícios de que parcela considerável desses investimentos está entrando no Brasil para praticar uma especulação disfarçada, aproveitando-se dos altos juros internos. Nessas condições, ao invés de promover o desenvolvimento industrial, fundamental para fortalecer a musculatura econômica do país e sua capacidade de competição no mercado internacional, esse tipo de investimento estrangeiro, carimbado como direto, se dirige principalmente para fundos de investimentos e para o setor de serviços, mantendo as fragilidades de nossa atual cadeia produtiva.

 

Alguns economistas têm sugerido que os investimentos estrangeiros sejam taxados. Outros sugerem que sejam isentados dessa taxação os capitais estrangeiros direcionados para projetos desejáveis. Também há os que não admitem taxações para qualquer tipo de investimento estrangeiro. Para eles, taxações inibiriam a entrada de investimentos num país que, como o Brasil, conta uma poupança interna abaixo de 17% do PIB, incapaz de alavancar o desenvolvimento.

 

Por um lado, isso é verdade. O Brasil pode realmente passar ao mundo a idéia de que é contra a entrada de capitais externos. Por outro lado, a farta entrada desses capitais valoriza o real e tira competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. Além disso, capitais estrangeiros de curto prazo, puros ou falseados de investimentos diretos, não trazem benefício algum ao país, lucrando apenas em cima dos juros altos.

 

Nessas condições, a única forma de fazer com que capitais estrangeiros tragam benefícios para o país consiste em fazer com que eles sejam realmente desejáveis. Isto é, estejam relacionados com projetos que desenvolvam a infra-estrutura de energia, transportes, telecomunicações, ciências e tecnologias, adensem as cadeias produtivas industriais e introduzam fortes componentes de inovação.

 

É evidente que isso pressupõe que o governo defina uma política de investimentos estrangeiros, provavelmente numa ordem de investimentos incentivados ou estimulados, investimentos restringidos e investimentos proibidos. Em outras palavras, que tenha a capacidade de realmente determinar o que é bom e o que não é bom para o país.

 

Investimentos estimulados, por exemplo, podem ser aqueles relacionados com a construção energética e aeroportuária, com a implantação de indústrias de máquinas, ferramentas, turbinas, geradores e componentes tecnológicos que hoje importamos. Investimentos restringidos, por exemplo, seriam aqueles relacionados com produtos em que já existe uma oferta excedente no país. E proibidos devem ser os investimentos direcionados para a produção de armamentos e poluentes.

 

Ao contrário do que pensam uns, não será despropósito algum exigir que os projetos de investimentos sejam examinados por um órgão do governo responsável por conferir se o investimento corresponde ao interesse nacional. Se fosse um despropósito, que afugentasse capitais estrangeiros, a China e o Vietnã não estariam crescendo com altas taxa de investimentos estrangeiros diretos, já que eles fazem uso constante de procedimentos idênticos a este, desde que iniciaram seus programas de industrialização.

Também não é, como pensam outros, uma tarefa inútil, porque supostamente não haveria como monitorar a aplicação dos recursos.

 

Mesmo porque eles deixarão de ser não-carimbados e passarão a ser carimbados, sob contrato. O investimento que for destinado à ampliação de uma indústria, com os mecanismos de controle hoje existentes, pode ser monitorado sem dificuldade. E, se for utilizado para outro propósito, pode ser penalizado de acordo com os termos contratuais.

 

Chegou o momento de o governo brasileiro estabelecer parâmetros mais definidos para a entrada de capitais estrangeiros no Brasil, impedindo ou limitando o ingresso de capitais especulativos, de curto prazo, e estimulando os capitais estrangeiros diretos para as áreas estratégicas do desenvolvimento científico e tecnológico da indústria e da infra-estrutura.

 

Se o governo continuar admitindo que mais de 60% dos investimentos estrangeiros no Brasil sejam direcionados para os serviços e o comércio, enquanto menos de 30% são direcionados para a indústria, acabará dando razão aos que afirmam que o Brasil entrou na rota sem volta da desindustrialização. Se é verdade que país rico é país sem miséria, também é verdade que não existe país rico sem indústria desenvolvida. Sem desenvolver a indústria não é possível gerar riqueza suficiente para distribuí-la, até mesmo de forma menos desigual.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #3 PedroRaymundo Araujo Filh 13-07-2011 16:30
Se você um dia ler o que escrevia na eleição de Lulla em 2002, verás que não faço o papel de marido traído (que feio a sua forma de apoiar o governo que, afinal, pelo que vejo, não gostas). Votei em Lulla em 2002 (em 1989, no segundo turno), apenas com alguma esperança que ALGUMAS políticas poderiam ser alvo de disputas de projeto em seu governo.

No mais, Pedro, uso o espaço do correio para decifrar a política, e não tentar resolver problemas sentimentais.

Mas, já que abristes o estilo Contigo, aqui no Correio, sugiro que não faças o papel da amante, nesta história toda, a defender seu objeto de "amor".

ABS

Raymundo
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0 #2 Pobre Raymundo.Pedro 09-07-2011 16:29
Raymundo, meu caro, não se aches como o marido que descobre a traição e fica com a sensação de ser o último a saber. Só isso tem a capacidade de explicar sua raiva visceral.

O Lula Lá é de 89, e cada vez mais o PT foi abandonando seu projeto de transformação radical da sociedade, o famigerado PDP. Apostando numa estratégia de conciliação de classes.

Não fique assim, raymundo, parece que a paixão era tanta que vc não via os defeitos de sua amante.

Abraços.
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0 #1 Viva as PPPsRaymundo Araujo filh 05-07-2011 15:20
Mais uma vez, Wladimir Pomar expõe mais uma vez a capitulaç~çao ideológica, acomodação pequeno burguesa e uma alienação só comparável aos indigentes brasileiros.

Assim, para combater o aporte por aqui de capitais especulativos, aceita finalmente, o plano gestado lá fora, iniciado por FHC, continuado por Lulla e vai de vento na popa da DiLLma.

Sãos as Parcerias Públicos Privadas, aquelas que o PT e os petistas tanto combateram.

Gasta-se dinheiro com o Maracanã, pagando adiantado à empreiteira de seu amigo e lhe dando a exploração do templo, o mesmo com as obras de infra estrutura dos aeroportos, dos outros estádios para a Copa, com trens, metrôs e o escambau. E dentro de um quadro que, como diz o Lulla "os banqueiros nunca ganharam tanto...".

Os programas de habitação do PAC cobram do trabalhador R$1 mil por m2 (preço de luxo na zona sul)construído com tijolos de segunda categoria, sem um mínimo de cuidado (até o Lulla disse isso) e em lugares longínquos.

Tudo com dinheiro do próprio governo ou BNDES.

E o Wladimir Pomar a achar que isso é diferenciar o capitalista financeiro do industrial.

Wladimir Pomar é tão direita que atépobres reformistas como eu, lhe parece Ultra Esquerda.

Sugiro a ele que leia sobre Makhno, e não trema mais de medo, por causa de uma gente que nada mais propõe do que aquilo que era a agenda original do PT e do Lulla, ao ser eleito em 2002.

Que seus medos sobre qualquer tipo de enfrentamento, ao menos, não nos tenha como desculpa.....
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