A governabilidade da podridão

 

 

Em priscas e longínquas eras, ainda no tempo daqueles famosos debates que a resistência contra a ditadura reunia no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, o então deputado Fernando Lyra produziu uma definição que marcou época: o Sarney é a “vanguarda do atraso”. Era um elogio, que ao mesmo tempo ancorava uma proposta política. Juntar a “vanguarda do atraso” com o “atraso da vanguarda” para que o transito da ditadura para a democracia formal se desse na forma que, de fato, sucedeu: a “transição intransitiva”.


A criatividade de Lyra, ancorada na “virtude” de sua origem - ele era um dos expoentes dos “autênticos” do MDB - passou a prestar serviço aos desígnios da “fortuna”. Ele foi ministro do Sarney (continua a oferecer palpites: o tal “distritão” que acaba de vez com os partidos, no debate atual da reforma política), mas virou carta fora do baralho, superado pelos acontecimentos. Os empresários que financiavam a OBAN passaram a deslocar seus “recursos não contabilizados” para os computadores do PC Farias e a modernização autoritária dos militares assumiu a feição neoliberal da modernização conservadora. A ditadura acabou, mas não houve a renovação das práticas políticas.


Fernando Henrique Cardoso, outro nutrido na “virtude” da origem, intelectual de proa e expoente da resistência contra a ditadura, também se dobrou aos mesmos desígnios da “fortuna”. É dele uma curiosa formulação que repete o raciocínio daquele outro ex-autêntico. Com as artes da sociologia, definiu como imperativo categórico o domínio do conservadorismo na política brasileira. Com as artimanhas da política velha, diz que a polarização entre os tucanos e o petismo, na realidade, não passa de uma disputa para ver quem hegemoniza o “atraso”. Sem dúvida, um juízo conformista que ainda não foi desmentido pela realidade.


Entre todos os “virtuosos” da origem, o pontífice máximo é o Lula. Retirante, sindicalista, a mais expressiva liderança popular da resistência democrática, ele fez história como líder putativo da esquerda na luta por mudanças, no modelo econômico e nas práticas políticas. No governo, ao contrário do Getúlio, ele resolveu “sair da história para cair na vida” e se entregou, de forma espetacular, nas rodas da “fortuna”. Posto lá em cima pela esperança de mudança, ele tem se revelado um craque da pequena política. Engrossou o caldo da argamassa viscosa que articula a macro-economia da exclusão com o intestino grosso fisiologismo, fornecendo consistência nova para a geléia geral brasileira.


Infelizmente, o Nicolau que orienta os movimentos erráticos da nossa política não é o genial mestre florentino, mas aquele que no ditado popular “mexe o mingau com colher de pau”. O episódio Renan Calheiros, que estraçalha a reputação das instituições e da política, é o retrato do momento. O Lula, com sua base aliada, e a oposição de mentira (concorda na macroeconomia e compartilha a micro-política) passam a mão na cabeça do indigitado presidente do Congresso Nacional. Faz sentido. Afinal, a “vanguarda do atraso” é imprescindível para a manutenção da hegemonia neoliberal, para a condução da qual tucanos e petistas disputam a primazia. Uma disputa onde a “virtude” escasseia e a “fortuna” abunda, onde a violência da exclusão social se sustenta na “governabilidade da podridão”.



Léo Lince é sociólogo.

 

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