Licença para matar e desmatar

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Existe, sim, um nexo efetivo entre a votação do Código Florestal e os novos assassinatos de trabalhadores rurais. Não adianta negar. Por mais que cause irritação em setores do governo, nos donos do agronegócio e nos políticos que lhes prestam serviço no parlamento brasileiro, tal vínculo existe. É ele, aliás, que explica também o surto atual de crescimento das áreas desmatadas.

 

Quem aperta o gatilho, claro, é um pistoleiro de aluguel. Mata, arranca a orelha para provar a execução do serviço, recebe o pago do mandante e fica acoitado na espera de novas encomendas. Pistolagem, grileiros, contrabando de madeira de lei, desmatamento ilegal, entre outras, são violências antigas no campo brasileiro. Mas flutuam de intensidade a depender das relações de forças na política. Os que assassinam opositores e destroem florestas estão, na quadra atual, certos da impunidade, e se imaginam respaldados de cima.

 

O método do arrastão com correntes entre tratores abre clareiras quilométricas. Por sua ostensiva visibilidade, só é praticado quando se tem a absoluta certeza da impunidade. O mesmo acontece com o assassinato de trabalhadores com militância ambiental. Trata-se de recado para sinalizar posição de mando, intimidar, definir quem reina no pedaço. Sem garantia de impunidade, seria um tiro pela culatra. São crimes conexos e articulados ao estupro do Código Florestal. Quando os conservadores ostentam maioria em cima, os que barbarizam na base nadam de braçada.

 

Estufadinhos de dinheiro, os donatários do agronegócio estão com a bola toda na política. A corporação dos ruralistas hegemoniza um espantoso arco de alianças. Os maiores partidos da mal chamada oposição, PSDB e DEM, votaram com eles. A maioria da base de apoio do governo, o PMDB unido e boa parte do PT, também. Vale ressaltar, para espanto de alguns, o papel desempenhado no processo pelos ex-comunistas do PC do B. O deputado Aldo Rabelo, com seu semblante de jagunço, foi o relator da matéria e assumiu a condição de grande timoneiro da proposta conservadora. Segundo as más línguas, ele operou, na linha chinesa, como bom discípulo de Deng Xiaoping: “não importa a cor do gato, importa é que ele financia campanha...”.

 

O governo, atordoado pelo descontrole total de sua base, reagiu como quem ainda não sabe o que fazer. Formou grupo interministerial, criou comissões. Michel Temer, o vice em exercício, antigo mordomo que agora dá cartas, requentou velhos programas e liberou grana parca para pequenos deslocamentos burocráticos. Quantia ridícula, que não paga palestra do Lula, nem consultoria do Palocci. Maria do Rosário, responsável pelos direitos humanos, disse que não pode garantir segurança sequer para um terço da lista dos ameaçados de morte.

 

Os marcados para morrer que se cuidem, pois a alma do governo está empenhada ao agronegócio. Como afirmou o advogado da Comissão Pastoral da Terra em Marabá, José Batista Afonso, “o governo desde o início optou por acordo com setores ligados ao agronegócio para garantir a governabilidade e abriu mão de implementar políticas públicas que contrariassem esses interesses”. Tratados a leite gordo, os herdeiros da violência secular do latifúndio vão continuar aprontando, da ponta engomadinha até a cauda envenenada.

 

Donatário de capitania, senhor de engenho, latifundiário, grande fazendeiro, ruralista, os nomes mudam, mas a mentalidade é a mesma. São tiranos de baraço e cutelo, donos de gado e gente, portadores de uma arrogância consolidada em cinco séculos de latifúndio. Os debates sobre o Código, transmitidos ao vivo pela TV Câmara, atualizaram esta triste realidade.

 

Em pleno século 21, a hegemonia dos reacionários nos faz lembrar Oswald de Andrade. Na mesma década do século passado, falando sobre realidades vindas de séculos anteriores, ele escreveu um poema que parece mais atual do que nunca. O título, ao modo da época, é “Senhor Feudal”.  São cinco breves versos que resumem o que continua valendo: “Se Pedro Segundo/Vier aqui/Com história/Eu boto ele na cadeia”.

 

Os donos da terra se julgam donos de tudo e não aceitam qualquer limite para seu arbítrio absoluto: não precisam de licença para matar e desmatar.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

Comentários   

0 #5 Licença para matar e desmatarvaleriamauricio 12-06-2011 01:02
É um absurdo!Mas é o preço,muito caro,que nós do povo,temos que pagar.
Essa aliança,feita pelo PT,só favoreceu à ele próprio,enquanto isso,trabalhadores e,pessoas honestas,morrem por defender e exigir seus direitos e,os responsáveis pelos direitos humanos,não podem garantir suas sobrevivência.
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0 #4 EducaçãoChristian Arrais 07-06-2011 08:25
É muito triste saber que em pleno século 21
o Brasil está cada vez mais desdentado,
analfabeto e egoista. A sociedade está mui-
to preocupada consigo mesmo e esquecendo do
coletivo. A prova foi o estrupo anunciado no código florestal e a barragem de monte
belo. Precisamos repensar sobre o que é
sociedade moderna ou sociedade egoista, em o que importa é o que eu tenha de ime-
diato, o que eu vou ter ou não vou ter no futuro não interessa. É triste muito triste saber que este governo é mais um
governo que vem privilegiar aos que são
privilegiados desde que o babaca do Pedro A. Cabral resouvel trocar a rota e vir pa
ra a terra Brasilis. Educação só educação
pode transformar esta sociedade da qual faço parte, em um país mais decente de se
viver.
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0 #3 Eco-caficultorhernan 06-06-2011 20:54
El modelo de desarrollo viola todosloacuerdos de protecion de los espacios verdes que son el soporte del clima y el tiempo metereologico la destrucion de estos espacios de conservacio que fue la gran recomedacion de los profesores cuando estudiamos en CETESB Sao Paulo el documento del Dr Leo anuncia la incapacidad del estado para defender los recursos naturales y la imposicioj por la fuerza de los autores del crimin ecologico , a los cuales dbemos orientar por medio de la concertacion , es un gran documemto que se debe publicar a todo viento y marea para que las comunidades lo conoscan
felicitaciones LEO por su gran trabajo
aadeus hernan
Filandia Quindio /Colombia
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0 #2 RE: Licença para matar e desmatarMarco Antonio 06-06-2011 19:12
Assino embaixo.
O agronegócio depredador "nunca dantes na história deste país" esteve tão eficientemente guarnecido por um governo, como nos anos dos governos petistas.
A adesão dos petistas, dos ex-comunistas pecedobistas e seus aliados de circunstância dão todas as garantias ao retrógrado e truculento coronelismo "moderno" batizado de ruralistas.
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0 #1 Mansos como cordeirosrenato machado 04-06-2011 12:45
Por favor , não podemos cair nessa conversa fiada: ... para garantir a governabilidade o governo está agindo assim ou assado. A maioria do PT ( Lula , Palocci , Zé Dirceu , Guschiken ,etc) compos essa aliança em 2002 para "entrar no clube" ou foram ingênuos demais achando que estavam com cartas na manga. Raramente foi perguntado de que forma se deu essa aliança. Houve documentos escritos ? Qual foi o programa mínimo estabelecido ? Claro que isto não foi feito. - Faça o que você quiser , nós , os ricos somos intocáveis e ponto - . E assim foi. Governabilidade para quem ? O governo de Olívio Dutra , do PT , no RS , foi um governo de esquerda ,que implementou uma série de políticas públicas e de radicalização da democracia. Foi derrotado em uma prévia pelo conservadorismo do PT. O pior de tudo professor Lince é que não há crise a vista no PT , nem no PC do B , nem na CUT , nem na UNE. Nos parece que há uma unanimidade de apoio a essas alianças com o que há de mais reacionário.
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