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O drama grego entra em nova etapa Imprimir E-mail
Escrito por Alan Woods   
Sexta, 01 de Julho de 2011
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O drama grego torna-se mais intenso a cada dia e hora, ameaçando a estabilidade de toda a União Européia. Ontem em meio a um clima de crescente fúria nas ruas, o governo Papandreou a duras penas superou um crítico voto de confiança enquanto dezenas de milhares de pessoas reuniam-se em frente ao prédio do Parlamento em Atenas gritando: “Ladrões! Ladrões!”.

 

A raiva do povo se voltava não somente contra as medidas de austeridade, mas também contra os políticos em geral. Um manifestante em Atenas disse à BBC: “Há uma grande indignação e você a pode perceber ao seu redor. Há um monte de desespero que está registrado nos rostos das pessoas ao nosso lado. Isso significa que não há futuro”.

 

O primeiro-ministro George Papandreou está lutando para ganhar apoio para as medidas extraordinárias de austeridade que visam evitar o calote da dívida. Mas nenhuma pessoa séria acredita agora que um calote possa ser evitado. “Creio que devemos ir à falência e acabar logo com isso. Essas medidas estão nos matando lentamente”, disse à agência de notícias Reuters Efi Koloverou, um estudante de 22 anos de idade. Sua visão é compartilhada em Bruxelas, não importa o que dali se fala publicamente. A questão não é mais se a Grécia irá ao calote, e sim apenas quando e sob quais condições.

 

O novo gabinete governamental foi aprovado no parlamento por uma margem muito estreita: 155 votos contra 143, com duas abstenções. Os membros do parlamento vão ser chamados agora para aprovar 28 bilhões de euros (25 bilhões de libras) em cortes e aumentos de impostos, bem como os planos de reforma fiscal e de privatização. Os ministros da zona do euro dizem que a legislação deve ser aprovada para que a Grécia receba 12 bilhões de euros de empréstimos dos quais necessita para pagar suas dívidas.

 

Isto já não é mais uma crise governamental; é uma crise do próprio sistema. Os sinais de alarme estão soando estridentemente em todos os governos europeus – e mais além.

 

Voto de confiança

 

O voto de confiança aconteceu logo no início da quarta-feira após acalorado debate no dia anterior. Todos os partidos políticos estão sentindo o incêndio sob seus traseiros. Em uma tentativa de afastar as chamas de seus próprios traseiros, setores da oposição fizeram um breve e pouco convincente protesto. Mas, finalmente, também aprovaram o voto de confiança. É claro!

 

Papandreou tinha uma carta de triunfo escondida na manga. A direita não quer eleições agora porque teme ganhar. A direita não quer ocupar assentos em chamas – por enquanto. Prefere que Papandreou continue fazendo o trabalho sujo para ela.

 

Da mesma forma, a ameaça de uma revolta dentro do Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK) evaporou-se como uma gota d’água em uma frigideira incandescente. Tendo feito muito barulho prévio, os deputados do PASOK votaram mansamente ao longo da linha estabelecida pela liderança. Este fato sublinha a natureza real do reformismo de esquerda. Em última análise, os “esquerdistas” não podem ter posição independente e se apegam à direita, que, como firme defensora do capitalismo, se apega à burguesia.

 

Este é o dilema eterno da social-democracia em todos os países. Uma vez no poder, ela é confrontada com a difícil escolha: ou defender os interesses da classe trabalhadora e atacar o Capital ou defender os interesses do Capital e atacar a classe trabalhadora. Inexoravelmente, ela segue o segundo caminho. Os reformistas de direita fazem isto de forma ávida e sem hesitar. Os “esquerdistas” fazem-no de forma relutante, mas o fazem de qualquer forma porque não têm nenhuma perspectiva de mudança fundamental na sociedade e são organicamente incapazes de manter uma posição firme sobre qualquer coisa.

 

Mas ter ganhado o voto de confiança não significa o fim dos problemas para Papandreou. Ele deve agora convencer o Parlamento a aprovar um pacote de cinco anos no total de 28 bilhões de euros de aumentos em impostos e em cortes de gastos até 28 de junho; caso contrário, Bruxelas ameaça retirar o seu novo pacote de “ajuda”. Isto é a mesma coisa que desligar os equipamentos que mantêm vivo o paciente na unidade de terapia intensiva.

 

O governo alemão e os outros governos dos países credores enfrentam sérios problemas políticos. Chamam a isto de “cansaço dos doadores” e reflete o chamado “cansaço da ajuda” na Grécia. Por toda a Europa, os políticos de direita estão uivando em coro: “não paguem aos gregos!”. Ao culparem o povo grego, esses chauvinistas demagogos estão tentando desviar a atenção para longe dos verdadeiros réus: os grandes bancos e o próprio sistema capitalista.

 

Desde o colapso de 2008, os governos de todo o mundo têm lançado trilhões de euros nos bancos para preencher o buraco negro deixado por décadas de especulação e estelionato. Então, informam ao público que não há dinheiro sobrando para hospitais, escolas e aposentadorias, e que “todos devem apertar os cintos” (todos, exceto os banqueiros, naturalmente).

 

Até a irrupção da crise grega, eles davam a impressão de que tinham acabado com aquela grossa vigarice da ajuda aos bancos. A crise grega revelou seu blefe. Revelou também a natureza fraudulenta da zona do euro. É verdade que a Grécia constitui um caso extremo, mas, de fato, cada governo europeu está quebrando as regras do Acordo de Maastricht. A Grécia é apenas o bode expiatório da crise do capitalismo europeu, por ser o elo mais fraco da corrente. Mas existem muitos outros elos fracos nessa corrente, e todos estão unidos e devem cair juntos.

 

Os trabalhadores gregos tiveram a coragem de se levantar contra os parasitas e agiotas. Um trabalhador grego entrevistado na televisão britânica disse: “Trabalho duro para ganhar a vida e isto é o que todo mundo faz aqui. Não sou responsável por esta crise ou pelas dívidas; então, por que devo pagar?”. Muito boa pergunta, e esta é a pergunta que os trabalhadores de toda a Europa devem estar se fazendo.

 

Keynes disse uma vez: “se um homem deve ao banco uma centena de libras, este homem tem um problema; mas se um homem deve ao banco um milhão de libras, o banco é que tem um grande problema”. Agora, a União Europeia também tem um problema muito grande. Se a Grécia chegar ao calote de sua dívida – que já constitui 150% de seu PIB – ela teria de abandonar a zona do euro. Isto provocaria enormes prejuízos para os bancos europeus que mantêm a dívida grega, em primeiro lugar os bancos alemães e franceses.

 

É um péssimo sinal que três bancos franceses já tenham reduzida sua classificação de crédito por causa de sua exposição na Grécia. Por esta razão os alemães e outros credores da Grécia não têm outra opção senão enviar mais dinheiro a Atenas, enquanto amaldiçoam em surdina. Eles sabem que, no caso de um calote grego, o contágio se espalhará rapidamente ao restante da Europa, colocando o próprio euro sob estresse insuportável e ameaçando o futuro da União Europeia.

 

Este “contágio” não se refere apenas à economia; também se aplica à política. O exemplo da Grécia está se espalhando. A manifestação de 250 mil pessoas em Barcelona, no último domingo, mostra que o movimento na Espanha continua. Na Grã-Bretanha, uma onda massiva de ações coletivas coordenadas contra os planos previdenciários do governo está sendo convocada pelos sindicatos do setor público para 30 de junho.


O comissário de assuntos monetários da União Europeia, Rehn, expressou este temor em palavras quando disse: “Encontramo-nos no ponto crítico da pior crise desde a Segunda Guerra Mundial”.

 

Implicações revolucionárias

 

O tom das declarações dos dignitários da União Europeia é cada vez mais ameaçador: você deve cortar até o osso e privatizar tudo, se não... Sob uma pressão implacável, Papandreou reformulou seu gabinete e substituiu seu ministro das finanças na última semana, após semanas de manifestações massivas.

 

O pacote da União Europeia, que está sendo delineado para o próximo mês de julho, contará com empréstimos de outros países da zona do euro. Também contará com uma contribuição voluntária dos investidores privados, que serão convidados a comprar novos títulos gregos enquanto os velhos títulos vencem o prazo. As autoridades disseram que esse dinheiro tinha que ser dado gratuitamente ou as coisas caminhariam para um calote técnico dos reembolsos da dívida grega. Mas nada do que fizerem agora dará certo.

 

O objetivo é reduzir as necessidades do governo grego de empréstimos e tornar sua dívida sustentável. Mas este pacote encontra a oposição da massa da população e ainda não está claro como se pode aprová-lo no parlamento grego. A oposição e alguns membros do próprio partido de Papandreou estão em desacordo com alguns dos cortes de gastos.


Embora reconhecendo que as medidas de austeridade são difíceis, Papandreou insiste que “não há alternativa” (o que, do ponto de vista capitalista, é verdadeiro) e repete constantemente o mantra de que a última coisa que a Grécia necessita agora é de uma eleição. Por “Grécia”, naturalmente, ele quer dizer os banqueiros e capitalistas gregos. “Neste momento de dor, quero enviar uma mensagem para todos os gregos”, disse ele. “Sim, o caminho é árduo, mas há luz no fim do túnel”. O que não mencionou foi que a luz no fim do túnel era um trem expresso vindo em direção oposta.

 

“Todos nós temos de concordar sobre a necessidade de se por um fim ao déficit. Queremos tornar o Estado mais enxuto e saudável, porque nosso país não pode assumir a carga”, alegou o líder do PASOK. Mas estas são palavras vazias. Mesmo que Papandreou consiga manter os pagamentos no futuro imediato, os mercados financeiros já assumem que a Grécia, em algum momento, deixará de pagar suas dívidas totalmente e de uma vez por todas. Standard and Poor, a agência de crédito, rebaixou a classificação de crédito da Grécia para CCC – o índice mais baixo possível antes do calote e a pior classificação de qualquer país no mundo.

 

A Grécia não é capaz sequer de pagar os juros sobre suas dívidas. Austeridade adicional, com reduções massivas de salários, demissões e cortes nas aposentadorias e outros serviços sociais, somente aprofundarão a recessão e reduzirão ainda mais as receitas fiscais, tornando a dívida ainda mais impossível de pagar. A Grécia entraria em uma espiral descendente sem fim à vista.

 

Mas o maior temor da classe dominante é a perspectiva de uma reação feroz nas ruas, o que tornaria as coisas muito piores do que até agora. Os manifestantes estão determinados a tornar o dia da votação em um importante dia de ação que vai abalar os alicerces da Grécia. Os sindicatos estão falando de uma greve geral de 48 horas. A greve dos trabalhadores eletricitários mostra que este setor sozinho tem musculatura suficiente para paralisar toda a economia.

 

A situação está exigindo uma direção revolucionária. E isto é exatamente o que está faltando. Alexis Tsipras, de Syriza, a coalizão de esquerda, disse corretamente: “Este não é um programa para a recuperação da economia; é um programa para a pilhagem antes da bancarrota”. Uma avaliação precisa. Mas, infelizmente, Synaspismos, o partido de Tsipras, não ofereceu qualquer perspectiva revolucionária para o movimento de protesto em massa. Em vez disso, caminha na sua zaga.

 

A posição da liderança do Partido Comunista (KKE) é ainda pior. Ela tem feito tudo ao seu alcance para dividir o movimento e manter os trabalhadores comunistas longe dele. Os estalinistas desconfiam de todos os movimentos que não se encontram sob o seu controle burocrático. Na melhor das hipóteses, eles vêem os protestos em massa como um meio para promover suas próprias ambições parlamentares. No pior dos casos, eles os consideram “reacionários”.

 

Isto mostra o quão distantes estão os líderes da “esquerda” do clima geral da sociedade. As organizações de massa da classe trabalhadora e, sobretudo, seus líderes, estão muito defasados. Portanto, não se deve estranhar que as novas camadas que estão se movimentando para a luta olhem para eles com desconfiança ou hostilidade, sem rodeios. Isto não é “anarquismo”, mas uma reação inteiramente justificada contra a tendência burocrática reformista, que aparece apenas como parte do establishment contra o qual as massas estão se rebelando.

 

Os movimentos na Grécia e na Espanha expuseram a mentira caluniosa de que os jovens são “apáticos”. Eles não são nem apáticos nem apolíticos. Estão dispostos a lutar, mas estão desorientados pelos partidos políticos e pelas lideranças existentes. Quem pode culpá-los? Se tivermos de escolher entre os parlamentares carreiristas e burocratas sindicais e os jovens que protestam na Praça Syntagma ou na Plaza de Catalunya, estaremos incondicionalmente com os últimos.

 

É verdade que o movimento é áspero e inexperiente. Como resultado da inexperiência, comete erros. Esses erros podem ser corrigidos com o tempo, especialmente com a ajuda da crítica paciente e fraterna dos revolucionários marxistas mais experientes. Mas a nova geração não deseja ser controlada por aparelhos burocráticos, ou manipulada e dirigida por seitas que são “marxistas” em palavras, mas que compartilham das mesmas características burocráticas e arrogantes dos velhos líderes estalinistas e reformistas.

 

A intervenção dos marxistas gregos tem sido exemplar em termos de abordagem do movimento de massas: uma combinação de firmeza de princípios teóricos e de extrema flexibilidade tática. Devemos intervir no movimento de massas e lutar para torná-lo bem sucedido. Mas também temos de denunciar suas deficiências e convencer os melhores lutadores da necessidade de uma política consistentemente revolucionária. Esta é a maneira de proceder! Os marxistas de toda a Europa devem aprender deste grande exemplo e seguir a mesma linha. É o único caminho para o êxito.

 

Alan Woods é escritor e cientista político, nascido no País de Gales.

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Última atualização em Qui, 07 de Julho de 2011
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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