Capitalismo e reforma

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As críticas de ultra-esquerda aos governos Lula e Dilma continuam batendo na tecla de que ambos não fazem nada mais do que consolidar o capitalismo no Brasil. Lula não teria discutido, e Dilma continuaria sem discutir, a reforma da educação, que deveria abarcar os conceitos de amplitude e horizontalização. Nem a reforma agrária, que continuaria escondida, como se não fosse necessária. Nem a reforma urbana, abarcando os problemas relacionados com os locais onde as pessoas vivem, trabalham e circulam.

 

O mesmo estaria acontecendo com a reforma da saúde e dos transportes públicos, com a proteção ambiental e da qualidade do solo, do ar e da água, assim como com o volume de investimento em ciência, tecnologia e pesquisa. A diferença entre a privatização anterior e a privatização dos governos petistas estaria em que estes colocariam as empresas públicas como instrumento a favor dos interesses privados. Portanto, o que existiria seria o aprofundamento do capitalismo.

 

Dilma estaria, assim, reforçando as tendências neoliberais, ao mesmo tempo em que daria continuidade ao assistencialismo do Programa Bolsa Família. No entanto, ainda segundo a ultra-esquerda, o que o Brasil precisaria seria autonomia, promoção da independência, que só se faria com reformas urbana, agrária, na educação, nos transportes e na infra-estrutura, para transformar a sociedade. Isto ainda não seria uma revolução, mas seria uma reforma que reestruturaria o que existe, dando à sociedade novo sentido, direção e conteúdo.

 

Convenhamos, se é isso o que a ultra-esquerda pretende, ela está perdendo o fôlego. Ela já se contenta em reestruturar o que existe (o capitalismo), dando a essa sociedade (capitalista) um novo sentido, direção e conteúdo, através da educação e das reformas urbana, agrária, nos transportes e na infra-estrutura, e da autonomia e independência. Que diferença tem isso com a consolidação e aprofundamento do capitalismo que, segundo ela, Dilma estaria realizando?

 

Um dos problemas da ultra-esquerda é que continua não distinguindo neoliberalismo de liberalismo. É verdade que ambas são políticas oriundas do capitalismo, do mesmo modo que o democratismo burguês. No entanto, do mesmo modo que o liberalismo foi a política de superação do democratismo burguês, o neoliberalismo é a política de superação do liberalismo.

 

O democratismo burguês marcou a revolução burguesa, prometendo liberdade, fraternidade e igualdade para todos, enquanto o liberalismo, que o sucedeu, fincou pé na liberdade de compra e venda da força de trabalho pelo capital, na fraternidade da paz social, mesmo que com o auxílio das baionetas, e na igualdade formal das oportunidades, mesmo que a igualdade formal do sufrágio universal tivesse de ser conquistada nas barricadas. De qualquer modo, o liberalismo marcou o período de consolidação do capitalismo, no qual todos os seus ramos gozavam de liberdade, fraternidade e igualdade na concorrência do mercado.

 

O neoliberalismo, por sua vez, exacerbou a chamada livre competição, mas num período em que o grau de concentração e centralização de algumas corporações empresariais transnacionais alcançaram tal nível que elas negam a competição. Praticam o monopólio e o oligopólio, especialmente financeiro, com preços administrados, que lhes permitem lucros máximos. O neoliberalismo sucedeu o liberalismo, tornando-se política específica das grandes corporações transnacionais, que inclui a destruição das grandes, médias e pequenas empresas capitalistas que lhes fazem cócegas.

 

A política neoliberal teve como vertente principal as recomendações do Consenso de Washington, que propugnavam a total desregulamentação econômica, financeira e trabalhista, o fim das barreiras nacionais ao livre comércio, a privatização de todos os ativos estatais e públicos e a desmontagem dos Estados nacionais e sua transformação em Estados mínimos, responsáveis por políticas sociais compensatórias.

 

Paralelamente, como vertente secundária e complementar, a política neoliberal compreendia a financeirização das corporações e a especulação financeira como elementos importantes na maximização dos lucros, e a segmentação dos elos das cadeias produtivas das corporações e sua re-localização em países e regiões que oferecessem melhores condições de mão-de-obra barata, infra-estrutura menos onerosa e estabilidade política e social. O conjunto das vertentes acima é o que se convencionou chamar de globalização.

 

Nos países que em que seus governos capitularam à vertente das recomendações neoliberais do Consenso de Washington, realizando uma inserção subordinada na globalização, esta representou um desastre, como aconteceu especialmente no Brasil e América Latina, levando à quebradeira do parque industrial e do Estado, e à destruição de uma parte da burguesia local.

 

No entanto, nos países que não aceitaram o Consenso de Washington, mas aproveitaram o processo de segmentação corporativa das cadeias produtivas para industrializar-se e desenvolver suas forças produtivas, ingressando de forma soberana na globalização, esta contribuiu para sua emergência como novas potências econômicas, reforçando seu capitalismo liberal, seu Estado e, em vários casos, também suas empresas estatais.

 

Esse duplo resultado do neoliberalismo o levou a perder a hegemonia que alcançara nos anos 1990. O Brasil e vários países da América Latina, que sofreram as conseqüências do Consenso de Washington, têm procurado, desde o início dos anos 2000, ingressar na senda da vertente desenvolvimentista aberta pelos países emergentes, em contraposição àquele Consenso, embora ainda sofrendo a pressão neoliberal. Afinal, o neoliberalismo das corporações transnacionais perdeu terreno, especialmente para o liberalismo, mas não morreu.

 

Portanto, se quisermos examinar as políticas do governo Lula e Dilma, e não fizermos qualquer distinção entre neoliberalismo e liberalismo, estaremos confundindo a burguesia industrial e comercial com a burguesia financeira, e as empresas nacionais médias e grandes com as empresas corporativas transnacionais. Estaremos colocando tudo num mesmo saco, sem saber o que fazer com suas contradições. O resultado só poderá ser o parto de um rato, como essa reforma de transformar a sociedade através de reformas que não tocam na propriedade dos meios de produção.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #13 Documento de Março de 1956Raymundo Araujo Filh 03-07-2011 00:42
Até o próprio PCB já criticou o Documento de Março de 1956, quando foi afirmada a política de Colaboração de Classes, com o apoio do PCB ao JK e ao Projeto de Inserção do Brasil no mundo como economia capitalista subalterna, mesmo sem que este "democrata" tenha tirado os comunistas da ilegalidade. Foram capachos, sem sequer receberem a legalidade perdida, de volta.

Foi este Documento de Março de 1956, o Ponto de Ruptura que fez com que alguns Comunistas saíssem do PCB e fundassem o PC do B, que optou pela trilha do combate que, se não vitorioso, ao menos fez história de resistência á ditadura militar deste nosso Brasil, junto com forças como ALN, Var-Palmares, entre outras.

Foram derrotados em combate, mas não silenciosos e silenciados. Se estiveram certos ou errados, sequer mais importa, pois TODOS foram derrotados, inclusive os colaboracionistas do PCB, que também sucumbiram nas masmorras e torturas da ditadura militar.

Hoje, estranhamente, são aqueles que optaram pela Luta é que capitulam à colaboração de Classes, com as corrupções e locupletações de praxe,em apoio ao Lulla e DiLLma, estando hoje, o PCB (autor do documento de 1956, em crítica a aquela aventura colaboracionista.

Wladimir Pomar com este artigo apenas reproduz um passado iníquo e covarde de forças de esquerda, constituindo-se então, a meu ver, um Dinossauro Pré 1956.

Só ainda não sei se o comentário de número 3 (B.EeN.S/ C. Ser) é uma gozação ao Wladimir Pomar, ou se é, assim como o de número 2, apenas uma aterradora má formação política de jovens brasileiros, aprendendo desde cedo que a covardia política e aliança com setores que nos oprimem, fossem caminhos viáveis para a nossa libertação econômica.

Não, garotada! O que Wladimir Pomar propõe já foi tentado em inúmeros países e TODOS deram com os Burros N'Água. Para os interessados, disponibilizo o meu e-mail , para distribuição de textos sobre isso, caso solicitados
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0 #12 RE: Capitalismo e reformaFernando 02-07-2011 02:49
Não sei o que está mais confuso: o artigo ou os comentários.
Parece que algum professor maldoso mandou os alunos torturarem-se com esse palavrório vazio. Tenha dó, mestre!
Os alunos são os menos culpados. Ninguém merece mascar esse chiclete de feijoada indigesto
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0 #11 Capitalismo e reformavaleriamauricio 30-06-2011 01:32
É certo que,no governo Lula,desenvolvemos nossas relações com os estrangeiros e com isso,crecemos economicamente,mas,esse lucro,não foi repassado na forma de investimento.A população brasileira ainda sofre,com preços altos,na alimentação,problema que a competição industrial, resolve fazendo ofertas de produtos,por tempo determinado para enganar oconsumidor,que pensa,não haver inflação.
O Brasil precisa se tornar liberal,na sua política econômica/financeira,não para agradar investidores estrangeiros mas,para que haja uma aplicação de lucros,justa e nos setores nesessários:educação,saúde,agr icultura epecuária,isso seria realmente o "Fome Zero" e não a política assistensialista do governo Lula que,continua com a Dilma.
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0 #10 RE: Capitalismo e reformaHector Ferreira Gonç 29-06-2011 15:54
"Afinal, o neoliberalismo das corporações transnacionais perdeu terreno, especialmente para o liberalismo, mas não morreu".

aonde esse senhor vive?
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0 #9 RE: Capitalismo e reformaFernanda - 9° Ser 29-06-2011 12:43
O governo brasileiro deveria parar de só de encobrir o problema (fome, pobreza, desemprego, etc) e resolvê-los. Parar de só dar as coisas na mão do povo - assistencialismo -, e fazê-los trabalharem dignamente. Ensiná-los a buscar seus direitos promovendo campanhas de conscientização. Como o velho ditado diz: "Parar de dar o peixe e ensinar a pescar".
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0 #8 minha opiniãoGabrielle - 9º Ser! 29-06-2011 12:39
“Dilma estaria, assim, reforçando as tendências neoliberais, ao mesmo tempo em que daria continuidade ao assistencialismo do Programa Bolsa Família.”
Em minha opinião a Dilma tentou reforças o neoliberalismo, mas se ela tivesse feito algo do tipo o Brasil teria melhorado um pouco mais do que já é.
O programa da Dilma sobre o Bolsa Família não resolve muito o problema, pois só vai “empurrar com a barriga” , ou seja, o problema não será resolvido por imediato e nem a longo prazo, pois a maioria das famílias só vivem disso e não querem trabalhar pensam que sempre terá o dinheiro e a comida pra si próprio sem fazer esforço.
O Bolsa Família é mais conhecido como uma assistência, como podemos observar no trechinho retirado e copiado logo no início do texto, pois tudo o que se faz neste programa é considerado uma assistência que para mim não resolve o problema por completo,mas sim ajuda a amenizar .
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0 #7 RE: Capitalismo e reformaGabriel-Colegio Ser 29-06-2011 12:38
Bom, nada disso é mentira mas o que podemos fazer essa e a verdadeira pergunta. A maioria do povo brasileiro apoia a política do Lula e da Dilma e eles estão bem e nao vao mudar.
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0 #6 RE: Capitalismo e reformaNatali e Ana - Ser 29-06-2011 12:14
O texto crítica o governo dizendo que o governo do Brasil investe demais na economia e esquece dos outros setores como a educação, violencia, exclusão social, fome, etc.
Nós achamos que o texto faz uma boa crítica à isso, e também mostra que sabe sobre o assunto pra poder julgar.
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0 #5 RE: Capitalismo e reformaIsabela/Rhaisa ser 29-06-2011 12:12
No meu conceito penso que é errado o Brasil "assinar embaixo o que determinou o Consenso de Washington" , pois eles se fixam em investimentos na bolsa de valores, na economia, no geral; e acabam esquecendo da parte social, áreas mais urgentes para a população. Além do Consenso de Washington ser injusto por fixar só em países que tem condiçoes para esse desenvolvimento, dando vantagens só aos paises desenvolvidos.
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0 #4 RE: Capitalismo e reformaMatheus e Igor - Ser 29-06-2011 11:53
Na minha opinião, a Dilma deveria não fazer as reformas no Nordeste, mas no Brasil, como um todo.
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