BNDES patrocina “Socialismo dos Ricos” na fusão Pão de Açúcar-Carrefour

 

O dia começa mal, na leitura da primeira página do "Valor Econômico", um dos espaços de mídia onde se encontra jornalismo de qualidade. Abílio Diniz vai atrás de R$ 3,9 bilhões do BNDES, para uma operação de fusão Pão de Açúcar-Carrefour, onde não entrará com UM TOSTÃO, mas passará a controlar 32,2% das vendas do varejo nacional. Sem colocar um tostão do seu bolso, vale repetir.

 

Logo a seguir, "Commodities representam 71% do valor das exportações", mancheteia uma matéria que, no corpo, revela a fragilidade da operação - a maior parte está baseada em produtos, cujo preço não controlamos. Ou seja, se a crise da dívida norte-americana radicalizar por disputas eleitorais entre democratas e republicanos nos Estados Unidos e a China mudar o eixo do comércio internacional, diminuindo importações, olha nós aí, no brejo.

 

O grave é que o porcentual de commodities sobre manufaturados aumentou na balança de exportações. Em relação ao ano passado, aumentaram 39,1%, enquanto os manufaturados subiram apenas 15,1%.

 

Resta o plano inferior da página: "Na Olimpíada, uma antevisão da crise grega". Por quê? Simples. Gastos iniciais de US$ 1,5 bilhão terminaram em US$ 11,9 bi, oficialmente, porque há indícios, diz o texto, de que possa ter chegado a 30 bilhões de euros – cerca de 50 bilhões de reais.

 

Mas vamos tratar especificamente da manchete principal, porque a lusitana ainda está girando, e a torcida é grande para que o sócio francês de Diniz, o Casino, consiga melar a baderna.

 

Para quem gerou um "seqüestro" suspeitíssimo na véspera do segundo turno em 1989, com Lula tendo grandes chances de vitória comprometidas pelas suspeitas de ligações políticas com os seqüestradores, esse neopetista realmente progrediu. Virou, junto com Gerdau, os controladores do Bradesco e Itaú e os predadores do agronegócio, um dos principais "aliados" do lulismo pragmático.

 

Esta mais recente ameaça de tenebrosa transação comprova como o polulismo, digo, o populismo lulista, foi competente na metamorfose. Transformou um projeto classista de mudança radical da realidade brasileira no mais eficaz agente do capital monopolista em nosso país.

 

Em oito anos, conseguiu gerar um modelo em que todos ganham - uns muito mais que outros, evidentemente -, suficientemente para colocar colchões amortecedores entre classes em conflito. Sintetizando, esses quase R$ 4 bilhões que o BNDES pode proporcionar à manobra de Diniz correspondem à metade do que foi destinado a tornar "felizes" 11 milhões de famílias com a Bolsa, em 2007. E cito 2007, pois foi o último ano em que me preocupei em seguir a relação lucros bancários-combate à miséria por políticas assistencialistas.

 

Naquele então, o destinado à Bolsa família, em 12 meses, correspondia ao lucro, em 9 meses, do segundo maior banco privado brasileiro, o Bradesco. Porque o primeiro, o Itaú, nesses mesmos 9 meses, tivera um lucro exatamente R$ 500 milhões maior que o despendido com o "social".

 

Pois bem. Sob a ótica do prestígio ao desenvolvimentismo, sobre o monetarismo - na essência, louvável -, estamos, mais uma vez e de fato, diante de uma proposta clara de privatização do lucro, com socialização previsível do prejuízo.

 

Os recursos que faltam para as políticas públicas, em virtude de um criminoso superávit fiscal, voltado a garantir retorno aos bancos sem risco de tudo o que se especula com a dívida pública - crescente em progressão geométrica desde que o modelo macroeconômico se iniciou lá no mandarinato tucano-pefelista de FHC -, são acrescidos agora pelos constantes "empréstimos" que o Tesouro vem fazendo ao BNDES.

 

Empréstimos que se transformam em transferências subsidiadas para as operações - reitero, sem riscos - do grande capital, em suas operações de fusão. Operações de fusão que, é bom ser dito, em nada vêm impedindo a constante desindustrialização do nosso parque produtivo, em benefício de operações financeiras que ninguém sabe onde vão dar.

 

Barra pesada, e no dia seguinte ao desligamento de um quadro histórico e simbólico como Vladimir Palmeira. O que deve servir de reflexão aos petistas que ainda acreditam que o PT seja "socialista", como consta do programa.

 

Ou será que estariam de acordo em defender o que Noam Chomsky definiu como "socialismo dos ricos"?

 

Milton Temer é jornalista.

Comentários   

0 #7 bateram em retiradaRaymundo Araujo Filh 14-07-2011 15:40
O furdunço foi de tal monta que o BNDES comunicou que não irá colocar dinheiro nesta fusão "sem que TODAS as partes estejam concordantes".

Só que até para fazer o certo, esta turma do BNDES paga mico, deixando à vista os seus pundonores íntimos.

Acontece que a Tecnocracia do BNDES, pelo visto, desconhece que o TRBALHADOR Brasileiro é PARTE deste negócio, afinal a maior parte do dinheiro deste que era para ser um fomentador de desenvolvimento e não de negociatas, são surrupiados do FAT (Fundo de amparo ao Trabalhador).

alguém conhece um Trabalhador, ou pequeno empreendedor aquinhioado com a grana farta, juros baixos e pagamento a perder de vista.....?
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0 #6 Foi a Paga!Raymundo Araujo Filh 03-07-2011 00:53
Não foi em vão o declarado apoio de abílio diniz para Lulla e DiLLma, assim como o apoio de Silvio Santos a esta gente, assim como.....

Que o PSOL se livre das lucianas genros que, sem Poder algum, já aceita dinheiro do Gerdau...
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0 #5 RE: BNDES patrocina “Socialismo dos Ricos” na fusão Pão de Açúcar-Carrefour Jose Medida 02-07-2011 23:51
Esta história, mais uma, do governo do Brasil, sob administração petista, dar dinheiro público para empresas privadas sanearem seus negócios infectos, já está a produzir perplexidade e constrangimento nos corações e mentes de todo cidadão que confiou seu voto no projeto político do PT, conduzido por Lula em dois mandatos e na continuação com Dilma. Se o PT e todo seu grupo político à esquerda estão a agir de modo tão condenável, o que será de nós então? Em quem vamos agora confiar? Se o poder acaba sendo este veneno irresistível que destroi as consciências mais progressistas, transformando-as em mentes viciadas na cobiça e corrupção.
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0 #4 Populismo?Luís Felipe 02-07-2011 12:42
Estou indignado com a fusão do Pão de Açúcar, por isso fiquei contente com o título do artigo e já iria postar no meu Facebook, mas mais uma vez acabei me irritando com o Correio da Cidadania.

Acho mesmo que temos que fazer uma crítica à esquerda do governo PT. No entanto, utilizar os mesmos argumentos da direita enfraquece DEMAIS o discurso, além de enfraquecer a própria esquerda, dando apoio ao que a direita diz.
Discordo que Lula seja populista, e por esse e outros motivos não visito mais o Correio da Cidadania.
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0 #3 BRASIL PARA OS RICOSJosé Antonio Bonfim 02-07-2011 11:22
. O artigo em questão atingiu o alvo. Cada vez mais, o Brasil torna-se uma República voltada quase exclusivamente para os ricos e poderosos. Assim, fica difícil construir a Nação dos nossos sonhos. A Pátria de todos, independente, justa socialmente, democrática
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0 #2 Existe vida ainda no PT ?renato machado 01-07-2011 21:23
Um amigo meu , em todos os embates do governo Lula com as elites economicas brasileiras , ele apostava que o Lula recuaria. Ganhou todas as vezes. Existe vida ainda no PT ? Se existisse , o PT estaria em uma profunda crise. Parece que não está. Como que um partido tão importante foi cair em mãos tão inescrupulosas?
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0 #1 RE: BNDES patrocina “Socialismo dos Ricos” na fusão Pão de Açúcar-Carrefour marc flav 01-07-2011 20:24
ei, você aí: a babilônia vai cair..
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