O mundo em marcha

 

Marchas nas ruas, a céu aberto. Marchas para frente ou para trás? As marchas e contramarchas que o mundo dá.

 

Marcha, soldado! Quem não ouviu essa canção quando criança? Marchava-se com cabeça de papel. E quem não marchava direito ficava preso no quartel.

 

Marcha não é só andadura dos soldados, tanto mais imponente quanto mais prepotente a ditadura. Marcha pode ser andada democrática. Todos podemos marchar em nome de causas que nos pareçam justas.

 

As marchas se entrecruzam nas esquinas. Os cidadãos de todas as idades marcham pela cidade, levantam cartazes, reclamam do governo, do mundo, da vida e da história. Vários pelotões com bandeiras várias vão marchando pelas avenidas paulistas, cariocas, brasilienses, brasilianas, africanas, europeias, marchando em asfalto, pedras e areia, vão marchando de qualquer maneira.

 

A marcha da maconha marcha sem vergonha, fazendo barulho para defender o seu bagulho.

 

A marcha para Jesus vai marchando e rezando, quer ultrapassar as antigas procissões católicas.

 

A marcha das vadias é a marcha da ironia na via pública, contra os desvios próprios do machismo.

 

A marcha gay é parada que não pára de marchar, pular, cantar, dançar. É só alegria, embora às vezes dê o maior pau.

 

As marchas vão marchando, com dezenas ou milhares de pés, sobem ladeiras, invadem praças, desafiam pequenas e grandes desgraças. As marchas têm sempre no protesto a sua marca. E na marcha há muitas caras, pintadas, lavadas, com nariz de palhaço e apitaço.

 

Toda marcha tem um pouco de marcha fúnebre. Para enterrar algum morto. Fazer do luto uma outra vida em sociedade.

 

Toda marcha tem um pouco de marcha nupcial. Para celebrar o casamento de uma ideia com seus protetores, de uma causa com seus defensores, de um sonho com seus sonhadores.

 

Toda marcha tem um pouco de marchinha de carnaval. Para batucar e desfilar um enredo, um medo, uma vontade de sorrir, antes e depois do choro.

 

Marchar não é caminhar pelo caminho de sempre. Marchar é desbravar, esbravejar. Toda marcha é caso de polícia, e sabem, muitos dos que marcham, as marcas do cassetete.

 

Marchar é reivindicar com os pés e a voz: cobrar salário, emprego, segurança, educação, atenção, terra, teto, respeito.

 

Há marchas que são marcha a ré. Outras são evolução.

 

Cada marcha tem seu destino, sua convicção.

 

Diga-me a sua marcha, e lhe direi... se vou.

 

Gabriel Perissé é Doutor em Educação pela USP e escritor.

Website: www.perisse.com.br

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